Entrevista de D. José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal: “A selva tornou-se global, mas não globalizámos a ética”

| 28 Nov 20

Eleito presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) em Junho, o bispo de Setúbal, D. José Ornelas, diz que a Igreja em Portugal “tem de se sentar no mesmo banco em que se sentam os imigrantes, as pessoas que são de outra etnia, de outra cultura, que ainda não falam bem o português” para ir ao seu encontro e ser mais inclusiva: ao contrário da selva económica que se globalizou, “não globalizámos a ética nem as relações internacionais justas nem a dignidade”.

D. José revela ao 7MARGENS que uma das prioridades para o seu mandato será aperfeiçoar a metodologia do trabalho em conjunto na CEP (que não existe, admite). E acerca dos que, dentro da Igreja, dizem que a pandemia é um “castigo divino”, ironiza para dizer que castigo é alguém dizer isso…

Nesta primeira parte da entrevista (a segunda será publicada na tarde de sábado, 28), feita em parceria com o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, o bispo Ornelas afirma ainda, sobre a emergência climática, que “não se pode mais fazer um discurso sério sobre o mundo sem ter em conta” esse problema e que “não há verdadeira espiritualidade cristã sem essa consciência da globalidade do mundo em que vivemos”.

 

7M – Sr. D. José: muito obrigado por conceder esta entrevista ao 7MARGENS no início do seu mandato como presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). É nessa condição que o queremos ouvir. E a primeira pergunta é esta: quais são as duas principais transformações que gostaria de ver concretizadas na CEP nos próximos três anos?

D. José Ornelas (D.J.O.) – Primeiro tenho de a conhecer melhor. Uma coisa é pertencer à CEP e dar-lhe toda a nossa colaboração, outra coisa é ter capacidade para intervir e conduzi-la. A primeira coisa que tenho de fazer é conhecer, conhecer a noiva, as propriedades e as dívidas que tem (risos…) – para usar uma imagem simples. E, depois, “interagir com”. O que é importante na CEP é a capacidade de trabalharmos em conjunto.

Às vezes diz-se que os bispos portugueses estão divididos. Eu não tenho nada essa opinião. Absolutamente nada. Não só sobre os grandes temas, mas também nos problemas do dia-a-dia, não é difícil encontrar convergências. Mais difícil é termos uma metodologia de trabalho em conjunto. Isso já é diferente. É um dos aspetos em que mais gostaria de avançar: trabalharmos mais em conjunto, como Igreja. O Papa fala de uma igreja sinodal, que faz caminho em conjunto… sim, essa é uma das primeiras coisas que gostaria de ver.

 

7M – A perceção de muitos cristãos é que a CEP não existe enquanto conjunto…

D.J.O. – Não temos uma metodologia de conjunto. As conferências episcopais são uma realidade recente e sem grande expressão na reflexão eclesial; no direito canónico, o que se diz sobre conferências episcopais é muito pouco. A igreja particular continua a ser o centro da organização eclesial: o bispo, com o seu presbitério e a sua igreja. E as igrejas particulares estão, em primeiro lugar, em comunhão com a Santa Sé. Mas a importância das conferências episcopais tem de crescer. É esse o caminho de uma igreja cada vez mais sinodal.

7M – A importância de cada conferência episcopal varia também em função da urgência de mudança, do pensamento sobre a missão da igreja… Isso falta em Portugal?

D.J.O. – Não somos perfeitos. Temos de investir em pessoas, na dinamização de secretariados, de estruturas permanentes… não são os bispos em duas reuniões por ano que vão tratar de tudo. Criam-se sinergias, amizades e bom relacionamento humano – sempre vivi com ilusão e gosto a pertença a esta Igreja portuguesa –, mas também com a consciência das limitações e do caminho que é preciso fazer.

 

“Igreja tem de ser fator de inclusão” e “estar com” quem sofre

7M – Quais seriam os grandes temas que gostaria de ver tratados pela CEP nestes próximos anos?

D.J.O. – A Igreja vive hoje num mundo cada vez mais pluralista, um mundo que não é mais orientado por ela, mesmo se, por exemplo, a cultura portuguesa é eivada de valores cristãos. Por isso, acho fundamental que a nossa Igreja recupere a dimensão da missão. Não pode mais ficar à espera de que as pessoas a procurem. Tem de ser uma Igreja que vai para fora, que vai à procura das pessoas. Essa é uma atitude nova. Hoje os “não-cristãos” não estão lá fora, estão aqui dentro, particularmente nas grandes cidades.

