Eros e Ágape: Confundidos sobre o amor

| 5 Jul 2021

Mãos pintadas de vermelho. Paixão. Amor

“Arredar o corpo ou a alma do amor é desumanizar, porque, na nossa travessia terrena, só somos sendo corpo e alma conjuntamente.” Foto © Tim Marshall / Unsplash

 

Eros, o amor passional, e ágape, o amor sacrificial, continuam em batalha campal nas nossas vidas, como se não fosse possível juntá-los à mesma mesa, que é como quem diz, assumi-los por inteiro e integrá-los a ambos no leque dos bons amigos.

A confusão radica nas dualidades que somos propensos a fazer, dividindo o que está destinado a ser junto e atribuindo dísticos de “bom” e “mau” a realidades que se limitam a ser.

Passa-se isso com a divisão maniqueia de corpo e alma (que está na base da confusão sobre o amor), atribuindo ao corpo (e aos seus impulsos e sensações) todos os males do mundo e à alma (e aos seus suspiros etéreos) toda a pureza do mundo.

Arredar o corpo ou a alma do amor (também do amor de amizade) é desumanizar, porque, na nossa travessia terrena, só somos sendo corpo e alma conjuntamente.

O Deus cristão fez o favor de nos deixar exemplos marcantes de como se vive plenamente assumindo-se por inteiro: Jesus era chamado de “glutão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores” (do Evangelho de Lucas 7, 34) e não só gostava de uns bons convívios (com gente duvidosa), como até era Ele que os convocava (Lc 19, 5).

O seu primeiro milagre foi mesmo numa festa de casamento, onde (a pedido da sua Mãe) salvou a família dos noivos do vexame do fim do vinho, que era então, como é hoje, o ingrediente incontornável, a que seguramente não se furtou.

Para além disso, Jesus Cristo sabia o que era receber bem e criticou o fariseu que o recebeu mal (Lc 7, 45), não constando que tenha voltado àquela casa.

De facto, no que toca a austeridades (também as de tipo religioso), Jesus não se apresentou como adepto dos rigores mortificantes instituídos à altura, mais os criticando por falta de conformidade com a vida de quem os praticava (Mateus 23, 23).

Sofreu de enorme angústia na proximidade da paixão (=padecer), não foi a correr para a Cruz, embora a tenha abraçado como se ela fosse eu, ou qualquer um de nós. Não amava a dor por ela mesma, aceitou-a e, através dessa aceitação, amou-nos a nós. Não a ela, mas a nós.

No amor, o que padecemos tem de ser relacional, não pode ficar em nós. São perigosos os “sacrifícios” que fazemos pelos outros que não se traduzam no serviço concreto, na proximidade, na preferência. Não comer um chocolate e oferecer isso por alguém em abstrato não tem o mérito de ir dá-lo pessoalmente, aproximar-se, tocar.

“Somos uns teóricos do amor, mas o amor é prático, tangível e concreto. Se não é, não existe. O que existe é uma ideia sem conteúdo ou, o que é pior, a certeza de uma virtude que incha em vez de edificar” (I Carta aos Coríntios, 8, 1).

Quando o Papa Francisco nos pede para irmos às periferias e nos ilustra a Igreja como “tenda de campanha”, está a convocar-nos exatamente a esse movimento de sair do sofá, de complicarmos a existência, de nos apresentarmos ao serviço, de nos pormos em relação.

A relação, sobretudo aquela que estabelecemos fora das zonas de conforto, perspetiva-nos a vida e, amando no concreto, origina sempre em nós um movimento para um estado diferente do anterior.

Porque a virtude, o “justo meio” da vida que levamos, só se afere na interação com os outros. O “justo meio” de ontem é diferente do de hoje, como será diferente do de amanhã.

Furtar-nos à vida que pulula à nossa volta e às suas relações é abdicarmos de crescermos como pessoas, pelo que damos e recebemos, alterando a nossa perspetiva e encontrando novos equilíbrios. Ficarmos na “bolha” achando que já chegamos ao destino é negarmos o estado transitório em que nos encontramos, é negarmos Deus na História, é fazermo-nos deuses.

Que não se possa dizer de nós o que disse o anjo à Igreja de Laodiceia: “Não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Assim, porque és morno, nem frio nem quente, estou para te vomitar de minha boca.” (Apocalipse 3, 14-22)

ágape mal vivido (que pode levar à assepsia) bem precisa das mãos do eros para se pôr a caminho. E também dos seus impulsos apaixonados que não vê impossíveis, como Deus.

 

Dina Matos Ferreira é consultora e docente universitária.

 

 

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