Escatologia sapiencial não costuma falhar

| 13 Nov 2023

[xxxii domingo do tempo comum // último dia da semana dos seminários ― a ― 2023]

Ilda David

[permanente abalo ― / a trombeta divina / desperta a espera © haicai e fotografia: Joaquim Félix]

1. Pudesse hoje proporcionar-vos uma visita especial,
para admirar uma das páginas da Escritura acabadas de ouvir,
e iríamos à igreja de S. Paulo do Seminário Conciliar, em Braga.
É verdade, para contemplar, numa das galerias laterais,
a ilustração que Ilda David’ fez da passagem lida (1Tes 4,13-18)
da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo aos Tessalonicenses.
Na lâmina inferior do lado direito,
comparece um Arcanjo com a «trombeta divina» (1Tes 4,16).
E, por baixo dele, surgem os vivos, no voo com que são arrebatados,
ao lado de duas ‘apresentações’ da consolação destas palavras paulinas:
a saudação, de olhos nos olhos, entre três pessoas, e um beijo cordial.

2. Talvez a linguagem usada por S. Paulo,
― alinhada com a imagética da apocalíptica de então ―,
não seja em nossos dias tão compreensível assim e consoladora.
Sucede, porém, que Ilda David’ pintou, na grande tela superior,
uma nuvem, repleta de movimentos circulantes, em tons alaranjados.
Penso que Ilda tentou pintar aquele «alarido» (1Tes 4,16) do Senhor,
descendo dos céus, segundo a tradução de João Ferreira de Almeida.
É uma nuvem que não amedronta; antes, suscita a beleza que atrai.
Cheia de consolação, está grávida de esperança pronta revelar-se.

Ilda David

Pintura de Ilda David, Programa das Cartas de S. Paulo, igreja do Seminário

 

3. O cardeal José Tolentino Mendonça, na altura Diretor do SNPC,
escreveu no posfácio à obra Cartas de S. Paulo,
algo que nos abre para a pertinência da linguagem pictórica de Ilda David’,
que temos urgência em desenvolver, sobretudo no campo da escatologia:
«Estas superfícies entreabertas e instáveis,
como se sofressem um permanente abalo,
radicalizam a dificuldade da representação.
Se já é tarefa árdua, num território seguro, fazer emergir a figura,
quanto mais no estilhaço, no íngreme, no desfeito,
como aqui continuamente se tenta!
É como quem levasse até ao extremo a impossibilidade de nomear,
para aí então encontrar o possível da nomeação.
Como quem calasse para só então proferir.
A Palavra viva?» (Cartas de S. Paulo. Pintura de Ilda David’, 60-61).

4. Sim, a Palavra vivente que, para proferir a realidade concreta e última,
se fez parabólica, repleta de silêncios e de possibilidades ‘com-dizentes’.
Como temos fome de uma linguagem outra,
habilitada a atrair para o reino dos Céus!
Com beleza, sim, e não, como até há poucos anos, sobretudo na pregação,
com exageros infernais, onde abundavam fogos e a luxúria dos mafarricos.
Ainda na semana passada, o cardeal D. António Marto,
na apresentação de um livro em Braga, do qual vos falarei de seguida,
nos dizia emocionado, a respeito da escatologia ― tema que lhe é tão caro ―,
como essa linguagem, exacerbada e escandalosamente descritiva,
feriu de morte a imaginação e a espantosa beleza
que a esperança nos reserva nesta e na vida futura.

5. Se ligarmos a passagem lida do Livro da Sabedoria
à parábola de Jesus no Evangelho segundo S. Mateus,
temos o título do livro evocado: Para uma escatologia sapiencial.
O seu autor é o pe. José Miguel Cardoso, da diocese de Braga.
Trata-se da sua tese de doutoramento, recentemente defendida em Roma.
Haurindo da herança escatológica de Karl Rahner e Johann Baptist Metz,
ele avança «uma nova proposta escatológica para a atualidade» (p. 473).
Para ele, atendendo sobretudo ao “sentido existencial”,
«a vida concreta do humano (apresenta-se) como lugar
onde se desenvolve o evento escatológico» (p. 468).
Oxalá fôssemos místicos «com olhos sapienciais»,
assumindo os lugares da vida, e a própria existência,
não como ‘distâncias’ a lamentar de uma utopia inalcançável,
mas como sítios amáveis (topofilia), onde a beleza se revela e nos faz belos.
Enquanto ‘humanos esperançosos’, seria consolador que aproximássemos
«o “crer na parusia” do “viver na espera da parusia”,
evitando a redução da parusia a uma “espera intelectual”
em favor de uma “espera existencial” (p. 473).

