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autores - Rafael Pereira

Entre Margens

Envelhecer com dignidade – o serviço cristão face ao desafio social do nosso tempo

| 22/08/2025

 

Portugal está a envelhecer – rápida e silenciosamente

 

As estatísticas confirmam o que quem trabalha no terreno já sente há muito: nunca tivemos tantos idosos, tão sós, tão dependentes. A população portuguesa com mais de 65 anos representa já mais de 23% do total, e esse número só tende a crescer. Mas o verdadeiro drama não está apenas nos números – está nas histórias: os dias longos sem visitas, os corredores vazios dos lares com falta de pessoal, os pedidos de apoio que chegam tarde, os técnicos exaustos e as famílias à beira da rutura.
Perante este cenário, a nossa sociedade – e particularmente o Estado – continua a responder de forma tímida, fragmentada e burocratizada. Fala-se de “envelhecimento ativo” e “rede de cuidados continuados”, mas os financiamentos são insuficientes, os prazos de resposta desajustados e os parceiros sociais tratados mais como prestadores de serviços do que como corresponsáveis na missão.

Papa Francisco: “um povo que não cuida dos seus idosos não tem futuro, porque perde a memória e a sabedoria”. Foto: Papa Francisco abraça idoso. DR

É aqui que se levanta a pergunta cristã: como cuidar do envelhecimento com dignidade e com alma? Cuidar dos mais velhos é mais do que um serviço – é uma responsabilidade moral, espiritual e comunitária. O Evangelho desafia-nos a honrar os nossos pais, a não abandonar os frágeis, a reconhecer nos mais velhos não um peso, mas uma bênção. Como referiu o Papa Francisco, “um povo que não cuida dos seus idosos não tem futuro, porque perde a memória e a sabedoria”.

No terreno, contudo, vemos realidades que ferem essa dignidade. Esperas intermináveis por vagas em lares; cuidadores informais deixados ao abandono; IPSS [Instituições Particulares de Solidariedade Social] que não conseguem recrutar porque os acordos com a Segurança Social não permitem pagar salários justos. E, sobretudo, um Estado que diz confiar nas instituições, mas que as asfixia com exigências e falha naquilo que mais se espera dele: ser um parceiro previsível, leal e presente.

A política social portuguesa continua presa a um modelo centralizado, excessivamente normativo e cego à realidade local. A Segurança Social, apesar do esforço de muitos técnicos de proximidade, tornou-se um organismo distante, mais preocupado com o controlo do que com o apoio efetivo. Em vez de investir de forma sustentável nas respostas sociais, privilegia-se a abertura episódica de candidaturas, muitas vezes com critérios desajustados e prazos que ignoram a urgência dos problemas.

 

Esvaziamento da missão

Idosos caminhando

“O envelhecimento não pode continuar a ser tratado como um problema “de saúde” ou de “resposta institucionalizada”. É um desafio transversal: implica repensar o urbanismo, os transportes, o acesso à cultura, a participação cívica.” Foto © Gerd Altmann / Pixabay

O envelhecimento não pode continuar a ser tratado como um problema “de saúde” ou de “resposta institucionalizada”. É um desafio transversal: implica repensar o urbanismo, os transportes, o acesso à cultura, a participação cívica. Mas, acima de tudo, exige reconhecer que a dignidade no envelhecimento depende de relações humanas consistentes – e essas constroem-se com tempo, presença e continuidade. Não com relatórios, indicadores e metas avulsas.

As IPSS, sobretudo as de matriz cristã, continuam a ser a espinha dorsal da rede de cuidados a pessoas idosas em Portugal. Mas muitas estão no limite. Faltam profissionais, faltam recursos, faltam condições para inovar. Multiplicam-se as exigências, mas não cresce o apoio. Pior: cresce a sensação de que as instituições são vistas como “delegadas do Estado” – e não como comunidades vivas, com identidade, valores e visão própria.

A consequência é o esvaziamento da missão. O risco de uma gestão defensiva, voltada apenas para “cumprir” em vez de cuidar com coração. E o desgaste espiritual de muitos dirigentes, técnicos e voluntários que sentem que estão a lutar sozinhos por uma causa que devia ser de todos.

Neste cenário, a espiritualidade cristã não é um luxo nem um acessório. É um antídoto contra o cansaço e uma fonte de renovação interior. Cuidar dos idosos, no dia a dia de uma instituição, é entrar num território sagrado: o da memória, da fragilidade, da reconciliação com a vida. É ali que a fé se faz presença, escuta, mãos que se estendem. É ali que a oração ganha corpo, que a santidade quotidiana se revela.

Precisamos de uma espiritualidade que sustente os cuidadores – técnicos, auxiliares, diretores – e que inspire uma nova cultura do envelhecimento. Uma cultura onde o “ter” lugar ceda ao “ser” cuidado, onde o tempo lento seja valorizado, onde o fim da vida seja acompanhado com compaixão e não apenas com protocolos.

Portugal precisa urgentemente de um pacto social para o envelhecimento. Um compromisso intergeracional onde o Estado, as instituições, as famílias e os cidadãos se unam para garantir que ninguém envelhece sozinho, nem indignamente. Mas esse pacto só será possível se houver coragem política, visão estratégica e confiança nas redes que já existem.

A Igreja tem aqui uma missão decisiva. Não apenas através das suas instituições, mas também na mobilização das comunidades, na valorização dos mais velhos como protagonistas, na defesa pública de uma cultura do cuidado.
Porque envelhecer com dignidade é mais do que uma meta social. É uma expressão concreta do amor cristão. E servir – mesmo no ocaso da vida – continua a ser um modo de amar. E de acreditar.

 

Rafael Ribeiro Pereira é diretor técnico do Instituto dos Afetos do Centro Comunitário de Tires e vice-presidente do Centro Social da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Abóboda (São Domingos de Rana, Cascais).

 

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