Era uma vez na Alemanha

| 23 Fev 2024

Nota prévia: se não houver informação contrária, todos os links são para notícias em alemão.

“E preciso pôr fim à espiral de ódio. O antissemitismo não deve ser instrumentalizado para justificar discurso de ódio contra muçulmanos.” Foto © Helena Araújo, Berlim

 

No sábado 3 de fevereiro, no centro de Berlim, um estudante judeu foi atacado por outro estudante da sua universidade, que o reconheceu num bar, o seguiu na rua, e o agrediu violentamente – mesmo quando já estava caído no chão. A vítima teve de ser operada para evitar uma hemorragia cerebral, e está no hospital com fracturas em vários ossos do rosto. Chama-se Lahav Shapira. Depois do ataque, no twitter e no instagram multiplicaram-se publicações do género: “lol – é um provocador hardcore” e até “um famoso racista judeu (…) com alma satânica”.

O avô materno do “provocador hardcore” emigrou para Israel em 1948. Sozinho. No gueto de Varsóvia, escapou à “solução final” friamente planeada porque, no dia em que os nomes de toda a família apareceram na lista do transporte para o gás em Treblinka, ele conseguiu esconder-se.

O avô paterno de Lahav, Amitzur Shapira, era treinador dos atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique, e foi uma das vítimas do massacre de terroristas palestinianos.

Em 2002, depois do divórcio, a mãe decidiu deixar a Cisjordânia, onde viviam, e mudar-se para a Alemanha com os dois filhos, para viver com o seu novo companheiro numa pequena cidade de Sachsen-Anhalt. Shahak, o filho mais velho, tinha então 14 anos. Não se importou de deixar a Cisjordânia, onde nunca se sentira bem e não tinha amigos. Na Alemanha, contudo, o ambiente era ainda pior, porque a região para onde foram viver é um bastião da extrema-direita mais radical. Uma das primeiras palavras alemãs que aprendeu foi “Judensau”. Na escola, troçavam dele por ser estrangeiro e judeu.

Um dia, teria Lahav 16 anos, foi insultado (“porco judeu”) e espancado por um adolescente com ideias da direita radical. O ataque só não foi além de algumas contusões e feridas superficiais porque um condutor que ia a passar parou, gritou ao atacante e levou dali a vítima no seu carro.

Descobriu-se depois que o agressor jogava no clube de futebol local, onde havia um treinador de futebol neonazi. Mas demorou algum tempo até se conseguir convencer a direcção do clube que não podiam deixar aquele tipo com bigodinho à Hitler treinar adolescentes.

O irmão mais velho, Shahak, foi viver para Berlim, onde finalmente encontrou o ambiente de liberdade que sempre almejara. Mas até em Berlim fez más experiências. No clube de futebol onde se inscreveu, alguns jogadores árabes chamaram-lhe “porco infiel”. Mudou para outro clube. E depois, na passagem de ano para 2015, na carruagem de metro onde ia estavam sete jovens berlinenses de origem turca ou árabe a cantar “fuck Jude” e “fuck Israel”. A carruagem estava cheia, mas só duas pessoas protestaram. Shahak foi ter com eles, disse “eu sou judeu – têm algum problema com isso?” Filmou-os. Cuspiram-lhe em cima. Quando saiu do comboio, os outros seguiram-no, exigiram-lhe que apagasse o filme e, tendo ele recusado, espancaram-no até que agentes de segurança da estação intervieram. Quando o caso se tornou público, Shahak quis a todo o custo impedir a sua instrumentalização para propaganda islamofóbica. “Porque aprendi muito cedo o que é o racismo, e sempre o achei uma estupidez”, disse ele. A sua mensagem: é preciso pôr fim à espiral de ódio. O antissemitismo não deve ser instrumentalizado para justificar discurso de ódio contra muçulmanos. “E claro que também teria dito alguma coisa se alguém estivesse a gritar ‘fuck Palestina’.”

Entre outras iniciativas de protesto, Shahak Shapira é o autor da série de fotomontagens Yolocaust (para quem não conhece: aqui, em português e aqui um exemplo) e de uma acção de crítica ao Twitter, quando, depois de denunciar mais de 300 tuítes de ódio e receber apenas 9 respostas, todas elas alegando que os tuítes não violavam as regras, decidiu pintar alguns deles em frente à sede da empresa em Hamburgo. Frases como: “Jewish scum”, “n*rs are a plague to our society”, “retweet if you hate muslims”, “a Alemanha precisa novamente de uma Solução Final para o Islão”.

Devido à sua participação em iniciativas contra a extrema-direita, a própria mãe de Shahak precisou de ficar sob protecção policial durante duas semanas.

