“Entre-Tanto somos símbolos e habitamos símbolos”

| 25 Mar 19

O cenário e o solo em que nos vamos formando desde esses primeiros anos que o tempo se encarrega de remeter para os recantos de penumbra da nossa memória, é singular, único até.

Longe vão os tempos, pelo menos para quem vive num paradigma cultural ocidental, em que um ou dois livros formavam gerações. Penso, por exemplo, no caso de alguém que nasceu em 1564 em Stratford-upon-Avon, e que foi formado pela Bíbliae pelos clássicos gregos e romanos.

Refiro-me a Shakespeare, como é óbvio.

Há muito que os nossos paradigmas educativos perderam um núcleo formativo transversal aos vários grupos sociais, como sucedia na minha remota “instrução primária”. Com efeito, hoje em dia, decorrente da ausência de um centro, esse núcleo formativo, radicalmente individual, pode ser desvendado em vozestão excêntricas como as de… um boneco de borracha.

Esclareço.

Referiu um dia George Lucas que alguém lhe confidenciara ter encontrado respostas para as suas inquietações existenciais nas palavras do Mestre… Yoda.

Serve este prólogo para esclarecer que o meu núcleo formativo, inicialmente devedor dos livros de leiturada “instrução primária”, foi modulado pelas lentes anglo-saxónicas, com tudo o que estas em si encerram de matizes no seio do protestantismo, como as fascinantes modelações puritanas.

Daí que amiúde me aproxime de solos estranhos a essas lentes através de subtilezas e analogias que elas me ensinaram a desvendar. Penso, por exemplo, nos diagnósticos formulados em ensaios do americano Ralph Waldo Emerson e do irlandês William Desmond, e na poesia de Walt Whitman, que, de imediato, reconheciem meditações teológicas de um… jesuíta português.

Refiro-me a essa fascinante obra que é Entre-Tanto, de José Frazão Correia sj.

Ora, uma das coisas que os anglo-saxónicos me ensinaram foi o chamado método indirecto. Por isso, ainda antes de sinalizar aquelas presenças, comecemos por antever alguns sintomas, como o título desta mesma obra: Entre-tanto. Não Entretanto, mas Entre-tanto. Um hífen cortava a palavra em duas, decompunha-a, para logo a recompor. Evidenciava que o tempo, o instante entre um antes e um depois, coexistia com um lugar, entre-tantoou no meio de tanto, ou no seio de tantoou algures no tanto, não necessariamente no centro, talvez nas margens, na fronteira, mas sempre algures no tanto, dentro do tanto.

Na verdade, a pedagogia desta obra inicia-se no título que, na esteira do conceito de in-betweenes, de William Desmond, indicia um método de escrita e de reflexão sobre a palavra (escolhida), sobre a sua etimologia, sobre as marcas do tempo que encerra.

Daí a necessária atenção aos itálicos, ao seu agoncom o tipo de letra normal, aos hífens: o entre-ver, o pressentir, o entre-o-Tanto. Ao desmembrar a palavra, é um véu que se ergue.

E assim recordo Emerson que proclamou ser a linguagem poesia fóssil.

Com efeito, o teólogo perturba o leitor quando lhe exige que se assuma como hermeneuta que deve desvendar a prosa do mundo – eco do Foucault de as palavras e as coisas-, e como arqueólogo em busca do sentido no tempo.

Mas não é apenas isso. Se o fosse, estaríamos confinados ao exercício semiológico. A importância que um qualquer signo pode assumir na nossa compreensão do real, lembra aqui Whitman quando, em “Canto de mim mesmo”, proclama: “Nem uma polegada, nem um fragmento de uma polegada, é impuro”. Ora, Frazão Correia sj revê e amplia esta ideia ao escrever: “cada porção de espaço e de cada fragmento de tempo sabe fazer um acontecimento de graça”.

A recusa da impureza é, recorde-se, uma asserção que indicia as tensões teológicas dos Estados Unidos de meados do século XIX, quando o carácter operativo de um puritanismo tardio era questionado.

Poeta e teólogo convergem, deste modo, nesta percepção da existência. Uma vez mais isso parece ocorrer quando o teólogo recorda que “somos seres de palavras que se exprimem por palavras”, algo que de novo me faz regressar ao pensador de Concord: “somos símbolos e habitamos símbolos.”

