Erdogan convidou o Papa, mas a primeira oração muçulmana em Hagia Sofia arrisca-se a ser uma arma política

| 23 Jul 20

Hagia Sophia. Istambul

Noite junto a Hagia Sophia, presa entre as grades da política e da religião. Foto © Margarida Paulino

 

Um padre jesuíta diz que é “hipócrita” dizer que os cristãos perdem uma igreja; bispos católicos e ortodoxos insistem na ideia d e um lugar de culto misto ou de iniciativas inter-religiosas; a Presidente grega pede ajuda ao Papa; Erdogan fala no renascimento islâmico, de Bukhara ao Al-Andalus. A decisão política do Presidente turco em reconverter a antiga basílica de Santa Sabedoria em mesquita é contestada por muitos, mas, apesar dos apelos de última hora, a primeira oração muçulmana depois da decisão acontecerá mesmo nesta sexta. 24.

 

O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, terá convidado o Papa Francisco para a primeira oração na antiga catedral e depois mesquita de Hagia Sophia (Santa Sabedoria), que a partir desta sexta-feira, 24 de Julho, voltará a ser um lugar de culto islâmico, depois de 85 anos a funcionar como museu. Na primeira oração, deverão estar presentes 500 pessoas, entre elas o Presidente Erdogan.

A informação foi dada à CNN Turk por Ibrahim Kalin, porta-voz de Erdogan, e citada pelo jornal italiano Il Faro. Até à tarde de quarta-feira, 22, não havia qualquer comentário oficial do Vaticano à informação, mas é de prever que o Papa não aceite o convite, depois de ter afirmado, a 12 de Julho, que se sente “magoado” pela decisão de Erdogan.

Entretanto, nos Emiratos Árabes Unidos (EAU), o xeque Sultan bin Muhammad Al-Qasimi, governante de Sharja e um dos sete príncipes do país, quer “o regresso da Mesquita de Córdova”, em Espanha, argumentando que perguntou a quem pertence a actual catedral-mesquita e que lhe foi dito que “o município entregou a mesquita à Igreja” Católica.

Al-Qasimi fez estas declarações a uma televisão local, segundo o Religión Digital. Mas esta não é a primeira vez que a possibilidade de haver oração muçulmana no templo de Córdova é requerida por responsáveis muçulmanos. Em 2006, recorda a mesma fonte, a Junta Islâmica de Espanha pediu ao então Papa Bento XVI que pudesse haver oração de cristãos e muçulmanos naquele espaço. Na época, essa possibilidade foi recusada pelo então bispo de Córdova, Juan José Asenjo. Em 2010, diante de um mesmo pedido, o actual bispo, Demetrio Fernández, deu idêntica resposta.

A afirmação do xeque Al-Qasimi surge a poucos dias de se realizar a primeira oração muçulmana na antiga catedral cristã, o mais significativo santuário da cristandade entre 537 e 1453, depois convertida na mesquita “imperial” mais importante do islão, sob a autoridade do sultão da Turquia (1453-1931), como recorda o teólogo espanhol Xabier Pikaza. Em 1935, quatro anos depois de ter sido encerrada, o então Presidente turco Mustafa Kemal Ataturk, converteu o templo religioso em museu.

 

Uma decisão política

Hagia Sophia. Istambul.

Símbolos muçulmanos em Hagia Sophia: os andaimes voltaram este mês à antiga basílica, para preparar o interior para a sua reconversão em mesquita. Foto © António José Paulino

 

A decisão do Presidente turco, que promoveu a ideia, éabsolutamente política”, considera o jornalista Merdan Yanardag, de Istambul, citado por Cameron Doody no Novena News. Ao dar este passo, Erdogan e as autoridades turcas “voltaram aos seus estreitos objectivos ideológicos, uma vez que estavam politicamente exaustos”.

Yanardag acrescenta, segundo a mesma publicação: “Não creio que a Turquia precise de uma nova mesquita. Em Istambul, há mesquitas suficientes que não estão cheias mesmo durante as orações de sexta-feira [o dia de oração mais importante para os muçulmanos], incluindo a Mesquita Azul. Portanto, não se deve pensar que isto irá acontecer à Hagia Sophia.” E, acrescentava o mesmo jornalista, a República Islâmica do Irão tem metade do número de mesquitas da Turquia, onde se continuam a construir esses edifícios.

“Creio que o desejo de transformar novamente a Hagia Sophia numa mesquita é a prossecução de estreitos objectivos islâmicos, que visam a utilização dos sentimentos religiosos das pessoas”, afirmava Yanardag.

Esta estratégia – quer a decisão sobre Hagia Sophia, quer a construção de mesquitas – pode ser vista como parte da política de Erdogan de alargar a sua base social de apoio entre os crentes muçulmanos. Numa população de 78 milhões de habitantes, 98% são muçulmanos, recorde-se. Mas, o que é mais grave, é que a situação da liberdade religiosa no na Turquia tem piorado – seguindo, aliás, a tendência geral do país no que diz respeito às liberdades políticas e direitos humanos – conforme dava conta o último relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, da Ajuda à Igreja que Sofre, publicado em 2018.

Uma leitura semelhante à do jornalista, dá conta ainda o Novena News, é feita pelo teólogo muçulmano turco Cemil Kilic: a reacção de muitos crentes pode ter um papel importante na decisão de Erdogan, que assim tenta conquistar apoios que politicamente nem sempre lhe são favoráveis. Para Cemil Kilic, o importante é que sejam tomadas medidas que não ofendam nem os sentimentos dos cristãos nem os dos muçulmanos.

O teólogo deixa também um aviso: “A conversão de Hagia Sophia numa mesquita pode levar a um aumento dos sentimentos anti-islâmicos em todo o mundo. Em particular, as mesquitas em áreas onde os muçulmanos estão em menor número podem estar em risco.” O mundo cristão, acrescenta, vê Hagia Sophia como “um templo com significado simbólico”, motivo que deveria levar a “deixar para trás as guerras religiosas e concentrar-nos na manutenção da paz mundial”.

 

O início do “renascimento”, de Bukhara ao Al-Andalus

Hagia Sophia. Istambul

A entrada em Hagia Sophia passará a ser livre, prometeiu Erdogan, mas a oração pública está interdita aos cristãos. Foto © António José Paulino

 

Erdogan garantiu, no discurso em que confirmou a decisão, que o bilhete de entrada na Hagia Sophia acabará e que Hagia Sofia permanecerá aberta aos turistas estrangeiros e locais. O lugar de culto foi colocado sob a administração da Diyanet, a autoridade turca para os assuntos religiosos, que gere as mesquitas na Turquia, depois de o Conselho de Estado ter anulado o seu estatuto de museu.

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