É esta a história da família de Lahav Shapira, que está neste momento no hospital com vários ossos da cara partidos.

Depois do massacre do Hamas, os judeus começaram imediatamente a sentir-se ainda mais inseguros nas ruas europeias. Berlim não foi a excepção – bem pelo contrário. Afinal de contas, esta é a cidade onde, no dia 7 de Outubro, algumas dezenas de pessoas vieram para a rua festejar aquela orgia de violência contra judeus.

Na realidade, há vários anos que os actos de violência antissemita, por parte de neonazis e de alguns muçulmanos, já são um tema que choca e preocupa a Alemanha. E essa violência aumentou imediatamente a seguir ao massacre, ainda antes de Israel começar a bombardear Gaza.

À semelhança do que aconteceu em toda a cidade, e particularmente nos bairros onde há mais árabes e turcos, também os alunos judeus da Freie Universität (Universidade Livre), onde Lahav estuda, começaram a deixar o quipá e o fio com a estrela de David em casa. Sentem medo. Ao longo destes meses, a direcção da Universidade não tem sabido responder de forma adequada a esta situação.

Em meados de Dezembro de 2023, estudantes dessa universidade, juntamente com grupos do exterior, organizaram ali uma acção de protesto contra os crimes que Israel está a cometer em Gaza. Ocuparam um anfiteatro, afixaram cartazes, disseram o que tinham a dizer, houve até quem pusesse em causa o direito de Israel a existir. Alguns estudantes judeus daquela universidade tentaram entrar na sala, mas o acesso estava vedado a quem tivesse uma posição crítica ou pró-Israel. Lahav conseguiu entrar juntamente com outros estudantes. Num ambiente de enorme tensão, prendeu à parede um cartaz com a fotografia de um dos reféns do Hamas. Houve cartazes (dos dois lados) arrancados e alguns empurrões. A cena foi filmada (aqui).

No filme, vê-se um homem que faz menção de arrancar o cartaz de Lahav e o tenta empurrar para fora do local. É Ramsis Kilani. Imediatamente a seguir ao massacre de 7 de Outubro, Ramsis Kilani publicou uma série de tuítes chocantes, como por exemplo: questionava se os cidadãos israelitas deviam ser realmente considerados civis, já que, afinal de contas, mais tarde ou mais cedo todos cumpriam serviço militar.

Ramsis Kilani é um berlinense filho de uma alemã e de um palestiniano. Após o divórcio do casal, o pai regressa a Gaza, onde casa novamente. Na guerra de 2014, uma bomba israelita cai no prédio onde a família com cinco filhos se refugiara, em obediência às ordens do exército israelita. Em busca de um lugar mais seguro que a sua casa no norte de Gaza, tiveram o azar de se abrigar no prédio de escritórios onde também um comandante do Hamas se escondera. A bomba destinada a este mata onze pessoas da família de Ramsis Kilani: o pai, a sua mulher e todos os filhos, e mais 4 parentes que também se tinham refugiado ali. Uma vez que o pai e os cinco filhos tinham nacionalidade alemã, na Alemanha diversas organizações deram início a processos por crime de guerra. Israel conseguiu arranjar forma de não ser dado seguimento a nenhum deles. A organização de defesa dos direitos humanos que apoiava Ramsis Kilani avisou-o que não valia a pena recorrer, exemplificando com um precedente: até no caso do assassinato de quatro menores numa praia de Gaza Israel tinha conseguido escapar ao julgamento.

“Como consequência do confronto na Freie Universität, imagens de Lahav Shapira começaram a circular na internet juntamente com o apelo: “Fixem este rosto”. Lahav é marcado como provocador sionista e racista de extrema-direita.” Fonte: twitter

Como consequência do confronto na Freie Universität, imagens de Lahav Shapira começaram a circular na internet juntamente com o apelo: “Fixem este rosto”. Lahav é marcado como provocador sionista e racista de extrema-direita.

Numa troca de mensagens com Lahav, Ramsis Kilani responde-lhe enviando simplesmente o emoji do triângulo vermelho. Na Alemanha, a ninguém escapa a berrante coincidência: o sinal do Hamas para assinalar alvos inimigos, que agora está a tornar-se um símbolo da resistência palestiniana (link para uma descrição em inglês), é igual ao sinal que os nazis usavam nos campos de concentração para marcar os prisioneiros políticos. A escolha deste símbolo é certamente um acaso, mas o seu uso na Alemanha ganha todo um outro significado.

