A nossa vida escapou como pássaro do laço dos caçadores:
Quebrou-se a armadilha e nós ficamos livres.
(Salmo 124,7)
Tinha pensado escrever sobre a eutanásia, mas resolvi desistir deste “desafio”, por considerar que é do foro íntimo de cada um/a. No entanto, a questão do fim paira sobre mim, tal como sobre todos e todas, dada a sua inevitabilidade. À medida que avançamos no tempo, vamos nos aproximando da temática da morte, tentando encontrar um possível sentido deste “fim”. Fim, ou um novo começo?
Na primeira parte desta “viagem” quero dar relevo aos textos de outras pessoas, rodear-me num espaço seguro com as suas vozes, estar num “entre textos” com elas. Em vez de as citar e inserir as citações no meu texto, coloco-me com algumas palavras escritas por mim, no meio delas.
Na segunda parte vou à procura do “fim”. Tentar situar-me em relação à morte. O que pensar da privação voluntária de alimentos e líquidos, com o desejo de acelerar o fim? Conheci uma pessoa que pensou iniciar este processo. Desistiu e hoje ainda está viva. Como vivo com o viver sozinha numa idade já mais avançada?
Inserindo-me num Entre Textos
Porquê este formato de escrita Entre Textos? Porque, confrontada com mais situações-limite, e com “tarefas infinitas”, é difícil manter um ritmo equilibrado na produção de palavras e atos. O que, no meu caso, dificulta sobretudo responder ao desafio através da escrita, ao desafio de cada vez “nascer de novo”, como descreve Hannah Arendt quando afirma que é “com palavras e actos que nos inserimos no mundo humano; e esta inserção é como um segundo nascimento, no qual confirmamos e assumimos o facto original e singular do nosso aparecimento físico original”. (1) (In: Hannah Arendt, Relógio D´Água Editores 2001. A Condição Humana p.225).
Relembrando o que me tocou de uma forma especial no livro de Henri Nouwen sobre os caminhos ascendente e descendente, quero citar agora Lídia Jorge: A vida é um arco, tem o seu começo e o seu fim, inicia-se num berço, faz o seu voo ascendente, e a partir de certa altura a curva desce até nos entregarmos à terra, de novo dentro de uma caixa de madeira que em nada difere de um berço.(3) Esta afirmação da Lídia Jorge desperta em mim a questão de como nos vamos “entregar à terra”: esperando anos sem fim quando talvez já não existir “qualidade de vida” nenhuma?
Dia 4 de Novembro, retomo a escrita de algumas palavras, dia após o funeral do Padre Pedro Marques, que encontrei pela primeira vez há vários anos no Centro do Graal da Golegã. Naquele dia, quando entrei na cozinha, vi um homem que não conhecia. Apresentei-me dizendo: “Olá, sou a Marijke.” “Olá, sou o Pedro”, respondeu. Uns minutos depois percebi que era padre, e responsável pela paróquia da Golegã. Ficou sempre simplesmente Pedro para mim. Faleceu no dia 1 de Novembro, dia de Todos os Santos, juntando-se a Eles, “imagino”.
No cartão do anúncio de falecimento uma fotografia com o Pedro sorridente e, no outro lado do cartão, o seguinte verso do livro do Apocalipse (21,6):
Eu sou o Alfa e Ómega,
o Princípio e o Fim.
Ao que tiver sede,
Eu lhe darei a beber gratuitamente,
da nascente da água da vida.

Perdi um grande amigo. Deu-me de beber (não só água). Fazem-me falta as nossas conversas.
“Para que se justifique a nossa vida é preciso que alguém a invente em nós”, Natália Correia, citada por Fernando Dacosta.(4) Tive de pensar bastante depois de ler esta citação. Ainda preciso que alguém invente a vida em mim, de modo a que consiga continuar a viver? Suspirei fundo enquanto escrevia estas palavras. Acho que posso responder que há um caminho possível: puxar nos fios da minha rede de contactos e parar nos “nós”, desapertando-os, esticando os fios parados demasiado tempo em nós apertados. Isto é, voltar às pessoas e investir mais nelas. Cuidar delas.

