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autores - Adriano Batista

[Entre Margens]

Escolas neutras, culturas invisíveis

| 28/12/2025

Há dias acompanhei um grupo de alunos de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) numa visita ao Templo Hindu de Lisboa e à Mesquita Central. Foram momentos de grande aprendizagem para todos, já que acredito profundamente que é preciso conhecer para podermos respeitar.

Celebração no salão de festas do templo Radha Krishna, em Lisboa. Foto Comunidade Hindu de Portugal

Celebração no salão de festas do templo Radha Krishna, em Lisboa: “No final da visita ao Templo Hindu, feita pela simpática Sona, trocámos algumas palavras e ela despediu-se desejando-me um feliz Natal.” Foto: © Comunidade Hindu de Portugal

No final da visita ao Templo Hindu, feita pela simpática Sona, trocámos algumas palavras e ela despediu-se desejando-me um feliz Natal. Também nos momentos finais da visita à Mesquita, estive a conversar com o xeque David Munir que, na despedida, desejou-me um Natal feliz. Estas duas situações não conteriam em si nada de especial, se não vivêssemos tempos em que ser moderado e respeitador das diferenças ideológicas ou religiosas é quase um crime, uma afronta ou sinal de fraqueza, já que a polarização social é tal, que quem não defende um dos lados de forma intransigente é amorfo e sem carisma.

David Munir, Liberdade Religiosa, Parlamento

David Munir no colóquio sobre “A Democracia e a Liberdade Religiosa”, na Assembleia da República (28 Junho 2023): “Também nos momentos finais da visita à Mesquita, estive a conversar com o xeque David Munir que na despedida, desejou-me um Natal feliz.” Foto: Imagem captada da transmissão da AR-TV.

Ora, isto vem a propósito de algumas notícias sobre escolas que decidiram, do alto da sua “neutralidade”, eliminar qualquer símbolo referente ao Natal, fosse ele mais cristão ou mais pagão. Algumas explicações para a decisão prendem-se com o respeito por toda a comunidade escolar, já que a mesma é composta por cristãos e por pessoas de outras religiões e até por quem não acredita em nada. Assim, aboliram-se todos os símbolos culturais e religiosos em nome de uma suposta igualdade. Que igualdade? A de um cristão não poder ter na sua escola um único símbolo que o remeta para uma das principais celebrações da sua fé? A igualdade de apagarmos a história, a cultura e a tradição, já que a celebração do Natal ultrapassa línguas, credos e ideologias?

Gostava de saber se nestas escolas existiu alguém que, não sendo cristão, tenha pedido para que não se fizessem alusões a qualquer símbolo natalício, porque isso ofenderia os seus filhos? Ou terão sido decisões das respetivas direções escolares que, em nome da suposta tolerância, neutralidade e respeito, mais não fizeram do que impor o seu credo ateu ou agnóstico? É legítimo esse credo e merece todo o respeito, mas também não pode nem deve ser imposto.

Integrar e acolher não significa renegar a tradição e cultura de um país, de uma localidade ou de uma escola. Impedir crianças cristãs de celebrarem o Natal nas suas escolas promove a exclusão e não a inclusão. Promove o desrespeito e não a aceitação. Promove a ignorância e não o conhecimento. Permitir que existam símbolos do Natal em cada escola é ajudar os alunos a compreenderem o seu significado, é educar para a tolerância. Ao invés, se os ocultamos, não somos inclusivos e reduzimos as oportunidades de diálogo e de aprendizagem mútua.

Voltando aos dois exemplos referidos no começo: a Sona é hindu e o xeque David é muçulmano. Nenhum deles celebra o Natal, pelo menos na sua dimensão religiosa. Isso não os tornou insensíveis à pessoa que tinham diante de si, pois reconheceram a importância da celebração do nascimento de Jesus para mim, e desejaram que a mesma fosse boa, agradável, feliz.

Enquanto não compreendermos que o respeito será sempre a base de todos os entendimentos, continuaremos a ter preconceitos infundados sobre outras culturas, credos ou ideologias.

 

Adriano Batista é professor.

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