Ernesto Cardenal, o regresso de um padre que “esteve sempre dentro”

| 21 Fev 19 | Destaque 2, Igreja Católica, Últimas

A imagem ficou célebre: o Papa João Paulo II, no aeroporto de Manágua, repreendendo o padre Ernesto Cardenal pelo seu envolvimento com o governo sandinista revolucionário; a suspensão do ministério viria depois, até agora.

 

Ernesto Cardenal é uma das figuras mais conhecidas da Igreja da América Latina. Padre e poeta, foi ministro da Cultura do governo sandinista da Nicarágua. Por ter apoiado a revolução da Frente Sandinista de Libertação Nacional, foi repreendido em público pelo Papa João Paulo II, quando dele se despedia no aeroporto, no final da sua visita à Nicarágua, em 1984. Impediu-o, depois, de exercer o sacerdócio.

Agora, o Papa Francisco absolveu Ernesto Cardenal de todas as censuras canónicas. A reintegração ocorre quando Ernesto Cardenal sem tem manifestado vigorosamente contra a natureza ditatorial do regime dirigido pelo seu antigo companheiro Daniel Ortega.

O Vatican News noticiou que Francisco concedeu a plena reintegração de Ernesto Cardenal, suspenso a divinis há mais de 30 anos “por causa da sua militância política”.

O serviço de informação do Vaticano refere que o Papa correspondeu favoravelmente a um pedido do sacerdote, hoje com 94 anos, permitindo-lhe “viver este momento da sua vida em paz com o Senhor e com a Igreja”. “O Papa Francisco concedeu ‘com benevolência’ a absolvição de ‘todas as censuras canónicas’ impostas ao padre Ernesto Cardenal”, diz o Vatican News, citando o núncio apostólico na Nicarágua, Waldemar St. Sommertag, que concelebrou a missa do passado domingo com Ernesto Cardenal no hospital de Manágua, onde o sacerdote se encontra internado desde o início de Fevereiro, em precárias condições de saúde.

Foi a primeira missa que Ernesto Cardenal celebrou após mais de 30 anos. O arcebispo Waldemar St. Sommertag visitou em diversas ocasiões o padre e teólogo, que o Vatican Newsrecorda ter sido o promotor nos anos 80 do século passado de uma grande campanha de alfabetização que lhe valeu um reconhecimento da UNESCO. À conta disso, permitiu que pelo menos meio milhão de nicaraguenses tenha aprendido a ler e a escrever.

Na notícia que escreveu sobre a reconciliação de Roma com Ernesto Cardenal, o jornalista do diário El País, Pablo Ordaz, refere que, a 12 de Fevereiro de 2016, durante o voo da Alitalia que levou o Papa de Roma ao México, ofereceu um livro do padre e poeta a Francisco, com uma dedicatória.

Juan Arias, jornalista e colunista do jornal espanhol, escreveu que não se trata do regresso do filho pródigo da parábola à casa do pai, porque Ernesto Cardenal “viveu sempre a essência do sacerdócio primitivo. Não foi ele quem saiu. Fizeram-no sair. Agora pediu, por humildade, para regressar, mas ele esteve sempre dentro, como cristão e como sacerdote”. Juan Arias assinala ainda que a absolvição demonstra que ao Papa Francisco “interessa mais o Evangelho que o Direito Canónico”.

O momento da reconciliação do Vaticano com Ernesto Cardenal, três décadas depois. (Foto reproduzida do Twitter)

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