Há muita gente que se preocupa com o envelhecimento, procurando disfarçá-lo de múltiplas maneiras. Mas a realidade não perdoa e as alterações (quer físicas quer mentais) são inevitáveis. O pensamento de manter quanto possível a nossa saúde acompanha-nos frequentemente e por isso procuramos ter uma vida calma e equilibrada não exigindo quer do corpo quer da mente aquilo que nos era habitual fazer – pensamos duas vezes se é realmente necessário sair à rua quando chove, ou correr para apanhar um transporte.
Embora a maior parte das vezes não o reconheçamos, à medida que os anos avançam começamos a ficar mais lentos. Fisicamente há uma inevitável perda de mobilidade e de agilidade física, de rapidez de movimentos e de reacções, de capacidade de concentração, de memória e de raciocínio. A diminuição ocorrida nas capacidades físicas faz-se também sentir no que respeita ao nosso psiquismo, pois constantemente deparamos com falhas de memória – abençoado Google que se tornou um amigo diário ao qual recorremos para resolver esquecimentos, constituindo uma companhia fiel que há vinte anos desconhecíamos completamente.
Não se pense no entanto que a velhice só afecta a memória e a rapidez de raciocínio. As alterações intelectuais negativas que vão surgindo à medida que a idade avança manifestam-se também noutros campos como é o caso da paciência, da persistência e da força de vontade. Adoecer, mesmo quando se trata de uma simples gripe, pode tornar-se uma fonte de preocupações e de mal-estar, nomeadamente pelas sequelas que provoca e às quais não podemos deixar de estar atentos. Evitamos passear à chuva, fazer noitadas, comprometermo-nos com determinadas tarefas e programas que anteriormente faziam parte do nosso quotidiano e que aceitávamos quase automaticamente, sem pensar nas consequências possíveis para a nossa tranquilidade e para a nossa saúde.
A idade também tem influência no que respeita à paciência, nomeadamente na relação com pessoas que achamos maçadoras e que evitamos, pois nos aparecem como sugadores da pouca energia que já temos e que, egoisticamente, queremos guardar para fazer coisas que nos agradam e interessam.

“Por isso, aconselho todos os velhos e velhas (detesto a palavra idoso) a seguirem este preceito que Voltaire nos deixou na sua obra Candide: Il faut cultiver votre jardin.” Foto © José Centeio
Note-se que, no entanto, a velhice não é uma doença; é algo de natural a que nos devemos adaptar tirando partido do que tem de bom, nomeadamente do que a experiência vivida ao longo dos anos nos trouxe de adaptação à diferença, de abertura de espírito, de alargamento dos nossos juízos éticos e estéticos. Ter vivido muitas situações diferentes é enriquecedor e aumenta os nossos horizontes.
Neste campo do nosso alargamento de perspectivas e no ultrapassar de preconceitos temos de reconhecer o papel dos jovens. Aprendo constantemente com os meus netos e netas e, embora muitas vezes discordemos, nomeadamente em campos como a ética e a estética, a troca de opiniões é sempre um desafio, mesmo quando a discordância é total. O debate fundamentado é enriquecedor e a descoberta das diferenças pode constituir uma abertura de portas para domínios que, no que me diz respeito, nunca me lembraria de visitar.
Pensamos que a juventude é a época das descobertas. Mas foi ao envelhecer que me apercebi de um prazer que nunca tinha cultivado – jardinar (é um facto que só tardiamente tivemos uma casa com jardim). E de facto, tratar da terra é hoje uma das actividades que mais alegria me dá.
Por isso, aconselho todos os velhos e velhas (detesto a palavra idoso) a seguirem este preceito que Voltaire nos deixou na sua obra Candide: Il faut cultiver votre jardin.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
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