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Acácio Catarino

Erradicar a pobreza… com Manuela Silva

| 12/10/2019

Erradicar a pobreza… com Manuela Silva

by | 12 Out 19 | Entre Margens, Newsletter diária - título, Últimas

«Nós queremos erradicar a pobreza», afirmou a professora Manuela Silva, muito firmemente – lembrava o Público de 9 de Outubro (pg. 24). Como se poderá concretizar esta «erradicação», à luz do pensamento de Manuela Silva? Talvez seja razoável considerar segmentos de ação: a cooperação direta e permanente com as pessoas empobrecidas; a otimização possível, em cada momento; e a ação estrutural na transformação de práticas, políticas, culturas e sistemas.

A cooperação direta e permanente assume a assistência social, mas não se reduz a ela: na verdade, considera cada pessoa não só como destinatária da ação mas também como agente – e agente principal – mesmo quando se encontra muito debilitada; e procura as respostas imediatas possíveis para os seus problemas, sem perder de vista o caminho para a autonomia e suficiência possíveis, num projeto de vida gratificante. Esta cooperação – tal como a assistência – deve ser direta e permanente: direta, porque se baseia no contacto interpessoal; permanente, porque deve estar sempre disponível. Isto parece impossível, mas torna-se viável, e até normal, se tivermos em conta as relações de família, vizinhança, amizade, companheirismo, voluntariado social de proximidade…

A otimização, em cada momento, na erradicação da pobreza consegue-se pelo esforço interpessoal, associado e público. O esforço interpessoal depara frequentemente com enormes limitações, que podem levar ao desânimo, ao inconformismo e à desistência mas, por via de regra, salda-se por uma persistência impressionante verificada ao longo da história humana e por toda a parte. O esforço associado reveste a forma de instituições particulares de solidariedade social, cooperativas, iniciativas de desenvolvimento local, associativismo em geral, economia socialmente responsável…; ele complementa o esforço interpessoal, institucionaliza a permanência, proporciona qualificação profissional…; mas está limitado pela insuficiência de meios financeiros e outros, pelo grau de cobertura do país e pela falta de poder político para a consecução cabal dos seus objetivos. O esforço público – do Estado central, regional e autárquico – proporciona, em princípio, o que falta aos outros dois, corresponsabilizando toda a sociedade, os órgãos de soberania e a administração pública pelo bem comum. As inúmeras falhas que ainda se observam, com realce para a invencibilidade da pobreza até agora, tornam indispensável o patamar da ação estrutural.

Este segmento – centrado na transformação de práticas, políticas, culturas e sistemas – implica antes de mais o reconhecimento dos outros dois, sob pena de aumentar ainda mais o ostracismo a que a pobreza e o empobrecimento se encontram votados: note-se, a este propósito, que o primeiro segmento de ação é quase desconhecido, nunca foi reconhecido e é tratado, sobranceiramente, como «informal»; note-se também que não se difundem, regularmente, estatísticas «vivas» dos casos sociais atendidos. Por outro lado, é imperioso que as diferentes práticas, culturas, sistemas e respetivas correlações de forças sejam objeto de observação, análise e transformação regulares, sob pena de ocultarem e alimentarem a permanência da pobreza. A transformação pode implicar a própria substituição, mesmo que seja a longo prazo.

Como dizia Manuela Silva, não basta reduzir a pobreza; é mesmo indispensável erradicá-la, atuando nas suas raízes – causas – otimizando, em cada momento, a sua atenuação e não descurando as transformações estruturais.

(Nota da Redação: Manuela Silva será recordada na celebração de duas eucaristias, ambas em Lisboa: neste domingo, 13 de Outubro, às 12h, no Convento de São Domingos; e na segunda-feira, 14, às 19h15, na Capela do Rato, neste caso sob a presidência do patriarca de Lisboa)

 

Acácio F. Catarino é consultor social

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