 

6. Como será isso de esperar de forma existencial, onde habitamos?
O pe. José Miguel explora a espera escatológica
a partir da parábola dita do ‘filho pródigo’ (cf. Lc 15,11-32).
Todavia, na parte final, faz também ponte para a parábola hoje escutada.
Voltando à pergunta de como potenciar a vida a partir da escatologia,
escreve ele: «a resposta está aqui: mediante este viver sapiencial
à luz da esperança (escatologia sapiencial).
E porquê? Porque o mandato do Senhor Jesus permanece:
este viver escatológico sapiencial consiste em demonstrar
como devemos estar vigilantes
durante “a espera da vinda do Senhor” (Mt 24,42)» (p.468).

7. Concentremo-nos, por conseguinte, nesta parábola.
Desde logo surpreenderá, ou talvez não,
que Jesus desenvolva a espera do reino dos Céus
no contexto de um banquete nupcial; festivo, portanto.
Bem, para compreender o alcance desta parábola,
é importante conhecer como se processava o rito matrimonial judaico.
Naquele tempo, antes do banquete das núpcias,
os noivos negociavam com os pais das suas esposas
dons a entregar em ‘sinal-de-reparação’ pela saída das filhas,
a fim de serem integradas nas novas famílias (dos maridos).
Durante tais negociações, que poderiam demorar (bom sinal),
as jovens (virgens) que tinham por missão acompanhar a noiva,
desde a casa de seu pai até à casa paterna do noivo,
esperavam para fazer esse cortejo e entrar no banquete nupcial,
cujos festejos se prolongavam por uma semana.
Jesus fornece muitos detalhes em relação à sua espera,
como a prepararam e a maneira com que reagiram ao brado noturno.
Enfim, conhecendo-os, podemos concluir que cinco delas
não souberam esperar segundo a ‘escatologia existencial’.
As outras dez ― «prudentes», segundo Jesus ― cuidaram de levar azeite
para o tempo ignorado da espera; e, sem serem ingenuamente solidárias,
recusaram partilhá-lo com as «insensatas», sugerindo que o comprassem.
Parafraseando uma canção interpretada por Gilberto Gil e Caetano Veloso,
estas não andavam com fé, nem esperança; e, por isso, falharam:

 

8. S. Mateus reelabora o discurso escatológico recebido de S. Marcos,
acrescenta-lhe a parábola ouvida e mais duas outras.
E ‘ajusta-as’, em função da sua comunidade, para a qual escrevia.
Nela haveria cristãos que, passada a ‘febre da segunda vinda de Cristo’,
se encontrariam dormentes na fé, no modo de viver a espera do Esposo.

9. Hoje, relendo a parábola ― aliás, toda a Palavra escutada ―,
para esta comunidade, que está a viver a Semana dos Seminários,
sinto-me compelido a perguntar, sem julgar ninguém:
Como discernimos a queda acentuada das vocações para padres?
Com indiferença? Resignados? Perplexos? Vigilantes? Pedindo sem cessar?
Encontramo-nos a dormir, como todas as virgens à espera do esposo,
embora uns estimando-se mais acautelados do que outros?
Não estarão certas ‘portas’ de banquetes a fechar-se?
Estaremos preparados para ouvir o brado «no meio da noite» (Mt 25,6)?
Daqui a pouco tempo ― e talvez não precisaremos de muitos anos ―,
não viveremos o que se passa nas Igrejas de outros países da Europa?

10. Para ultrapassar este ‘tempo de crise’ vocacional,
cultivemos, em modos sapienciais, a esperança que tanto trabalho dá.
O autor do Livro da Sabedoria aponta-nos uma via:
procurar, amar e desejar a sabedoria «desde a aurora» (Sab 6,14).
E ela, a sabedoria, acabará por antecipar-se ao nosso desejo,
ao ponto de quase ‘tropeçarmos’ nela, sentada à nossa porta.
Confesso-vos que frequentemente a penso como ‘metáfora caseira’,
quando acolho, no mês de agosto, o nosso pequeno cão, o Fiel,
aparecendo cada manhã, na varanda sul, contente a saudar-me!
Apesar de todas as dificuldades, não nos lamentemos.
Porque, como recorda o pe. José Miguel, «aconteça o que acontecer,
a “vida é sempre bela”» (p. 468), a fazer lembrar o filme «A vida é bela»,
que, neste tempo de novas calamidades bélicas, poderemos rever:
https://www.justwatch.com/br/filme/a-vida-e-bela

11. «Felizes os convidados para o banquete nupcial do Cordeiro» (MR 695).
Eis o «brado», que nos será dirigido no centro da missa, no meio da noite.
Rezemos para que não nos faltem padres a dirigir este convite.
E, com desejo sequioso (cf. Sl 62,2), vigilantes também,
possamos avançar sempre para a água do rosto de Deus.

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais VERNA. Este texto corresponde à homilia do domingo, dia 12 de novembro, XXXII Domingo do Tempo Comum na liturgia católica 2023, nas paróquias de Moreira do Castelo e Codeçoso, no arciprestado de Celorico de Basto.  

 

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