Envolvido em escândalos financeiros, cardeal Angelo Becciu renuncia ao cargo

| 25 Set 20

Cardeal Angelo Becciu

Cardeal Angelo Becciu, numa conferência no Porto, em fevereiro deste ano. Foto © João Lopes Cardoso/Diocese do Porto

 

É uma decisão extremamente rara no Vaticano e da qual se adivinham novas revelações e eventuais consequências: ao final da tarde desta quinta-feira, 24 de setembro, uma curta nota da Santa Sé dava conta da resignação do cardeal italiano Angelo Becciu, prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, e da sua renúncia aos “direitos ligados ao cardinalato”, ambas aceites pelo Papa. Ou seja, entre outras coisas, Becciu já não participará num futuro conclave, mesmo que ele aconteça antes de completar 80 anos, a idade limite para tal.

A nota, de duas linhas, não acrescentava quaisquer razões para o facto, mas tudo indica que elas estarão relacionadas com escândalos financeiros: nomeadamente, a compra de um antigo armazém da Harrod’s, no bairro londrino de Chelsea, destinado a ser transformado em apartamentos de luxo, por cerca de 200 milhões de euros, através de um fundo liderado pelo empresário italiano Raffaele Mincione.

O negócio em causa ocorreu em 2014, enquanto Becciu era sostituto (em português, “substituto”) na Secretaria de Estado, ou seja, o número dois daquele organismo, a seguir ao próprio Secretário de Estado, um cargo que ocupou entre 2011 e 2018.

De acordo com a Catholic News Agency (CNA), Angelo Becciu terá tentado esconder na documentação financeira do Vaticano que os investimentos feitos em 2014 para a compra do prédio tiveram origem em créditos do banco suíço BSI, conhecido por protagonizar operações fraudulentas e de lavagem de dinheiro.

A manobra foi detetada pelo cardeal George Pell, então responsável pelas Finanças da Santa Sé, que terá exigido à Secretaria de Estado detalhes sobre os empréstimos, em particular os que envolviam o BSI. Nessa altura, Becciu terá chamado Pell à Secretaria de Estado para lhe dar uma “reprimenda”, avança a CNA.

Dois anos mais tarde, a Secretaria para a Economia, liderada por Pell, pediu uma auditoria externa às contas de todos os departamentos do Vaticano, a qual terá sido cancelada por Becciu, sem autorização do Papa.

Em 2017, foi ainda Becciu o responsável pelo afastamento do primeiro auditor-geral do Vaticano, Libero Milone, depois de o ter acusado de “espiar” as finanças dos altos cargos da Igreja, incluindo as suas. O então arcebispo ameaçou processar MiIlone caso ele não abandonasse discretamente o lugar.

Também em 2017, Becciu esteve envolvido numa complexa sucessão de eventos associados à Ordem Soberana e Militar de Malta, que terminou com o afastamento do então Grão-Mestre da Ordem e a nomeação de Becciu como enviado papal especial encarregado de administrar aquela organização católica.

No centro da controvérsia estavam alegações de que o Vaticano teria desviado mais de 30 milhões de euros de um fundo de 120 milhões mantido numa conta bancária na Suíça, a fim de aliviar problemas de liquidez.

Foi no ano seguinte que o Papa Francisco nomeou Becciu cardeal e o escolheu para prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Nessa altura, foi comentada no Vaticano, a demora de “vários meses” nas obras do apartamento atribuído ao novo cardeal. Segundo o jornal italiano La Repubblica, a decisão de o afastar terá agora sido comunicada pelo próprio Papa a Angelo Becciu, pouco tempo antes da divulgação do comunicado, numa altura em que os investimentos imobiliários da Santa Sé em Londres estão sob investigação da Justiça do Vaticano.

Becciu, 72 anos, iria presidir, já no próximo dia 10 de outubro, à beatificação do jovem italiano Carlo Acutis, na cidade de Assis, o que leva a crer que a decisão de Francisco não foi tomada com antecedência.

Em 2015, o Papa tinha aceite uma renúncia similar da parte do cardeal escocês Keith O’Brien, depois de este ter assumido má conduta sexual. Mais recentemente, o cardeal norte-americano Theodore McCarrick foi afastado não apenas do cardinalato, mas do próprio sacerdócio, depois de ter sido declarado culpado de abuso sexual de menores.

 

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