Entre o som e o silêncio: Terras sem Sombra estreia-se em Reguengos de Monsaraz
A edição deste ano do Festival Terras sem Sombra passa pela primeira vez por Reguengos de Monsaraz, distrito de Évora, no próximo fim-de-semana, 23 e 24 de Fevereiro, fazendo ecoar em pleno coração do Alentejo um dos mais reputados ensembles de música de câmara da atualidade, lançando um olhar sobre a estética das justiças divina e humana e propondo uma leitura da paisagem da região.

Igreja Matriz de Nossa Senhora da lagoa, em Monsaraz, onde se realiza o concerto (Foto: Direitos reservados)
O concerto do Trio Arbós na vila medieval de Monsaraz inaugura a Mostra Espanha 2019, o grande ciclo de eventos de cultura do país vizinho em Portugal, fruto da colaboração bilateral luso-espanhola. Um acto que soa como uma espécie de celebração do alargamento do Terras sem Sombra a território espanhol, já que esta é uma das novidades da 15ª edição do festival itinerante do Alentejo que une, ao longo de seis meses – de Janeiro a Julho – a música, o património cultural e a biodiversidade, passando por onze localidades alentejanas e duas da Extremadura espanhola: Valência de Alcântara e Olivença.
Aos sons da música tardo-romântica, juntam-se os matizes da pintura mural do tempo de D. Manuel I, e uma interpretação das paisagens serenas de um concelho ímpar, banhado pelas águas do grande lago do Alqueva.
A exaltação da música de câmara

Trio Arbós (Foto: Direitos reservados)
A igreja matriz de Nossa Senhora da Lagoa, em Monsaraz, acolhe no sábado, 23, às 21h30, o concerto A Ordem Natural das Coisas: Música Espanhola e Portuguesa dos Finais do Século XIX, pelo Trío Arbós. O grupo madrileno nasceu em 1996, tem o nome do violinista, maestro e compositor espanhol Enrique Fernández Arbós (1863-1939), o seu repertório estende-se dos autores clássicos e românticos até à contemporaneidade. Residente, desde 2005, do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía, foi galardoado, em 2013, com o Prémio Nacional de Música de Espanha, e é considerado um dos mais reputados ensembles de câmara europeus.
Mestres da música tardo-romântica, a violinista Cecilia Bercovich, o violoncelista José Miguel Gómez e o pianista Juan Carlos Garvayo interpretam um repertório composto por obras de Felipe Pedrell (1841-1922), Joaquín Malats (1872-1912) e Enrique Granados(1867-1916). A seleção musical conta ainda com a junção de três fados de Alexandre Rey Colaço, transcritos especialmente para trio por Garvayo. Filho de mãe espanhola e pai francês, mas com raízes portuguesas, Rey Colaço nasceu em Tânger, em 1854, e morreu em Lisboa, em 1928. A sua obra é um testemunho da intensa ligação entre músicos portugueses e espanhóis na transição do século XIX para o XX, servindo de inspiração para um concerto que torna patente como, aos olhos da sensibilidade artística dessa época, a música de câmara era um modelo ideal de como o ser humano pode contribuir para o bem comum.
Um olhar sobre o fresco do Bom e do Mau Juiz

