Equipa do Mosaiko forçada a regressar a Luanda, depois de apresentar queixa-crime contra polícia de Cafunfo

| 13 Fev 21

Os quatro activistas do Mosaiko foram obrigados a regressar a Luanda, sem terem feito nada do que se propunham. Deixaram, mesmo assim, uma queixa-crime contra a “prisão domiciliária” a que estiveram sujeitos. O episódio revela muito do actual momento político em Angola.

Cafunfo, Lunda Norte, Angola, manifestação

A manifestação de 30 de Janeiro no Cafunfo (Lunda Norte, Angola) esteve na origem deste episódio com a organização católica. Foto: Direitos reservados.

 

Os quatro activistas da Mosaiko – organização angolana de promoção dos direitos humanos, ligada aos padres dominicanos – e da Rede de Defensores dos Direitos Humanos (RDDH), que estiveram três dias retidos na casa paroquial de Cafunfo (Lunda Norte, no Leste de Angola), regressaram ao final da tarde deste sábado, 13 de Fevereiro, a Luanda, sem terem podido cumprir a missão que se propunham.

No Cafunfo, os quatro – dois advogados, uma religiosa e o motorista – só queriam “prestar auxílio e ouvir” algumas pessoas ligadas à Igreja sobre o que se passou na localidade, há duas semanas, durante a manifestação realizada na vila em protesto contra as deficientes condições de vida e pedindo autonomia para a região e que terminou com vários mortos.

Os quatro deixaram, entretanto, uma queixa-crime contra a polícia, pela detenção ilegal de que consideram ter sido vítimas, que se assemelha a um regime de prisão domiciliária, disse ao 7MARGENS o padre Júlio Candieiro, director do Mosaiko, organização que tem sede em Luanda.

Na manifestação de há duas semanas, há pelo menos 15 vítimas mortais, de acordo com várias fontes, alegadamente atingidos por balas das forças de autoridade. A Polícia Nacional recusa essa versão, dizendo que houve apenas seis mortos.

Os factos foram denunciados pelos bispos da região, que criticam também a insatisfação crescente das populações com a falta de água, electricidade e condições mínimas de sobrevivência, apesar de ser dali que saem os diamantes, uma das riquezas do país.

Ainda na sexta-feira, 12, os três membros do Mosaiko e o da RDDH saíram, com escolta, da residência paroquial do Cafunfo e foram levados sob escolta para Cuango, a sede do município, onde ficaram alojados na casa das Irmãs Franciscanas de São José. O caminho fez-se por uma estrada “privada”, aberta apenas ao serviço da companhia de extracção de diamantes, informou o mesmo responsável.

Cafunfo, Lunda Norte, Angola.

Cafunfo: a delegação do Mosaiko não conseguiu cumprir a sua missão. Foto: Mosaiko

 

O padre Júlio continuava, ao final do dia de sábado, sem entender o que se passou: “Não se percebe porquê tanto receio de uma instituição ligada à Igreja em querer ir ouvir responsáveis católicos locais”, diz o director do Mosaiko. No final, “não houve nenhuma conversa, ficou tudo sem efeito”, acrescenta o responsável. “O único efeito é o nervosismo das autoridades”.

Júlio Candieiro diz que em breve o Mosaiko irá tomar uma posição oficial. Para já, os quatro estão em casa, e estão bem, garante. O mesmo responsável diz também que, da parte das autoridades, nunca houve resposta às diligências feitas pelo Mosaiko para resolver a situação.

Quanto aos bispos católicos, vários deles exprimiram solidariedade com os quatro membros da organização, enquanto o bispo do Dundo, diocese onde se integra Canfunfo, tentou também indagar a razão do incidente.

 

Um episódio revelador do que se passa em Angola?
Angola. Polícia. Violência policial. Jovens. Direitos humanos

Manifestação em protesto contra a violência policial: a situação em Angola está a regredir, depois das promessas de abertura? Foto: Omunga/Direitos reservados

 

O episódio de Cafunfo poderia revelar incidências de poder a nível local, mas ele reflecte, antes, a estratégia de segurança de Estado que predomina no regime e no Governo, e também a desilusão com a suposta transição que se verificaria no poder em Angola, comenta ao 7MARGENS um observador de Luanda, sobre o actual momento político angolano.

João Lourenço, Presidente de Angola desde Setembro de 2017, diz a mesma fonte, é “um general e grande estratega, mas faz parte da máquina” do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), o partido no poder. Quando ele substituiu José Eduardo dos Santos, “precisava de ganhar o povo para ganhar o partido”. Por isso, começou por tomar medidas de desanuviamento do regime, que foram bem acolhidas pela população e pela opinião pública.

O projecto de Eduardo dos Santos era “ter uma espécie de Dmitri Medvedev”, o vice-presidente de Vladimir Putin, que durante um mandato substituiu o Presidente russo formalmente, apenas para que este continue a exercer o poder. O então Presidente angolano quereria ter “alguém para ‘queimar’, até que um dos seus filhos aparecesse como salvador da pátria”, analisa o mesmo observador.

João Lourenço apareceu, no início, como um “corte com o passado”, mas várias das nomeações que fez não deixaram margem para “grande optimismo, porque eram pessoas que se percebia que não iriam mudar” o sistema.

Quando o Presidente “elegeu o combate à corrupção como prioridade do Governo, fê-lo por razões económicas e não éticas”, acrescenta. “O país estava tão mal que já ninguém queria investir. Angola está há anos consecutivos em recessão e mais de 50% do Orçamento Geral do Estado é para a dívida e o serviço da dívida”, diz o analista em Luanda. Mesmo o produto da venda do petróleo, uma das principais fontes de receitas do país, é sobretudo para reembolso de empréstimos, facto ainda mais agravado pela queda dos preços do crude nos mercados internacionais.

Com episódios como as manifestações do Verão e Outono passado, e com relatórios internacionais a denunciar a violência das forças policiais, mesmo sob o pretexto do combate à pandemia, “é a mentalidade de segurança do Estado e da força que vem ao de cima”, analisa ainda a mesma fonte e “caiu a máscara da ilusão que se criou”.

O sucedido no Cafunfo, em que três pessoas são impedidas de se encontrar com outras a quem queriam manifestar apenas solidariedade e apoio, manifesta que há uma face dura do regime que se manifesta cada vez mais. Mas este fenómeno também não é novo, acrescenta: “Também já com Eduardo dos Santos houve algumas manifestações de abertura política, que acabaram sempre em retrocesso.”

 

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