Erros e pecados

| 14 Out 21

rembrandt dez mandamentos

“As obrigações dos Mandamentos são melhores guias quando os formulamos na forma afirmativa: dar vida, dar ao outro o que lhe pertence, falar a verdade, honrar, ser leal.” Pintura: Rembrandt,  Dez mandamentos. Gemäldegalerie, Berlim.

 

A tradução da Bíblia do grego levada a cabo por Frederico Lourenço contém um interessante reparo relativamente ao termo “pecado”. De acordo com o tradutor, o termo grego significa “erro” e, do ponto de vista semântico, relaciona-se com um verbo cujo sentido literal é “falhar o alvo”.[1]

Do ponto de vista teológico, há uma clara diferença entre erro e pecado. Este último pressupõe um ato livre e esclarecido. Não havendo liberdade e consciência, não existe pecado, ainda que certa conduta dê origem a um grave sofrimento. Pecar pressupõe, assim, uma conduta dolosa através da qual a integridade do próprio, de outra pessoa ou da criação é afetada.

Para várias gerações, a catequese baseava-se na memorização dos grandes pilares do cristianismo, dos dogmas aos mandamentos. Se é verdade que essas são as premissas base que nos guiam no caminho do seguimento de Cristo, sem que se fomente uma abordagem pessoal e dialética das mesmas, esses preciosos ensinamentos correm o risco de permanecer letra morta.

Comecemos pelos Dez Mandamentos. Estes têm a virtude de balizar as interdições morais. Se pensarmos na proibição de matar, lembramo-nos imediatamente da proibição do homicídio. E ninguém contestará que não podemos matar. A pergunta que nos podemos colocar nesta sede é: de que forma é que nós tiramos vida aos outros? Há muitas formas de matar para além de pôr termo à vida biológica. Como há muitas formas de trair, mentir ou ferir a honra de alguém. Partindo desta lógica, concluímos que matamos sempre que impedimos o outro ou nós mesmos de viver em plenitude. Ao examinar a nossa consciência, em vez de nos questionarmos se matámos, no sentido do primeiro termo, poderíamos antes perguntar se fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para que nós próprios e os outros tenham vida em abundância.

As obrigações dos Mandamentos são melhores guias quando os formulamos na forma afirmativa: dar vida, dar ao outro o que lhe pertence, falar a verdade, honrar, ser leal. Em suma criar condições para que haja vida em abundância. Se nos limitarmos a pensar no estrito cumprimento das obrigações elementares estaremos, de facto, a falhar o alvo. Entendidos desta forma, os mandamentos de Deus exigem uma atitude de constante vigilância e cuidado com os nossos atos diários. Isso implica um processo de conhecimento interior, esse é o nosso primeiro dever: conhecer-nos.

Cada um, com as suas diversas circunstâncias, é tentado de formas diferentes. Todos temos as nossas feridas e pontos fracos. Conhecer-nos é o melhor remédio contra a primeira de todas as nossas tentações: o orgulho. É a recusa em reconhecer que somos falíveis e carentes que nos cega e faz cometer os maiores erros e pecados. O medo que sentimos ao constatar as nossas dificuldades, a nossa dependência dos outros leva-nos às mais diversas precipitações. Pode ser não dar determinado bem a quem nos pede, com o medo de que nos possa fazer falta no futuro; a maledicência para sermos ouvidos e admirados; a vitimização para nos desresponsabilizarmos da condução da nossa vida.

Há, contudo, um denominador comum nas grandes tentações que nos assaltam: apresentarem-se como um bem.

O nosso grande “calcanhar de Aquiles” não são as tentações de fazer algo que seja, sem sombra de dúvida errado. Tomemos um exemplo: no desafiante mundo profissional, é quase certo que seremos tanto mais admirados quantas mais horas trabalharmos. Quando, muitas vezes, a dedicação quase exclusiva ao trabalho é um escudo contra a solidão e o isolamento que nos impomos, uma tentativa de ser autossuficiente ou não pensar no que nos atormenta. Outro exemplo: um filho, pequeno ou adulto, que faça aos pais todas as vontades e nunca os contrarie é admirado pela dedicação aos pais. Muitas vezes, essa dedicação é a resposta que tentamos dar ao medo do abandono e da reprovação, à ameaça de perder esse amparo, à recusa em tornar-nos próximos mas independentes e responsáveis pela própria vida.

Jesus e os profetas deram-nos os mandamentos como quem desenha uma rosa-dos-ventos para a oferecer a um peregrino, não um conjunto de prescrições a cumprir sem critério e reflexão. Grande é a tentação de nos demitirmos de ajuizar as situações e examinar a nossa consciência com normas gerais e abstratas que reconfortam a nossa inquietação, sempre presente, acerca do que é o bem ou o mal. O caminho de procura da verdade do nosso coração, por mais dura que seja, é um ponto de partida.

 

Sofia Távora é jurista e voluntária no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital Dona Estefânia.

 

[1] Bíblia, volume I, Novo Testamento, 5.ª reimpressão, p 46, tradução de Frederico Lourenço

 

Investigação sobre Goa e catolicismo oriental distingue Ângela Xavier na Índia

Infosys premeia historiadora

Investigação sobre Goa e catolicismo oriental distingue Ângela Xavier na Índia novidade

O Prémio Infosys 2021 em Humanidades, da prestigiada fundação indiana Infosys Science Foundation, foi atribuído à historiadora portuguesa Ângela Barreto Xavier “pela sua profunda pesquisa e sofisticada análise da conversão e violência no Império Português na Índia, especialmente em Goa”. O júri destaca a contribuição significativa da galardoada para a “história social e cultural do colonialismo português”, concretizando uma voz “importante e original” no que à história colonial e imperial diz respeito.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Novo arcebispo de Braga quer “portas abertas” para todos novidade

O novo arcebispo de Braga, D. José Cordeiro, saudou a sua nova diocese manifestando a vontade de construir uma “Igreja em saída” missionária e “uma Igreja sinodal samaritana de portas abertas para todos”. O até agora bispo de Bragança-Miranda propõe as atitudes de escuta, conversão, confiança, comunhão, coragem criativa e oração como “caminhos sempre a percorrer no processo sinodal para uma Igreja de hoje”.

Dois terços dos jovens adultos católicos não vão à missa

EUA

Dois terços dos jovens adultos católicos não vão à missa novidade

Mais de um terço (36%) dos jovens adultos católicos americanos nunca frequentava a missa e quase um terço (31%) raramente o fazia, revela um inquérito realizado pelo centro de estudos CARA e divulgado esta quinta-feira, 2 de dezembro. Os dados recolhidos dizem respeito às práticas deste grupo anteriores à pandemia.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This