Em 1958, foi descoberta no antigo tribunal de Monsaraz, atualmente museu, uma invulgar pintura a fresco datada de finais do século XV, uma obra-prima da arte tardo-gótica, que evoca, em forma de alegoria, as Justiças Divina e Humana.
Na parte cimeira, apresenta a figura de Cristo em majestade, supremo juiz, assente no globo terrestre com a inscrição (E)VROPAe ladeado por profetas e anjos músicos, indicando o Alfae o Ómega, simbolizando respetivamente o Princípio e o Fim dos Tempos. Na secção inferior e principal retrata as figuras do Bom e do Mau Juiz, sentados nas respetivas cátedras e acompanhados por figuras comuns de um julgamento civil – os escrivães. Enquanto o primeiro segura a vara recta da justiça e, enquadrado por anjos que apontam para o Alto, olha serenamente para diante, o outro tem duplo rosto e a vara da justiça quebrada. As figuras que encimam as cadeiras do Bom e do Mau Juiz são a Misericórdia no juiz íntegro e a perversão expressa na cabeça de um demónio no juiz corrupto.
Esta obra-prima é o ponto de partida para uma visita ao Museu do Fresco e para uma conversa em torno do mote O Bom e o Mau Juiz: Alegorias da Justiça na Audiência de Monsaraz, que terá lugar no sábado, a partir das 15h00. A visita será guiada pela historiadora Ana Paula Amendoeira, directora regional de Cultura do Alentejo, e pela conservadora-restauradora Milene Gil, do Laboratório Hércules, que coordenou a recente intervenção desta estrutura da Universidade de Évora na composição mural de Monsaraz.
A metamorfose paisagística e as águas do Grande Lago
A manhã de domingo, 24, será consagrada, a partir das 9h30, à interpretação da paisagem do município. Esta actividade, subordinada ao tema Interpretar a Paisagem: Reguengos de Monsaraz e o seu Hinterland, decorrerá sob a orientação de dois geógrafos: Teresa Pinto Correia e José Muñoz-Rojas. O ponto de encontro é nas portas da vila, em Monsaraz.
A iniciativa pretende explicar as principais mudanças que o panorama do concelho tem sofrido nas últimas décadas nas áreas da vinha, do olival e, complementarmente, com o impacto da albufeira do lago Alqueva – a maior massa artificial de água na Europa.
Todas as atividades, organizadas em parceria com o Município de Reguengos de Monsaraz, são de acesso gratuito e sem inscrição prévia.
Um festival feito de viagem
O Terras sem Sombra, que viaja pelo território alentejano (e que, este ano, se estende além dele), passará, nas próximas semanas, por Valência de Alcântara e Olivença (na Extremadura espanhola), Beja, Elvas, Cuba, Ferreira do Alentejo, Odemira, Barrancos, Santiago do Cacém e Sines.
Sobre a Terra, Sobre o Mar – Viagem e Viagens na Músicaé o mote da edição deste ano, naqual se celebram os 550 anos do nascimento do sineense Vasco da Gama e os 500 anos da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães.
Ainda antes do início oficial, o festival – que tem como país convidado os Estados Unidos da América –foi apresentado em Washington, a 14 de Janeiro, no Kennedy Center, com uma atuação de cante alentejano pelo Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de S. Bento.

O Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de S. Bento, na chancelaria da embaixada portuguesa em Washington (Estados Unidos), a 14 de Janeiro: uma pré-abertura do festival alentejano em terras da América (Foto: Direitos reservados).
O Terras sem Sombra, que já passou por Serpa (8 e 9 de Fevereiro), começou em território nacional a 26 de Janeiro, na Igreja Matriz de São Cucufate, em Vila de Frades (Vidigueira), com o concerto do Spelman College Glee Club, do estado da Geórgia – de onde virá o consagrado Kronos Quartet para protagonizar o concerto de encerramento, no fim-de-semana de 6 e 7 de Julho, em Sines.
Ao todo são 13 fins-de-semana distintos, cada um numa localidade diferente, e quase 50 atividades, entre concertos, conferências, visitas ao património e ações de salvaguarda da biodiversidade. Afirmar o Alentejo enquanto destino privilegiado de arte e natureza é o grande objectivo da iniciativa, cuja organização é da Associação Pedra Angular.
Até ao primeiro fim-de-semana de Julho, ouvir-se-á todo um mundo de sons, do século XV ao século XXI. Desvendar-se-ão os monumentos e paisagens megalíticos em Valência de Alcântara (9 de Março); aprofundar-se-ão as raízes portuguesas em Olivença (23 de Março); seguir-se-á a rota antiga dos pastores em Beja (7 de Abril); descobrir-se-á o património material da arte popular e da arte contemporânea que coexistem em Elvas (27 de Abril); conhecer-se-á o escritor Fialho de Almeida, natural de Cuba (4 de Maio); descobrir-se-á a villaromana do Monte da Chaminé em Ferreira do Alentejo (11 de Maio); contar-se-ão as histórias de São Martinho das Amoreiras, em Odemira (25 de Maio); observar-se-ão as constelações no cristalino céu nocturno de Barrancos, enquanto se contam as lendas locais a elas associadas (8 de Junho); visitar-se-á o Palácio da Carreira em Santiago do Cacém (22 de Junho) e o Farol do Cabo de Sines (6 de Julho).
Mais informações sobre o festival, incluindo a programação completa, estão disponíveis aqui.
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Cultura e artes
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Livro em cinco línguas
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