Entre-tanto – A difícil bênção da vida e da fé, de José Frazão Correia; Ed. Paulinas, 192 pág.s, € 12,99 

Artigos relacionados

Enzo Bianchi, um verdadeiro cristão (Opinião)

Enzo Bianchi, um verdadeiro cristão (Opinião)

Quem conhece o Enzo Bianchi, quem já se refletiu naqueles olhos terríveis de fogo, como são os olhos de um homem “que viu Deus”, sabe do seu caráter enérgico, por vezes tempestuoso, firme, de quem não tem tempo a perder e que por isso urge falar sempre com parresía, isto é, com franqueza, com verdade. Enzo habitou-nos a isso, habituou os monges e as monjas de Bose a isso. O exercício da autoridade, a gestão do governo e o clima fraterno da Comunidade sempre tiveram a sua marca, esta marca.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Igreja Católica contesta alteração da lei de biotecnologia na Noruega

Um comité de especialistas da diocese de Oslo acusa a alteração à lei da biotecnologia, aprovada na semana passada pelo parlamento norueguês de “abolir os direitos das crianças” e “abrir caminho à eugenia”, dando a possibilidade de, mediante testes pré-natais precoces, fazer abortos nos casos em que o feto apresente patologias ou seja de um sexo diferente do desejado pelos futuros pais.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

“Conhece um judeu”: projeto inovador quer dar “voz e cara” à comunidade judaica na Alemanha

“Conhece um judeu”: projeto inovador quer dar “voz e cara” à comunidade judaica na Alemanha

Pode parecer estranho, mas é verdade: muitas pessoas na Alemanha, em particular as mais jovens, nunca conheceram judeus, a não ser pelos livros de História. Para aumentar a exposição e o contacto com esta comunidade, que atualmente corresponde a menos de 0,2% da população daquele país, o Conselho Central de Judeus lançou o projeto “Conhece um Judeu”, que vai apresentar judeus a não judeus e pô-los a conversar.

É notícia

Entre margens

Um planeta é como um bolo novidade

O planeta Terra tem registado emissões de dióxido de carbono bastante mais reduzidas nestes primeiros meses do ano. Não porque finalmente os decisores e líderes políticos consideraram cumprir o Acordo de Paris, não por terem percebido as consequências trágicas de um consumo insustentável de recursos para onde o modelo económico e de vida humana no planeta nos leva, mas devido à tragédia da pandemia que estamos a viver.

Violência contra as Mulheres: origens

Olhando para os dados neste contexto de pandemia, mais uma vez dei por mim a pensar de onde virá a persistência estrutural do fenómeno da violência doméstica e de género, esta violência que assenta num exercício de poder exacerbado, descontrolado, total, de alguns homens em relação às suas companheiras, em que elas não são mais do que um objeto de posse sobre o qual se pode tudo.

Credo

O Deus em que acredito não é pertença de ninguém, não tem registo, é sem patente. É polifónico, é um entrecruzar de escolhas e de acasos, de verdades lidas nos sinais dos tempos, de vida feita de pedaços partilhados e também de sonhos.

Cultura e artes

Diálogos com Paulo Freire

Trata-se de dois livros inspirados na filosofia de Pauloreire, a quem de há largos anos chamo meu “Mestre”: o primeiro, de Christopher Damien Auretta, Diz-me TU quem EU sou: Diálogo com Paulo Freire. O segundo, do mesmo autor com João Rodrigo Simões: Autobiografia de uma Sala de Aula: Entre Ítaca e Babel com Paulo Freire (Epistolografia).

“Travessia com Primavera”, um exercício criativo diário

O desafio partiu da Casa Velha, associação de Ourém que liga ecologia e espiritualidade: um exercício artístico e criativo diário, a partir da Bíblia. Sandra Bartolomeu, irmã das Servas de Nossa Senhora de Fátima, apaixonada pela pintura, aceitou: “Algo do género, entre a oração e o desenho – rezar desenhando, desenhar rezando ou fazer do desenho fruto maduro da oração – já emergia em mim como um apelo de Deus, convite a fazer do exercício do desenho e da criação plástica meio para contemplar Deus e dar concretude à sua Palavra em mim”, diz a irmã Sandra. O 7MARGENS publica dez aguarelas resultantes desse exercício.

A poesia é a verdade justa

“A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha”, escreve Sophia de Mello Breyner na sua Arte Poética III. Foi destas palavras que me lembrei ao ver o filme Poesia do sul coreano Lee Chang-dong, de 2010

Hinos e canções ortodoxas e balcânicas para a “Theotokos”

Este duplo disco, Hymns and Songs to the Mother of God reúne, como indicado no título, hinos bizantinos (o primeiro) e canções tradicionais (o segundo), dedicados à Mãe de Deus. O projecto levou três anos a concretizar, entre a recolha, estudo e gravação, como conta a própria Nektaria Karantzi na apresentação.

Sete Partidas

Retrospectiva

Regresso algures a meados de 2019, vivíamos em Copenhaga, e recupero a sensação de missão cumprida, de alguma forma o fechar de um ciclo ao completarmos 10 anos de vida na Dinamarca e nos encontrarmos em modo de balanço das nossas vidas pessoais, profissionais e também da nossa vida interior. Recordo uma conversa com uma querida amiga, onde expressei desta forma o meu sentimento: “a nossa vida aqui é boa, confortável, organizada, segura, previsível, mas não me sinto feliz.”

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco