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“És a poesia… assim Francisco sonha a Igreja”: a arte e o desporto a bem da humanidade

| 04/11/2019

“És a poesia… assim Francisco sonha a Igreja”: a arte e o desporto a bem da humanidade

by | 4 Nov 19 | Entre Margens, Últimas

José Tolentino Mendonça é poeta. E esta é, talvez, a sua condição primeira (sublinhado meu). Alguém que utiliza a palavra não para doutrinar, ordenar, legislar, fixar, castrar. Ao contrário, a sua poesia é lugar de procura, partilha e chamamento a um sentido e uma vida mais humanos, mais abertos à beleza, à contemplação do outro, do Outro, que suscita o que de melhor cada um, cada uma transporta dentro de si. A sua palavra não é norma. É desafio, busca fraterna de Deus e convocação de comunhão. Assim Francisco sonha a Igreja. (Editorial 7MARGENS, 5 Out. 2019)

Cardeal José Tolentino Mendonça. Foto © António Marujo

 

Li, com emoção, diferentes textos e ouvi, comovida, as abordagens feitas relativamente à nomeação do novo cardeal português, José Tolentino Mendonça, em várias edições do 7MARGENS, no mês de Outubro.

Tinha começado a escrever este texto no início de mês e eis que em seus meados, quis a Providência divina oferecer-me a surpresa de me cruzar com José Tolentino Mendonça, na FNAC, no aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa. Quase que sem jeito e com algum receio perguntei-lhe: – Desculpe, é o cardeal? Respondeu-me que sim, afinal tem um ar tímido…, espantei-me! Ficámos os dois a olhar um para o outro e ele com um ar questionador, mas subtil… pareceu-me que me perguntava de onde é que o conhecia, numa humildade de quem se acha um “ilustre desconhecido”…

Disse-lhe logo: “Chamo-me Sara Jona, sou de Moçambique, de Maputo, e trabalho com literaturas… Em tempos escrevi-lhe a questioná-lo sobre a existência de algum texto da literatura portuguesa que contenha representações sobre o baptismo da Tradição Católica Apostólica… Tenho muito gosto em vê-lo, em conhecê-lo, na verdade! Posso cumprimentar?”

Estendeu-me logo a mão, eu ainda sem saber se o cumprimentava, de facto, ou se lhe pedia a bênção… Nunca tive que lidar com um cardeal. Não sabia, não sei…

Liguei logo à Teresa Vasconcelos, também cronista neste jornal e, além disso, uma amiga e companheira: ambas pertencemos ao Movimento Internacional de Mulheres Cristãs, Graal; ela colabora com o movimento em Portugal e eu em Moçambique. Disse-lhe eufórica: viajarei abençoada, acabei de cumprimentar o cardeal d. José Tolentino Mendonça. Queria dizer-lhe muitas coisas, mas fiquei sem saber o que fazer, o que dizer.” “Poderias tê-lo chamado poeta, que é como gosta, e isso daria ‘pano para mangas’”, disse-me ela. “O resto di-lo-ás em Janeiro…”

A epígrafe e o introito estão marcados por um nome que muita tinta fez correr no 7MARGENS em Outubro. A partir deste canto do Índico, de onde escrevo, não poderia ser diferente. Queria deixar um pequeno testemunho sobre “os tempos abençoados” que a língua portuguesa atravessa por estes dias: em Portugal, com a nomeação do cardeal para funções no Vaticano e, em Moçambique, a visita papal. É sobre esta última e sobre as menções à arte que a marcaram que quero falar neste texto.

Vivemos, há bem pouco tempo, com muita alegria, a sensibilidade para a arte que caracteriza o Papa Francisco, e os moçambicanos, a par da poesia do cardeal Tolentino. Destaco momentos recheados de arte ao longo da sua visita à Moçambique.

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Começo pelo encontro com os jovens, no clube de desportos do Maxaquene, na baixa da cidade de Maputo. Nele estavam presentes jovens de diferentes confissões religiosas. Estavam dispostos de modo a representar a bandeira de Moçambique. Graças a Deus não representaram os símbolos, apenas as barras com as suas cores. Numa altura destas, lembrar a representação da arma, não vinha ao caso. E trata-se de um símbolo que julgo devesse ser ressignificado, mas este é um assunto que abordarei mais adiante.

Tal como é característico de todas as liturgias católicas em Moçambique, não faltou o canto, acompanhado de instrumentos tradicionais moçambicanos, e a dança. Além disso, ao tomar a palavra, durante esse encontro, o Papa Francisco estimulou os jovens a nunca desistirem dos seus sonhos, lembrando-lhes duas grandes figuras do desporto moçambicano: Lurdes Mutola, do atletismo, e Eusébio, do futebol.

Um dos momentos do encontro do Papa com jovens de diferentes religiões, no Maputo (Moçambique). Foto captada da transmissão da visita em directo.

 

Além dessa inspiração, recordou-lhes uma característica dos africanos, através de um provérbio que aborda a importância da solidariedade: “Se quiser chegar depressa, caminha sozinho; se quiser chegar longe, vai acompanhado.” Há neste provérbio e nas palavras do Papa Francisco o destaque, para além da solidariedade, da comunhão de imensos assuntos das suas vidas, característica dos povos africanos.

Num outro momento da visita do Santo Padre a Moçambique, um artista plástico, de nome Gonçalo Mabunda, ofereceu-lhe uma fabulosa obra de arte: uma cadeira feita de restos de armamento, um trabalho típico e com a mesma índole daquele que caracterizou uma cadeira também oferecida ao Papa João Paulo II. Este tipo de arte dá um novo significado ao que sobrou da guerra que assolou o nosso país. Embora ainda choremos os nossos mortos, os artistas têm estado a incentivar-nos a contemplar e a utilizar o que de belo a vida ainda nos pode dar, a arte. Bem hajam!

No último dia da visita do Papa, teve lugar a missa papal, antecedida de uma visita ao Centro Santo Egídio, um hospital no qual se trata gratuitamente o HIV-sida. Ao sair de lá, foi-lhe oferecida, não pude aferir por quem, um báculo pastoral feito de restos de madeira de uma casa da Beira, que sofreu consequências do ciclone Idai que fustigou a província de Sofala no mês de Março. Não tendo podido, por inúmeras razões “Maomé se deslocar à montanha”, simbolicamente e através do báculo pastoral, “a montanha se deslocou a Maomé”; ou seja, a arte representou a comunhão que os sofalenses desejavam partilhar com o Papa Francisco. Fizeram-se presentes. Ficou a esperança de que, simbolicamente, ao aterrar e abençoar Maputo, o Papa o tenha feito em todo o território moçambicano, especialmente, neste caso, em Sofala.

A caminho para a missa papal, um indivíduo, que desconheço e que até hoje ainda não vi o seu nome divulgado, correu para a estrada pela qual passava o Papa, tendo este último mandado abrandar a velocidade do carro que o transportava, abriu o vidro e recebeu, do transeunte, uma estátua de Nossa Senhora! Foi um momento emocionante, não só para o indivíduo que fez a oferta, como também para os que assistiram ao acto: ver uma figura tão ilustre, num acto de enorme simplicidade. Penso que, nesse instante, ambos partilharam o que melhor têm de si.

O carro seguiu para o Estádio do Zimpeto, local onde se realizou a missa. Foram muitos os cânticos e as danças que a marcaram, tendo sido, para mim, enquanto linguista, as “orações dos fiéis”, o momento mais alto, por estas terem sido ditas em diferentes línguas moçambicanas. Marcaram também a missa, as vestes papais ornamentadas com tecidos africanos. Assim estava, também, o altar, decorado tal como comumente se tem visto na Igreja Católica, mas com adornos de tecido africano; o que para mim revela um verdadeiro convívio intercultural e inter-religioso, uma verdadeira bênção divina aos seus filhos…

É com a arte, com a beleza e com o amor de Deus entre a família humana que gostava de fazer a minha presença, neste jornal, neste texto. Grata pelas grandes bênçãos que foram a de ver um Papa, no meu país, pela segunda vez na minha vida!

Pararei por aqui, com um fecho abrupto, num texto no qual, de propósito marquei com muitas reticências que, para além de serem características da leitura ou da interpretação da arte, porque ela não tem apenas um único sentido, caracterizam o meu estado de espírito…

Que a arte, a poesia, o desporto e o amor fraternos entre os seres humanos dure hoje e sempre… sejamos poesia!

 

Sara Jona Laisse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica, em Maputo (Moçambique). Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

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