Escola: prisão ou libertação?

| 6 Abr 21

SyriaEducation, crianças, escolas, Síria

“O aluno não fica limitado nem pelas suas preferências nem pelas preferências dos outros: coloca-se perante a polivalência da realidade.”  Foto © Caritas Internacional

 

Evitar o doutrinamento das crianças dá trabalho. Por um lado, necessitam de uma espécie de “catecismo elementar”, onde tudo venha explicado e estruturado de acordo com o seu desenvolvimento. Por outro lado, esta cultura inicial e maneira peculiar de olhar o mundo não podem ser prisão: pouco a pouco, de acordo com o ritmo da criança, virá a escolha de um trabalho personalizado e criativo. A criança tem de levar a sério as prescrições da sua cultura, para adquirir a norma de levar a sério o que escolhe fazer. De contrário, a timidez e o diletantismo ir-lhe-ão limitar a liberdade e, portanto, a capacidade de se realizar.

Como as sociedades organizadas necessitam de valores comuns, a pedagogia do conhecimento e discussão é essencial. Não se pode dar verdadeira comunicação entre pessoas se elas não ganham apreço por comunicar – o doutrinamento surge quando não surge um novo filósofo. Ser aberto a outras ideias, mesmo quando o que eu digo parece certo e de extrema relevância, é aceitar também a minha própria abertura. O outro é o estímulo da minha transcendência, desperta-a, actualiza-a, e permite a diferenciação entre verdades e a Verdade. Doutrinar é, pois, um isolamento não só do outro como de mim próprio.

Para Durkheim, compete à sociologia dizer aos educadores aquilo para que tende a sociedade; e aos educadores compete ajudar os alunos na realização desses objectivos. Porém, a escola, como grupo perfeito que deve ser, não pode limitar-se ao seguimento da opinião pública: pelo contrário, pertence às escolas conduzir a opinião pública. Em todas elas, desde as maternais às superiores, os “mestres” serão a origem crítica da opinião pública.

Deste modo, cabe aos professores agir como pessoas educadas, suficientemente informadas para criticar as próprias crenças e as do grupo social a que pertencem, demonstrando a qualidade dos fundamentos dessas crenças e das alternativas que se oferecem.

A esta actividade crítica prende-se a temática da regionalização do ensino. Os valores próprios de uma região integram-se em sistemas mais vastos, que relativizam os primeiros – relativizar não implica inferiorizar determinada posição. Mas o sistema de valores de um grupo social pode facilmente converter-se num sistema isolante.

Nesta crítica dos valores, a escola ensina a não esquecer os pormenores positivos de sistemas provavelmente contrários; e que a condenação em bloco é frequentemente exemplo da necessidade de bodes expiatórios, da figura má – e facilita a manipulação do próprio bom senso, com toda a arte do doutrinamento. A escola tem assim que se manter vigilante sobre si mesma.

As formas de conhecimento terão pois que ser muito equilibradas, sem obstar à especialização. O aluno não fica limitado nem pelas suas preferências nem pelas preferências dos outros: coloca-se perante a polivalência da realidade.

Devo às longas viagens de comboio para o estrangeiro a expressão doutrinamento técnico. Obviamente, tomava sempre comboios rápidos – mas sempre havia paragens inopinadas nalgumas estações secundaríssimas. Até que um dia, pedi explicações ao revisor sobre a “ofensa” à rapidez e dignidade do comboio. Ao que ele respondeu imperturbável: “Sabe, senhor, estas paragens são o que nós chamamos paragens técnicas: não se destinam a fazer entrar ou sair passageiros; é para descongestionar o tráfego, tornando mais segura a viagem”. E eu concluí: os passageiros não podem pensar que é para ficarem por ali ou para entrarem à batota – o destino ainda vem longe, e precisa de ser programado!

O doutrinamento técnico pode pois significar a “imposição provisória” de conhecimentos e valores aceites costumeiramente numa dada cultura (que se pode identificar com o grupo familiar, o grupo escolar e até o grupo profissional). São as boas maneiras, práticas religiosas, conhecimentos simples, técnicas de bom senso… Quem “doutrina tecnicamente” tem que se preocupar efectivamente com formar a criança ou o novo membro de modo a que ela, progressivamente, seja apta para discutir e escolher, abrindo caminhos novos.

As crianças começam por aprender “tradições” (entenda-se: aquilo que vale a pena ser transmitido) sem compreender plenamente por quê. Mais tarde, saberão discutir a razão de ser de muitas práticas. Por isso, o grupo significativo deve preocupar-se com a justificação daquilo que “impõe” e ao mesmo tempo deve dar exemplo de discussão e fundamentação do seu agir – mesmo que as crianças não penetrem no raciocínio. Adquirindo deste modo regras básicas, a criança forma o sentimento adequado para sustentar a vida que irá escolher.

Honestamente: as noções do catecismo, sobretudo para infantis, não podem ser dadas “de cima para baixo”: devem partir da experiência própria das crianças. A inicial noção de Deus é extremamente difícil, por razões psicológicas e filosóficas. Muitas catequeses dariam razão a Freud, para quem a religião é uma neurose colectiva – ou a inimiga da ciência. Mais vale começar pela experiência da autoridade, da ordem, do amor, da beleza… e do mistério – sem gerar ansiedade e sim o desejo de virem a conhecer cada vez mais a maravilha de existir.

 

Manuel Alte da Veiga é professor aposentado do ensino universitário.

 

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