Enzo Bianchi, um verdadeiro cristão (Opinião)

| 30 Mai 20

Enzo Bianchi

Enzo Bianchi, em Trento, a 12 de Dezembro de 2013. Foto © Niccolò Caranti/Wikimedia Commons

 

Quem conhece o Enzo Bianchi, quem já se refletiu naqueles olhos terríveis de fogo, como são os olhos de um homem “que viu Deus”, sabe do seu caráter enérgico, por vezes tempestuoso, firme, de quem não tem tempo a perder e que por isso urge falar sempre com parresía, isto é, com franqueza, com verdade. Enzo habituou-nos a isso, habituou os monges e as monjas de Bose a isso. O exercício da autoridade, a gestão do governo e o clima fraterno da Comunidade sempre tiveram a sua marca, esta marca.

Enzo sempre disse que deixaria a direção da Comunidade de Bose, mesmo sendo fundador. Nunca vi com bons olhos tal decisão, porque o seu carisma, a sua visibilidade mediática, a sua forte personalidade, a sua “criação” (Bose), feita à sua imagem e semelhança poderiam revelar-se problemáticas na hora de se confrontar com um prior que poderia ter uma personalidade, um estilo, diferente, um projeto para a fraternidade que poderia não coincidir, nos métodos e no governo, com aquilo que o fundador sonhou para o futuro da comunidade.

Luciano Manicardi, um monge de grande espessura intelectual e espiritual, era o seu número dois e seu braço direito desde sempre. E era, naturalmente, a grande aposta de Enzo para a sucessão, que aconteceu há três anos. Parece que o estilo mais fleumático, menos mediático, menos interventivo, aparentemente mais apático e introspectivo e menos carismático na liderança terão chocado com a presença física e fantasmática de Enzo, que mesmo estando mais ausente, deliberadamente, da comunidade, não se coibia, agora como simples monge, de “ter palavra em capítulo”. A fraternidade começou, assim, a dar sinais de fratura, divisão e de mau tempo no clima fraterno.

Como aconteceu com os franciscanos, como aconteceu com os carmelitas, como se calhar é normal, porque a graça é transbordante e excessiva por natureza, a comunidade parece ter-se dividido entre os de “Enzo” e os de “Manicardi”, mas todos de Cristo.

Esta crise parece a típica reação freudiana da necessidade de matar o pai para que se possa crescer. A presença de Enzo é arrebatadora, icónica, quase cultual, demasiado mediática e amada pela elite cultural da esquerda e da Igreja progressista, pelas suas ideias sobre o Concílio Vaticano II, o ecumenismo, a presença dos cristãos e da Igreja na pòlis, o diálogo com os não-crentes e a cultura. Bose é tudo isso, que Enzo criou e acompanhou pessoalmente e quase de forma maníaca: desde a fruta e os legumes da horta, cultivados com esmero e amor, no respeito pela natureza, o cuidado extremo na preparação das refeições, do pão, das compotas, dos chás, mas também dos livros que ele cuidava como quem cuida de um horto, dos ícones, da música, do estudo rigorosíssimo da Palavra de Deus e da lectio, da liturgia divina. Tudo isso é a herança do Enzo. Tudo isso Bose herdou e elevou. Tudo isso Enzo administrou como um bom pai de família.

Mosteiro de Bose, Itália. Escultura Epiclese-Invocação, B. Martinazzi, durante a Primavera. Foto © Mosteiro de Bose.

 

Mas a velhice avança, ameaçando os olhos com a morte, e é preciso abandonar, passar o testemunho, e profeticamente conhecer a kenosis do logos… nem sempre é fácil, é humano. Mas eu acredito no Enzo, um verdadeiro cristão.

Acredito no que disse na manhã do day after do seu afastamento da comunidade, por decisão do Papa: “Nestes últimos dois anos, durante os quais estive deliberadamente mais ausente do que presente na comunidade, principalmente morando no meu eremitério, sofri por não poder continuar a dar a minha legítima contribuição como fundador. Como fundador, há mais de três anos renunciei livremente; entendo que a minha presença pode ter sido um problema, mas nunca contestei com palavras e ações a autoridade do legítimo prior, Luciano Manicardi, meu estreito colaborador por mais de vinte anos, como mestre do noviços e vice-prior da comunidade, que partilhou decisões e responsabilidades comigo em plena comunhão.

O problema é que o Decreto de 13 de maio de 2020, que tem a assinatura do secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, e foi “aprovado em forma específica pelo Papa” (o que faz com que a decisão seja da sua responsabilidade) não é passível de apelação. O documento exige que o fundador de Bose, o ex-prior Enzo Bianchi, deixe a comunidade “e se mude para outro lugar, decaindo de todos os cargos atualmente ocupados”. A mesma imposição vale para dois outros irmãos de Bose, Goffredo Boselli e Lino Breda, e para a monja Antonella Casiraghi.

Enzo Bianchi, segundo o jornal La Repubblica, não conhece o conteúdo do decreto, as suas motivações. O apelo à Santa Sé foi “em vão”, diz. “Em vão, aos que nos entregaram o decreto, pedimos que pudéssemos conhecer as provas das nossas faltas e nos podermos defender das falsas acusações.

Mas Enzo é um cristão e, por isso, sabe obedecer no meio do sofrimento e declara: “Na mais profunda tristeza, sempre obediente, em justiça e em verdade, à vontade do Papa Francisco, por quem tenho amor e devoção filial.

 

Mário Rui de Oliveira é padre, autor de O Livro da Consolação e trabalha em Roma

 

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