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Momento do I Encontro Sinodal Nacional em Fátima, que decorreu no dia 11 de janeiro de 2025. Foto © António Marujo/7MARGENS

II Encontro Sinodal Nacional este sábado, em Fátima

Entre “resistências do clero” e “algum alheamento dos leigos”, a sinodalidade vai avançando em Portugal

| 10/01/2026

Sim, o caminho de implementação do Documento Final do Sínodo já começou e, ao longo do último ano, vários foram os avanços registados nas diferentes dioceses do país. Avanços esses que serão partilhados este sábado, 10 de janeiro, em Fátima, durante o II Encontro Sinodal Nacional, promovido pela Conferência Episcopal Portuguesa. Mas, a par dos avanços, houve – e continua a haver – muitas resistências e dificuldades, reconheceram ao 7MARGENS três dos membros de equipas sinodais diocesanas que participarão no encontro. E todos eles consideram que este momento de partilha em Fátima é importante para encontrar formas de ultrapassar os desafios e seguir caminho juntos.

É o caso do padre José Júlio Rocha, coordenador da equipa sinodal da diocese de Angra (Açores), onde foi iniciada, em 2025, uma caminhada de nada mais nada menos que nove anos, até 2034, data em que a diocese celebrará os 500 anos da sua fundação. E “toda esta caminhada foi pensada em estilo sinodal”, destaca o presbítero, apresentando exemplos de alguns passos importantes que já foram dados pelo bispo Armando Esteves Domingues, chegado à diocese há pouco mais de três anos, tais como a nomeação de leigos para presidir a serviços diocesanos (são já 13, neste momento), a realização, em abril de 2025, de uma Assembleia Conjunta dos Conselhos Presbiteral e Pastoral Diocesano, “toda ela segundo o método da conversação no Espírito”, ou a criação de uma equipa sinodal, “destinada a acompanhar, durante a caminhada diocesana, a implementação dos processos sinodais nas ouvidorias e paróquias”.

José Júlio Rocha, que é também o vigário episcopal para o clero da diocese, salvaguarda que o facto de ser ele – um padre – a coordenar essa equipa sinodal não é um sinal de menos sinodalidade, antes pelo contrário. E justifica assim aquela que foi uma opção estratégica: “Já percebemos que o eixo central de toda a caminhada sinodal passa necessariamente pelo clero. São eles os primeiros a serem sensibilizados para o processo sinodal e quase tudo deve passar por eles, nem que seja pelo simples facto de que a Igreja ainda está demasiado clericalizada e o laicado não ter, neste momento da Igreja, a força necessária para se autodeterminar. Dar voz aos leigos passa necessariamente pelos padres. Por isso, na diocese de Angra o coordenador da equipa sinodal é um sacerdote, mais especificamente o vigário episcopal para o clero, com um objetivo específico: mais do que ser representativa, a equipa sinodal deve ser prática e levar a cabo os seus objetivos. Tudo isso passa, necessariamente, pelos padres.”

No caso de Beja, que acolheu um novo bispo há ainda menos tempo, este último ano também foi “de grandes mudanças”, que colocaram a diocese no caminho sinodal, conta ao 7MARGENS Clara Palma, coordenadora da equipa sinodal diocesana. De facto, esta equipa “foi uma das que foram revitalizadas” e “a sinodalidade tornou-se o pano de fundo do Plano Pastoral 2025/2026”, em torno do qual se sente “um entusiasmo muito positivo”, observa.

Entre outras iniciativas, “foram recolhidos contributos do Conselho Pastoral Diocesano e do Conselho Presbiteral, usando o método da conversação no Espírito”, que deram origem a “uma série de sugestões e recomendações, contributos preciosos para o nosso bispo”. Além disso, a equipa sinodal promoveu três encontros por zonas arciprestais, que “chegaram a cerca de 200 pessoas, e é a partir delas que queremos chegar a todas as paróquias, a todas as comunidades”, sublinha Clara Palma.

A psicóloga social, de 57 anos, conta ainda que, já esta semana, iniciou as suas atividades a Escola de Cultura Teológica da diocese, que “vem em grande medida dar resposta a uma das sugestões recolhidas (formação que permita aprofundar a fé)”.

Na diocese do Porto, onde não houve mudança recente de bispo, o último ano foi “marcado pela continuidade do caminho sinodal”, diz por seu lado Vera Cruz, professora de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) e membro da equipa sinodal que também marcará presença no encontro deste sábado. “Destaco o aprofundamento da sinodalidade como estilo de Igreja, visível na valorização da participação, da corresponsabilidade e no anúncio da realização de um Sínodo Diocesano”. O que não significa que não haja dificuldades: estas “são algo que permanece e que se nota nas respostas dadas, que ficou um pouco aquém do esperado”, afirma Vera Cruz, reconhecendo que “ainda existem algumas resistências à mudança de modelos mais tradicionais de funcionamento eclesial”.

 

Encontros que dão “empurrão” e afinam velocidades

A professora de 51 anos, que é membro ativo na paróquia de Espinho, já havia marcado presença no I Encontro Sinodal Nacional, que se realizou há precisamente um ano, também em Fátima [ver 7MARGENS].