A Igreja tem de ser fator de inclusão. Tem de se sentar no mesmo banco em que se sentam os imigrantes, as pessoas que são de outra etnia, de outra cultura, que ainda não falam bem o português. Tem de se aproximar destas pessoas, ultrapassar barreiras étnicas e culturais e contribuir para a sua sociabilização, a sua integração. Tem de lhes dizer: “na base somos irmãos”. O Evangelho sempre foi isso: desfazer barreiras, incluir aquele que é diferente, criar uma possibilidade de um mundo que não se pauta só por uma identidade já feita, mas que se está constantemente a refazer com as riquezas de toda a humanidade.

 

7M – Que prioridades assume a Igreja para confortar as pessoas que em Portugal, como no resto do mundo, sofrem hoje as consequências dolorosas da pandemia? Que sinais lhes quer fazer chegar?

D.J.O. – A primeira coisa é “estar com”. Isso significa perceber a realidade da situação em que as pessoas se encontram. Significa ter respostas para os que estão em maior dificuldade. Penso que temos agido assim.

Falando da diocese de Setúbal: temos tido as igrejas abertas. Porquê? Porque estando abertas, as pessoas podiam vir rezar e alimentar a sua fé, encontrar o padre e falar com ele, aceder aos sacramentos da igreja, etc… Mas também para a partilha. E assim foi: vi muita gente entrar nas igrejas para deixar produtos alimentares para quem não tem.

Estes foram gestos que levaram muitas pessoas a perceberem que este é um tempo de solidariedade e a agirem generosamente. Algumas paróquias distribuíram computadores aos que não conseguiam seguir as aulas online. Enfim, são gestos que não dão notícias, mas não são menos importantes.

7M – Exatamente por não serem notícia: pensa que a sociedade portuguesa sentiu essa companhia solidária por parte da igreja?

D.J.O. – Há uma consciência de que a Igreja aprendeu a fazer as coisas bem: conseguiu criar condições para celebrações seguras, levou tudo isto a sério, apesar de algumas exceções. Creio que também se viu boa parte do que as comunidades fazem para apoiar os que passam por maiores dificuldades. O que se vê claramente, também, é que o número de pessoas apoiadas em cada diocese cresceu imenso desde o início da pandemia: na diocese de Setúbal, passou de 13 mil para 17 mil. Multiplique-se pelas outras dioceses…

7M – Não faltou um gesto público que simbolizasse todas essas ações de solidariedade?

D.J.O. – Não me parece… nós fomos fazendo os gestos tradicionais do dia-a-dia: procurar multiplicar e partilhar o pão. Não apenas o pão que se come, mas também aquele que se traduz no apoio às pessoas que mais precisam, a resposta à necessidade de serem acompanhadas e se criar esperança. Muita coisa nasceu que espero bem que fique para o futuro.

 

“Castigo é alguém dizer que esta pandemia é um castigo divino”

7M – Esta pandemia é um castigo divino, como algumas pessoas dizem?

D.J.O. – Castigo é alguém dizer que ela é um castigo divino… Deus não é assim. Vivemos num mundo magnífico, mas não perfeito. Vão acontecer terremotos, guerras… O problema maior são os males que nós causamos. Tenho de me confrontar com uma sociedade e com um mundo do qual faz parte tudo isso. Também vamos morrer todos. Mas isso não me leva a dizer que então não vale ter tanta preocupação. Não! Nós prezamos a vida, lutamos pela vida. E precisamente quando ela toca no fundo, quando chega ao seu limite, deve despertar toda a atenção, todo o cuidado e toda a capacidade de intervenção.

Também tenho de perceber que não é tudo: se não tenho uma outra esperança que me permita integrar tudo isto, então fico perdido. Sempre vivi tranquilamente: posso apanhar o vírus, mas também posso ter um acidente de automóvel ou outra doença qualquer Se eu fizer depender a minha estabilidade do medo de…, então não faço nada. Por outro lado, não sou inconsciente: gosto de viver, gosto de ajudar a viver e de ver a vida à minha volta. Para isso, fazemos os sacrifícios que forem necessários e vamos criar as condições esperança, lutando para ultrapassarmos esta crise, para que todos possam viver com gosto. E vamos ultrapassá-la!

 

É indiscutível que a humanidade vai imprimindo um desgaste à sociedade, à polis, à cidade e ao mundo em que habitamos. Por isso, como diz o Papa Francisco, é preciso criar uma nova ecologia integral. A começar por uma ecologia do pensamento: não me fechar simplesmente numa só dimensão do existir, por exemplo, na dimensão económica, ou na dimensão do meu sucesso, esquecendo tudo o resto: as outras pessoas, a sociedade, o mundo.

