Envolvimento do chefe nacional no Luanda Leaks causa mal-estar nos Escuteiros

| 19 Fev 20

O chefe nacional do escutismo católico, Ivo Faria, tem o seu nome envolvido nos Luanda Leaks. Há quem, por isso, se sinta “incomodado” e defenda que ele não deva tomar posse do segundo mandato no cargo, marcada para sábado. O próprio prefere responder primeiro aos escuteiros, há quem o defenda contra várias das críticas e diga que só o próprio deve decidir o que fazer. Os bispos dizem que só poderão pensar no assunto se alguém se queixar.

Escuteiros do CNE em Fátima. Foto: Direitos reservados.

 

Há um profundo mal-estar entre responsáveis do Corpo Nacional de Escutas (CNE) por verem o nome do seu chefe nacional, Ivo Faria, envolvido nas notícias sobre o caso Luanda Leaks. A posse para o segundo mandato no cargo, que ocorre no próximo sábado, 22, em Balazar (Póvoa de Varzim), no final do conselho nacional do movimento, é mesmo posta em causa por vários dirigentes e responsáveis do escutismo católico.

O chefe nacional deveria “primeiro resolver os problemas” que vieram a público, diz ao 7MARGENS João Carvalhosa, ex-chefe regional de Lisboa (2015-18), entre outros cargos desempenhados na associação. Carvalhosa, um dos que defende que Ivo Faria não deveria tomar posse, afirma que “enquanto dirigentes e titulares de cargos”, os responsáveis máximos têm o “dever de proteger o CNE”.

Contactado pelo 7MARGENS, Ivo Faria preferiu não fazer declarações. Considera ser seu dever dar, primeiro, explicações ao conselho nacional do CNE.

O que está em causa, para os seus críticos, é o papel desempenhado por Ivo Faria, sócio na PwC (PricewaterhouseCoopers, uma das maiores empresas do mundo na área da consultoria financeira), nos negócios de Isabel dos Santos em Portugal, de acordo com as notícias vindas a público (nomeadamente na SIC e no Expresso). O actual chefe nacional do CNE seria, com Jaime Esteves, contava este último jornal a 18 de Janeiro, uma das pessoas que mais trabalhou com Mário Leite da Silva, apontado como o braço direito de Isabel dos Santos em Portugal.

Uma das operações em que a PwC Portugal terá estado envolvida, através destes seus responsáveis, foi a reestruturação da petrolífera angolana Sonangol, então presidida por Isabel dos Santos. O envolvimento teria passado por facturar serviços a empresas sem proprietários conhecidos de Malta e do Dubai, quando as regras da própria PwC dizem que os contratos devem ser pagos por quem adjudica os serviços e não por outras entidades.

Jaime Esteves demitiu-se do seu cargo de responsável do departamento fiscal da empresa por causa da “seriedade das alegações do Luanda Leaks”, como disse ao Observador. O próprio presidente-executivo da consultora, Bob Moritz, afirmou, citado no Público por ocasião da cimeira de Davos (Suíça) que estava desiludido porque a empresa não identificou a situação “mais cedo”. Mas a própria PwC já tinha sido referida como estando envolvida noutro caso semelhante, o Luxemburgo Leaks, divulgado há seis anos.

 

Data e local propositados para desmobilizar?

É perante estes dados vindos a público (na página da PwC Portugal, Ivo Faria inclui uma referência ao seu cargo actual no CNE) que vários responsáveis e dirigentes do CNE consideram que Ivo Faria, mesmo que não tivesse feito nada de errado, deveria renunciar a tomar posse.

“Em nome da protecção da associação, tinha de esclarecer primeiro o que se passou”, diz uma escuteira da zona centro do país, ouvida pelo 7MARGENS. “Se fosse eu, por mais inocente que estivesse, salvaguardaria sempre o bom nome do CNE e não tomaria posse.”

Esta dirigente prefere para já não dar o nome. Não tem medo de o fazer, diz, mas, para ser “verdadeira e fiel”, quer ter primeiro essa conversa no próximo sábado, no conselho nacional. Mas o facto de se falar de uma associação de formação de jovens é sério, acrescenta, uma vez que se está a pôr em causa a mensagem que se passa.

O conselho nacional plenário do CNE reunirá sábado, a partir das 9h, em Balazar. Às 17h, está prevista a missa de encerramento, que marca também a criação do agrupamento 1406 do CNE, naquela paróquia. A convocatória não faz referência à posse da nova Junta Central saída das eleições de 12 de Janeiro, mas ela ocorrerá pelas 17h, no final da reunião do conselho.

O facto de a reunião se realizar no Norte e nesta data concreta é objecto de críticas de vários escuteiros: o fim-de-semana do Carnaval é utilizado por muitas estruturas do CNE para realizar acampamentos e outras actividades. O facto de estas obrigarem à mobilização dos principais dirigentes e chefes impede que muitos deles possam estar na reunião – em teoria, poderiam estar 10.828 dirigentes, mas a participação média nesta assembleia tem andado pelos 300/400.

Acampamento de escuteiros: há dirigentes que se queixam da data escolhida, que colide com activdidades do CNE em muitos pontos do país. Foto: Direitos reservados.

 

Por outro lado, realizando-se quase sempre em Fátima, a mudança para a ponta Norte do país torna mais difícil a possibilidade de participação de pessoas do centro e do sul.

Um outro elemento com responsabilidade no CNE, mais defensor do chefe nacional, contesta estas leituras: a razão da data é porque é o dia de Baden Powell, fundador do escutismo, e Balazar foi escolhido por estar ali “o agrupamento mais recente do CNE”.