“Grande ânimo e expectativa” para o primeiro Encontro Sinodal Nacional

“O encontro foi bastante importante por ter sido a minha primeira experiência e contacto com outros membros de dioceses diferentes, o que me permitiu perceber que trabalhos estavam a ser desenvolvidos e como estavam a ser desenvolvidos”, recorda Vera Cruz. “Percebi também as dificuldades que todos temos e que juntos podemos ser e crescer muito mais”, acrescenta.

Para a docente de EMRC, “o encontro sinodal nacional é fundamental para reforçar a comunhão entre dioceses, partilhar experiências e discernir caminhos comuns para a implementação do Documento Final”. Quanto ao encontro deste ano, Vera Cruz espera “que seja um espaço de verdadeira partilha e escuta mútua profunda, aprendendo uns com os outros; e que também se possa clarificar formas mais criativas e contextualizadas de colocar em prática as propostas do Documento Final, especialmente na vida das paróquias e movimentos, e que essencialmente fortaleça a esperança e a confiança no Espírito como guia de todo o processo”.

Clara Palma, que tal como Vera participou no encontro de há um ano, concorda: “encontros de partilha são sempre importantes. O do ano passado foi muito bom para nos dar o empurrão inicial, e espero que neste já possamos partilhar experiências concretas que nos possam ajudar nos diferentes contextos em que nos movemos”, diz ao 7MARGENS.

Na diocese de Beja, Clara sente que continuam a existir algumas resistências: “alguns irmãos sacerdotes ainda estão um bocadinho de pé atrás com este tema da sinodalidade. Temos de nos esforçar mais para os ajudar a perceber que toda a Igreja tem a ganhar com este processo e com esta forma de ser Igreja”, defende. E considera que “a maior dificuldade, que é também um grande desafio, é a dispersão geográfica “.

Do mesmo modo, o padre José Júlio Rocha assinala que o facto de a diocese de Angra se estender por “nove ilhas, dispersas ao longo de 700 quilómetros, cada uma com a sua dimensão e idiossincrasia específicas, é talvez o maior desafio em todas as dimensões, incluindo a sinodal”. O presbítero também afirma que se “notam resistências por parte do clero e algum alheamento por parte do laicado” em relação à sinodalidade. “Mas o caminho está a começar agora” e “estes encontros sinodais em Fátima são extremamente importantes para que a Igreja em Portugal não faça uma caminhada sinodal a duas, três ou mais velocidades, mas para que todos façamos um caminho conjunto”.

Até porque, para este padre de Angra, com 57 anos, não restam dúvidas de que “a sinodalidade é constitutiva da própria Igreja, como se pode ver nas primeiras comunidades cristãs” e o Papa Francisco veio mostrar que ela “é, simplesmente, a melhor forma de pôr em prática o Concílio Vaticano II: Povo de Deus que caminha em direção a um lugar chamado ‘Reino dos Céus’, que é a essência da pregação de Jesus.” Por isso, defende, “a Igreja em Portugal deve ser, cada vez mais, uma grande comunidade que vive segundo o Espírito. Sinodalidade é também perceber que o Espírito Santo não se revela só à hierarquia: todo o povo profetiza”.

 

Leigos com poucas “responsabilidades reais” e uma “grande questão”

encontro sinodal, Sinodo

Reflexão em grupos durante o I Encontro Sinodal Nacional. Um dos grandes desafios neste caminho da sinodalidade continua a ser a participação efetiva dos leigos. Foto © Ricardo Perna/Diocese de Setúbal

Este sábado, em Fátima, estarão presentes os bispos portugueses, mas também representantes das equipas sinodais e organismos de participação das dioceses de todo o país, bem como representantes da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP), da Conferência Nacional dos Institutos Seculares de Portugal (CNISP) e dos serviços e organismos da CEP, num total de mais de 160 pessoas, muitas delas leigas.

Mas, para Clara Palma, um dos grandes desafios neste caminho da sinodalidade continua a ser a participação efetiva dos leigos. “Os carismas vão sendo reconhecidos, é certo, mas ainda falta dar passos no sentido das responsabilidades reais”, afirma.

Também o padre José Júlio Rocha considera que “o grande obstáculo [à sinodalidade] é o clericalismo, que se revela em muitas faces, desde o medo de perder poder e influência até ao facto de a própria Igreja se ter ‘habituado’, durante demasiados anos, ao facto de que a hierarquia manda e o povo obedece”. Esse clericalismo manifesta-se não apenas “na atitude dos padres que não querem perder influência”, mas também, “e talvez sobretudo, na atitude passiva e muitas vezes subalterna dos leigos, que foram reduzidos, durante demasiado tempo, à condição de membros passivos da Igreja”, refere.

“Por outro lado – acrescenta o responsável da equipa sinodal de Angra – uma das realidades que fazem a Igreja demasiado clericalizada é o facto de ela esgotar grande parte da sua missão na liturgia, onde quem preside é o clero”. O padre José Júlio Rocha considera que “precisamos de uma Igreja mais ‘mundo’, mais ação, mais amor, mais denúncia, mais empenhada com o pobre e com a libertação, Igreja em saída, fermento, hospital de campanha, Igreja que oferece plenitude de sentido de vida”. E lembra que é precisamente aí que “os leigos assumem toda a sua proeminência”.

“Para quando esta Igreja?”, pergunta. “É esta a grande questão da sinodalidade”. E talvez seja também uma boa questão para colocar em Fátima neste sábado.

 

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