Maria de Lourdes Pintasilgo enquanto primeira-ministra, em fotografia assinada pela própria © Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra/Arquivo Lourdes Pintasilgo
O ser humano recebe a alma a seu cargo e tem obrigação de tratar bem dela; viver da força da sua alma, ser animado. (5) Acredito que é possível descobrir algo de positivo em todas as circunstâncias da vida, mas só temos o direito de dizê-lo se nós próprias não evitarmos as piores. (idem, p. 65). Viver da força da minha alma, ou com as palavras de Maria de Lourdes Pintasilgo:
[…] a busca espiritual das mulheres tem de tocar no fundo do seu próprio ser – aquilo que algumas das teólogas americanas dizem que é tocar no «fundamento do ser», na raiz mesmo do ser … É aí, na experiência de si mesmas e do mundo vivido dentro de si, que as mulheres podem encontrar a força que as levará (talvez …) a mudar os valores da sociedade. […] Estamos assim no caminho do que podemos timidamente chamar a «espiritualidade». […] É no meio da história, no contacto com as coisas e com os outros, nas circunstâncias mais quotidianas ou mais excepcionais, é aí que se dá essa incarnação da Fé: o momento exacto em que a procura pessoal de Deus se insere na história dos homens e, por isso mesmo, a anima e transfigura por dentro (Pintasilgo, 1989: 117-118).
Ao encontro de um “fim”?

Porta da Morte’, basílica de S. Pedro, Vaticano. Foto © Joaquim Félix
Morrerás em breve.
É incontestável.
E quanta verdade morrerá contigo
sem saberes que a sabias.
Só por não teres tido a sorte de
num simples encontro
ou encontrão
ta fazerem vir ao de cima.
(Vergílio Ferreira In: Pensar)
Na língua portuguesa, a palavra “fim” tanto pode significar “objetivo” como “o fim”, algo que acaba. A ideia de nos países ocidentais e ricos se falar sobre o fim da vida, proclamando o desejo de uma cada vez maior longevidade, é muito discutível. Sim, é possível chegarmos aos noventa anos e ainda sermos mais ou menos capazes de dar rumo às nossas vidas. Mas é desejável cultivarmos esta filosofia dominante, não problematizante?
Estive há pouco tempo numa mesa-redonda sobre o idadismo. Cinco pessoas a falar sobre a discriminação baseada na idade, desmontando os preconceitos relacionados com o ser velho. Deram exemplos de vida de idosos cheios de vitalidade e vontade de viver. Mas ninguém falou de pessoas velhas não felizes. Levantei a questão. Sim senhora, há pessoas que chegam aos 80 anos e acham que já viveram o suficiente. Não se importariam de morrer.
Muitas delas estão abandonadas e tristes por falta de um acompanhamento adequado, também por parte das instituições. Quando envelhecemos, a nossa tão desejada autonomia pode diminuir devido a limitações físicas ou outras. O isolamento é hoje um problema maior do que em tempos idos, tempo das famílias unidas, vivendo em proximidade.
A privação voluntária de alimentos e líquidos, considerado um ato de autonomia individual, podia ser uma escolha quando a vida se torna insuportável, deixando de fazer sentido. Não sei se um dia teria a coragem de tomar esta decisão.
No seguinte documento uma descrição e um guia do processo e dos cuidados inerentes sobre a Cessação Voluntária da Alimentação e da Hidratação (CVAH): [ver documento]
E um documento produzido nos Países Baixos, datado de Janeiro do 2024 sobre a mesma temática, intitulado VSED (Voluntary Stopping Eating and Drinking): [ver documento]
Hannah Arendt traz-nos o desafio de um segundo nascimento, isto é, inserirmo-nos com palavras e atos no mundo humano. Quando isto deixa de ser possível e quando optamos por não continuar a viver, trataremos bem da nossa alma, como defende Etty Hillesum?
Não tendo respostas recorro a poesia. O poeta Neerlandês J. C. van Schagen, no seu poema “Kentering”(“Viragem”) desafia-nos a ouvir chamar:

Foto: J.C. van Schagen, cerca de 1950. © Onbekend. Nederlandse Poëzie Encyclopedie
Ouvi chamar, compreendi
[…]
apenas houve um sussurro e eu fui embora
agora sopra uma brisa fresca à volta das minhas fontes
estou deitada e decomposta num amplo descanso
sei agora, daqui para a frente pertenço a um trabalho, que é silencioso
e secreto
que é das árvores, que oscilam com o vento , que é do
sol, que brilha sobre o rio
que é da chuva, que sussurra na erva, que é dos
olhos húmidos de animais
agora vou ser sempre livre e perder tudo
só vou andar e velar
sim, agora talvez nada mais vá terminar
(In: Ik ga maar en blijf (Acabo por ir e vou ficando). Uitgeverij van Oorschot: 2008)
E enquanto estava quase a chegar ao fim desta “viagem” recebi uma mensagem WhatsApp de um amigo, em que ele partilha umas linhas do poeta Neerlandês J. Bernlef, que traduzo:
Seguimos à deriva
até que o vento se acalma
e nos deita
onde precisamos de estar.
(In: Kiezel en traan (Gravilha e lágrima). Querido, 2004)
No dia em que pensava finalizar a escrita deste Entre Textos, recebi via WhatsApp, desta vez do Kabbalah Centro Portugal, um vídeo de 2.22 minutos, com a seguinte mensagem: “O fim é um novo começo”.
A prática da Kabbalah é uma sabedoria espiritual judaica, divulgado em vários países pelo Kabbalah Centre. Estou ligada a este Centro, tanto como as minhas duas amigas “corretoras”.
Será que a cada dia consigo viver um novo começo? Como vivo com o viver sozinha numa idade já mais avançada, depois de uma vida sempre partilhada também no espaço-casa com outras pessoas?
Várias amigas do Graal me ajudaram quando, no ano passado, precisei de me submeter a duas intervenções cirúrgicas. Também a minha família veio de propósito para estar comigo.
Mas gostava de exprimir o que sinto neste novo viver quotidiano, neste “estar-sozinha-novo”. A expressão banal de “um dia de cada vez” corresponde à realidade, ou “há dias”, outra expressão comum. O que sinto hoje é gratidão por estar com saúde, vontade de fazer coisas, escrever, no sentido de “write myself into being”, (ir-me construindo enquanto escrevo), reencontrar pessoas, fazer vir ao de cima, “num simples encontro”, verdade que se encontra em mim, experienciar num sentido positivo o que por definição é uma vivência dolorosa: a solidão. Será que, inspirada por Etty Hillesum, consigo descobrir algo de positivo na minha atual circunstância de vida?
Vou continuar, até o dia onde “o vento me deita onde preciso de estar”.
(De novo com muita gratidão às minhas amigas Fátima Silva e Glória Miraldes, por terem conversado comigo sobre este texto e por, de novo, terem corrigido o meu “Português de estrangeira”.)
(1) Hannah Arendt, Relógio D´Água Editores 2001. A Condição Humana p.225.
(2) Henri J.M. Nouwen (2012), O esvaziamento de Cristo. Movimento descendente e vida espiritual. Prior Velho: Paulinas Editora.
(3) Lídia Jorge, D. Quixote 2022, Misericórdia p. 119).
(4) Fernando da Costa, Casa das letras 2013, O Botequim da Liberdade p.322.
(5) Etty Hillesum, Assírio & Alvim, 2009, Cartas, p. 29.
Marijke de Koning, neerlandesa, trabalhou como pedagoga social e educadora de adultos, predominantemente no contexto do Graal, movimento internacional de mulheres enraizado na fê Cristã.