A universidade titubeia. Começa por dizer que o mundo universitário é um lugar de confronto de ideias e que por vezes há naturalmente excessos, não toma medidas para evitar o aumento da tensão entre alunos judeus e grupos pró-palestinianos, quando se exige a expulsão do agressor diz que não pode expulsar um estudante por motivos políticos (na realidade, a lei não permite que uma universidade berlinense expulse aluno nenhum, seja qual for o motivo; no máximo, pode impedi-lo de entrar nas instalações durante alguns meses). Perante a evidência da violência física, fala em divergência ideológica. A nível da política do Estado de Berlim, também há algumas hesitações. Ao fim de alguns dias após este ataque, a pressão aumentou a tal ponto que se deu finalmente uma inflexão. A responsável deste pelouro no governo do Estado de Berlim e a direcção da universidade assumiram uma posição mais firme contra actos de violência antissemita. Ontem, 8.1.2024: – Na Universidade Humboldt um grupo pró-palestiniano interrompeu uma sessão onde juristas de vários países, entre os quais uma juíza do Supremo Tribunal de Israel, queriam debater sobre os desafios do julgamento no contexto das Democracias constitucionais. Imagens aqui. (Sinceramente, é preciso ter uma pontaria de luxo para acertar tão ao lado: boicotar justamente uma juíza do Supremo Tribunal de Israel, o último reduto institucional daquele Estado capaz de cercear as tentações totalitárias do governo de Netanyahu!) – Em frente à Freie Universität – que ainda não decidiu o que vai fazer com o aluno agressor, e em quatro meses ainda não definiu um plano sobre como responder à situação de insegurança dos alunos judeus – houve nova manifestação pró-palestiniana. A universidade afirma que foi instaurado um processo-crime “devido ao conteúdo dos cartazes que apelavam a esta manifestação“.

Uma associação de estudantes exige que a direcção da FU se demita. Acusa-a de passividade perante incidentes de fundo anti-semita, por demasiadas vezes e durante demasiado tempo. Referem a ocupação da sala e a violenta agressão de um aluno, distribuição de panfletos e ameaças a estudantes, além da apresentação de queixas por agressões menores. “Há uma falta de acção concreta, uma falta de consequências por parte da direcção da universidade”, acusa essa associação.

O ambiente na universidade está cada vez mais tenso. Ontem, uma aluna confessava a um jornalista: “Até eu sinto medo, e nem sou judia.”

Tudo isto é trágico. Aquela cena de confronto físico numa universidade – o lugar de troca de ideias por excelência – entre um descendente de uma vítima do “terror palestiniano” e um descendente de uma vítima do “terror israelita”: se não fosse a terrível realidade, dava uma potente metáfora. O desespero dos que sofrem pelos milhares de palestinianos a morrer em Gaza. O desespero de um judeu que cresceu na insegurança de um ambiente profundamente antissemita e vê, na sua universidade, pessoas a desprezar os direitos dos reféns do Hamas e a negar ao seu país o direito de existir.

No meio de tudo isto, o que mais me espanta é o modo como alguns grupos pró-palestinianos conseguem fazer tudo de forma tão contraproducente. No preciso momento em que o mundo inteiro está profundamente escandalizado com o horror de Gaza, no preciso momento em que os alemães saem à rua aos milhões para protestarem contra os planos islamofóbicos da extrema-direita e aplaudem os oradores que afirmam que na Alemanha todos são bem-vindos, em vez de aproveitarem este contexto único para melhorarem a situação do povo palestiniano, alguns grupos pró-palestinianos escolheram formas de luta que provocaram uma extrema polarização.

Queimar bandeiras de Israel, gritar “from the river to the sea”, recusar liminarmente falar dos reféns do Hamas ou criticar essa organização, ocupar instalações universitárias e recusar o debate, boicotar iniciativas universitárias: tudo isto faz com que largas camadas da população se recusem a participar em protestos pró-palestinianos, para não serem automaticamente associadas a simpatizantes do Hamas e inimigos do Estado de Israel.

Não dá para acreditar, mas conseguiram realmente afastar das suas manifestações muitas pessoas que concordam inteiramente com os motivos do protesto (que são: a deliberada destruição de Gaza e a morte de dezenas de milhares de pessoas), e, pior ainda: estão a conseguir reforçar na sociedade alemã a imagem preconceituosa que a extrema-direita espalha sobre os muçulmanos, como pessoas que não respeitam as leis e a cultura do país, e ameaçam valores básicos e a coesão desta sociedade.

Os palestinianos – em Gaza, e no mundo inteiro – mereciam melhores defensores.

 

Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blog Dois Dedos de Conversaonde este texto foi inicialmente publicado.

 

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