Ao mesmo tempo, este responsável admite que “o envolvimento” de Ivo Faria no que veio a público “é factual” e “estamos a falar de relações profissionais conhecidas”. Mas, acrescenta, este é “um tema delicado, que envolve dimensões jurídicas difíceis e questões éticas, difíceis de avaliar inteiramente, porque há cláusulas de confidencialidade que impedem as pessoas de esclarecer com algum detalhe o que fizeram”, diz. “É uma questão muito pessoal, a que só o próprio poderia responder, se reconhecesse que no seu comportamento há condutas reprováveis do ponto de vista ético”.

O mesmo responsável responde a algumas críticas: “Se as pessoas têm perguntas já o poderiam ter feito”. É “incompreensível” o medo e “o CNE tem espaços onde podem exprimir-se e até criou uma linha para denúncias no caso dos abusos e de tudo o que tem a ver com segurança”, recorda. “Há dezenas de processos disciplinares, alguns com questões éticas, outros com conflitos entre dirigentes”, acrescenta. E mesmo em relação à posse do próximo sábado, as pessoas podem “interpelar os órgãos competentes”, nomeadamente o Conselho Jurisdicional, são livres de o fazer”.

“Isto é sério demais para ser tratado de outro modo. O problema para sábado é a associação e o impacto que isto pode ter na associação”, conclui.

 

“É preferível novas eleições”

“Sempre alerta, para servir”, diz o lema do CNE. Foto: Direitos reservados

“Um chefe nacional do CNE deve ser um exemplo a seguir em todos os sentidos, inclusivamente na sua vida pessoal, pois o CNE faz educação não-formal essencialmente com exemplos reais, junto de 70 mil escuteiros”, diz Henrique Dias, formador, ex-chefe de agrupamento e também ex-presidente do Conselho Fiscal e Jurisdicional da Região de Lisboa.

Um dos artigos da Lei do Escuta diz que “a honra do escuta inspira confiança”, recorda. E perante o que está a suceder “seria prudente preservar o CNE e a própria Igreja Católica de todo este pesadelo”. E sugere um de dois caminhos: “Ou há um esclarecimento oficial do CNE a dizer que o seu chefe nacional nada tem a ver com as alegações noticiadas, agindo contras essas insinuações que mancham o seu representante máximo; ou o chefe nacional se afasta dos seus compromissos na associação, resolvendo em privado essas questões e só depois de tudo esclarecido ponderaria a reaproximação.”

Diante do quadro actual, diz, deve ficar à “consciência ética da pessoa o caminho a seguir.”

O que veio a público “é claro”, diz outro dirigente que, se estivesse naquela situação, também “não tomaria posse”. Outro, da mesma região manifesta-se “bastante incomodado com a situação”.

João Carvalhosa, o ex-chefe regional de Lisboa, considera “uma tristeza” o que o CNE está a viver e acrescenta: “É preferível realizar novas eleições agora, a termos de chegar à mesma solução mais tarde, por causa da exposição pública”. “O nosso papel enquanto dirigentes é dar o exemplo. Se as pessoas não acreditam em nós, o nosso papel principal de formadores e de dar exemplo aos jovens fica em causa.”

Outro responsável, que pede igualmente o anonimato – o 7MARGENS falou com uma dúzia de pessoas para este trabalho, mas apenas os dois identificados aceitaram dar o nome –, compara esta situação com a questão dos abusos sexuais na Igreja: “Foi a mesma atitude de não ligar às suspeitas e denúncias que havia, que levaram ao que hoje se vive.”

 

Escuteiros desmobilizados?

Vários dos dirigentes e responsáveis criticam ainda o que consideram ser a desmobilização dos escuteiros. Os números eleitorais são um dos exemplos a traduzir essa realidade: entre 10.828 dirigentes que constituem o universo eleitoral, votaram 4.047 (podendo fazê-lo por correspondência); desses, 3.505 escolheram a lista única liderada por Ivo Faria; ou seja, apenas 32,37% disseram que sim à Junta Central que tomará posse no sábado.

Há três anos, as eleições tiveram uma participação eleitoral de 50,73%, tendo a lista vencedora obtido uma 55,79% dos votos (nesse ano, houve duas concorrentes).

Uma outra dirigente regional, neste caso do Sul, desabafa: ““Por vezes, tenho vergonha de ser escuteira, isto parece uma maçonaria com teias de interesses pouco claras, em determinadas situações e já com pouco de um movimento católico. Temos nomes metidos em grandes organizações e há sempre um escuteiro em qualquer sítio –nas forças armadas, nas polícias ou nos partidos… Pode ser perigoso misturar interesses pessoais com essas instituições.”

A estas alegações, o dirigente que mais defende Ivo Faria diz que é “normal”, numa associação com 70 mil pessoas, haver divergências e aproximações. Mas qualquer associado “pode colocar as questões que entenda”, incluindo no próximo sábado, insiste.

 

Bispos: “Se chega um papel, damos atenção”

Finalmente, há ainda quem defenda, como um dirigente do Norte, que “os bispos deveriam suspender a tomada de posse” – o CNE, enquanto movimento católico, está sob tutela da Comissão Episcopal do Laicado e Família.

O presidente da comissão e bispo auxiliar de Lisboa, Joaquim Mendes, entende a “preocupação das pessoas”, mas diz que é preciso ver que “as coisas não são assim”: “A nós não nos chegou nada sobre isso, não podemos agir nem reflectir sobre o assunto sem nos chegar nada”, explica.

Admitindo que já sabia “vagamente” que o nome de Ivo Faria aparecera nas notícias sobre o Luanda Leaks, o bispo diz: “Ele faz parte de uma multinacional, não posso pronunciar-me sobre o que a empresa fez ou não.” Mas, sublinha, “quando chega um papel, a comissão dá atenção ao papel, tem de dar atenção ao que as pessoas dizem”.

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