Ernesto Cardenal (1925-2020): “Estamos no firmamento”

| 3 Mar 20

Ernesto Cardenal em 15/11/2014 durante uma sessão na paróquia protestante de Polch (Renania-Palatinado, Alemanha). Foto Rs-Foto/Wikimedia Commons

 

Poeta, padre, Ernesto Cardenal morreu no domingo em Manágua. Completara 95 anos no passado dia 20 de Janeiro. “Estamos no firmamento”, diz ele num dos versos de um poema escrito há menos de um ano. É na poesia que podemos encontrar o “profundo amor cristão” de Ernesto Cardenal, nota o diário espanhol El País, referindo particularmente a obra Os Salmos, onde se encontram “versos que demonstram o seu compromisso com a fé, mas também a sua denúncia das injustiças, da opressão e do sofrimento dos mais desprotegidos”. Um desses salmos, o 136, uma manifestação de fidelidade a Jerusalém e uma imprecação contra Babel, foi traduzido por José Bento para integrar a antologia Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o futuro, dirigida por Manuel Hermínio Monteiro e publicada no âmbito do Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura.

Ernesto Cardenal foi também político. Ajudou a derrubar a ditadura de Anastasio Somoza em 1979 e foi, desde então e durante quase uma década, ministro da Cultura do governo da Frente Sandinista de Libertação Nacional. O envolvimento político valeu-lhe uma severa admoestação pública de João Paulo II, quando o Papa visitou a Nicarágua, em 1983. Pouco tempo depois, Ernesto Cardenal, defensor da Teologia da Libertação, seria suspenso pelo Vaticano de exercer o sacerdócio.

Ernesto Cardenal, então ministro da Cultura do governo sandinista, a ser admoestado no aeroporto, à despedida de Manágua, por ocupar um cargo político; Cardenal acabaria suspenso do sacerdócio, mas o Papa Francisco reabilitou-o em 2019. Foto: Direitos reservados.

 

O Papa Francisco anulou a decisão há um ano. “O Papa Francisco concedeu ‘com benevolência’ a absolvição de ‘todas as censuras canónicas’ impostas ao padre Ernesto Cardenal”, noticiou então o Vatican News, citando o núncio apostólico na Nicarágua, Waldemar St. Sommertag.

Nos últimos anos de vida, Ernesto Cardenal foi uma das vozes mais veementes contra a deriva ditatorial do presidente do país, Daniel Ortega, seu antigo companheiro. “Eles [Daniel Ortega e a sua mulher Rosario Murillo, vice-presidente do país] são donos de todos os poderes da Nicarágua. Têm um poder absoluto, infinito, que não tem limites, e esse poder está agora contra mim”, acusou Ernesto Cardenal numa entrevista concedida ao diário El País, em 2017.

Após ter começado a estudar literatura em Manágua e, depois, no México, Ernesto Cardenal prosseguiria o empreendimento na Universidade de Columbia, em Manhattan. Em Nova Iorque, conhece a poesia de Ezra Pound, William Carlos Williams e Marianne Moore. Convertido ao catolicismo em 1956, decidiu entrar como noviço na abadia trapista de Nossa Senhora de Getsemani, Kentucky, nos Estados Unidos da América, onde foi discípulo do monge e poeta Thomas Merton. Em 1965, foi ordenado padre.

Ernesto Cardenal recebeu diversas distinções, como, por exemplo, o Prémio da Paz da Associação dos Livreiros Alemães em 1980, o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana em 2012, a Légion d’honneur francesa em 2013, o Prémio Internacional Mario Benedetti em 2018.

“Estamos no firmamento”, escreve Ernesto Cardenal, dizendo também: “A morte é real mas não é o final que é Deus / Com a certeza de que não acaba tudo / a convicção de que algo será eterno”.

(O poema completo foi reproduzido, em castelhano, pelo Babelia; a crónica Sinais, de Fernando Alves, na TSF, falou também sobre Ernesto Cardenal, cuja Poesía Completa foi editada em Novembro de 2019, em Espanha, pelas edições Trotta)

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]