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Entrevista… entre vistas… entre olhares

Entrevista… entre vistas… entre olhares

by | 22 Abr 19 | Entre Margens, Últimas

A realização de entrevistas é sempre um desafio muito grande que os alunos encontram no contexto dos seus trabalhos académicos. Na verdade, são um desafio enorme em qualquer fase da nossa vida de investigação e ninguém pode, em rigor e com seriedade, dizer que possui “traquejo” suficiente a ponto de ignorar cuidados especiais na condução desta técnica. Para muitos alunos, o desafio reveste-se de particular intensidade porque é a primeira vez que realizam um trabalho de campo que implica a aplicação de uma das técnicas mais ricas e mais exigentes da recolha de informação. As dúvidas e os receios, antes de se aventurarem no terreno, são por isso também eles muitos e absolutamente legítimos.

Estando nesta fase alguns alunos meus a equacionar (palavra tão racional…) as vantagens e limitações de se lançarem na aventura das entrevistas, dei por mim a pensar na palavra ‘entrevista’. E ao invés de correr a buscar a sua origem etimológica (sendo fiel à curiosidade sobre a identidade das palavras que me acompanha desde os tempos de estudante do secundário), desta vez abandonei-me ao simples exercício de “brincar” com a palavra.

Vi então duas palavras distintas (e nisso até nem andarei muito longe das suas origens etimológicas…): entre vistas, ou seja, entre olhares – não no sentido de “entre ver” o outro, num jogo de véus e de sombras, mas antes no sentido de “dar-se a ver” entre outros.

Ora, o maior desafio da entrevista está precisamente nisto: no facto de estarmos, olhos nos olhos, perante alguém que se deixa ver por nós e nós por ele. Uma entrevista é, por assim dizer, uma construção a um tempo artificial (porque ocorre fora da espontaneidade do simples encontro de amigos ou de desconhecidos que aguardam o transporte público e resolvem falar das suas vidas) e a outro tempo dramática, porque ocorre sem rede, nem resetpossível, seja para quem pergunta seja para quem responde.

Daí que, enquanto entrevistadores – digo aos meus alunos – nunca devemos causar dano em quem nos olha, em quem no fundo nos confia as suas ideias, opiniões ou experiências de vida. Da mesma forma, se formos nós os entrevistados, não devemos selecionar apenas o que achamos que fica “bem” à nossa imagem, o que nos fará parecer mais inteligentes, mais coerentes, mais assertivos, ou mais o que quer que seja que a sociedade avalia como fazendo parte de “qualidades superiores”. Nisto consiste a entrevista enquanto “dar-se a ver” ao outro sem véus nem sombras. E é isto que verdadeiramente esperamos encontrar no decurso de um trabalho académico, o que não deixa de ser extremamente ambicioso e difícil. Daí que nunca sejam demais os cuidados éticos a observar na realização de uma entrevista, pois se buscamos que o outro se exponha sem véus nem sombras, temos de revelar por ele máximo respeito, e máxima gratidão pela sua partilha.

Este é o universo das entrevistas de âmbito académico, com as suas exigências metodológicas e éticas muito próprias. Contudo, são múltiplos os espaços não-académicos nos quais nem sempre a entrevista é entendida como um “dar-se a ver” aos outros sem véus nem sombras. E perante esta verificação que nada tem de revelador ou de surpreendente, não pude deixar de pensar em como, enquanto sociedade, estamos tantas vezes dispostos a aceitar como normal o que seria inadmissível no mundo académico, isto é, que a entrevista possa ser um simples “entrever” o outro entre véus e entre sombras. Não quero com isto terminar com a ideia de que o mundo académico seja eticamente superior, nada disso, mas antes que este nos obriga ao cumprimento de uma ética de entrevista que depois, enquanto sociedade, nos esquecemos (?) tantas vezes de exigir em tantos outros contextos.

 

Isabel Estrada Carvalhais é Professora associada da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, doutorada em Sociologia e candidata independente pelo Partido Socialista ao Parlamento Europeu.

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