7M – Os artistas e as atividades culturais têm sido grandes vítimas desta pandemia. Que palavra tem a Igreja para estas pessoas? Como vê as respostas que o Governo tem posto em prática para este campo?

D.J.O. – Essas atividades são altamente penalizadas, mas são fundamentais para sairmos da crise com uma sociedade bem organizada, com perspetivas e capaz de criar solidariedade. Para alguns a fé é simplesmente cultura: uma forma de estar no mundo.

Neste campo da cultura nem tudo pode ser feito à distância, o público faz parte da própria festa. O público faz falta. Tem de ser a sociedade no seu conjunto a dar a mão aos artistas. Não podemos morrer da cura da covid. A cultura não é algo dispensável. Não só pelas pessoas que estão diretamente em causa, mas pela sociedade no seu conjunto.

 

A finança descolou da “economia real” 

7M – Por estes dias reuniram-se vários jovens economistas e empreendedores convocados pelo Papa Francisco para refletir sobre a economia. Esta pandemia impõe e exige um sistema económico baseado noutras prioridades?

D.J.O. – Tem de ser. Nós queremos salvar este planeta, a sociedade e oferecer uma vida com dignidade para todos, com uma cultura económica diferente. E há muitos empresários que já perceberam que assim tem de ser.

7M – Mas a desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres é hoje mais brutal do que nunca…

D.J.O. – É evidente. Não pode haver tantas diferenças. A finança descolou da economia real. Se continuamos no rumo em que vínhamos, não vamos escapar de novas crises e vamos continuar a deixar de fora parte da humanidade. Globalizámos a economia, mas não globalizámos as normas de controlo da economia. A selva tornou-se global, mas não globalizámos a ética nem as relações internacionais justas nem a dignidade a que a economia deve obedecer para permitir que todos tenham o necessário.

 

A nossa economia é muito pequena e, portanto, não temos grandes possibilidades de fazer caminho sozinhos. Mas temos um grande trunfo: integramos um bloco, um contexto económico, social e político que nos permite ser parte de uma solução em que sozinhos não poderíamos sequer pensar. Esta ideia do my country first não leva a nada de bom. Quando eu digo que o meu país tem de ser o maior, os outros deixam de ser parceiros.

 7M – O bloco de que fala – a União Europeia – está numa profunda crise!

D.J.O. – Essa é a situação normal na União Europeia. Mas ela renasce sempre das crises. Vejo também sinais positivos. Reparem: na crise das dívidas soberanas não foi possível avançar para os eurobonds. Agora, rompeu-se esse tabu. Disse-se “ou saímos juntos desta crise ou ninguém a vai conseguir superar”.  É um sinal importante. É um passo. Ainda é preciso consolidá-lo e já está a ser posto em causa pelos nacionalismos que impedem a construção de respostas comuns. Mas vamos: a crise será ultrapassada!

7M – A atual situação pandémica cruza-se com a emergência climática que estamos a viver. Que balanço faz da resposta da Igreja em Portugal à encíclica Laudato Si’?

D.J.O. – Pelo menos isto: é a primeira vez que estas questões entram claramente na agenda da Igreja. Todos estamos conscientes de que não se pode mais fazer um discurso sério sobre o mundo sem ter em conta a emergência climática…

7M – Acha mesmo que isso é assim tão claro para os católicos e para os responsáveis eclesiais?

D.J.O. – Daquilo que eu vejo, sim! Todos sabem que é um tema incontornável. A nível de bispos a questão não está só presente apenas por via de pressão externa, passou a ser preocupação de todos. Eu acredito muito mais no trabalho de mudar as mentalidades do que nos grandes discursos. Não tenho dúvidas: a educação para as questões ambientais e a necessidade de alterar o modo de vida que levamos está muito presente na Igreja.

A encíclica veio trazer-nos um grande incentivo para que os cristãos participem na discussão pública sobre estes temas. A Laudato Si’ mostrou-nos a urgência de estarmos presentes e sermos parte neste debate que a humanidade traz consigo. E participar no debate a partir de uma espiritualidade que tradicionalmente andava divorciada destes temas. Hoje já não pode ser assim. Não há verdadeira espiritualidade cristã sem essa consciência da globalidade do mundo em que vivemos.

 

Imagem Vídeo: Rui Martins
Edição de Imagem: Francisco Marujo

 

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