Escolher a medida alta: 100 anos de Sophie Scholl

| 10 Mai 2021

Sophie Scholl

“É essa decisão, consciente dos riscos e disposta às consequências, de agir contra um regime e um modelo de sociedade fundamentalmente anticristão, que nos interpela e nos incomoda hoje” Foto: Hans Scholl, Sophie Scholl e Christoph Probst em 1942. Direitos reservados

 

Neste domingo, 9 de Maio, passaram 100 anos sobre o nascimento de Sophie Scholl, que integrou a Rosa Branca, o grupo informal de resistência pacífica ao III Reich, formado por estudantes e um professor da Universidade de Munique. Curiosamente, é também o dia da Europa.

A vida da Rosa Branca é breve. Entre Junho de 1942 e Fevereiro de 1943, o grupo escreveu, imprimiu e distribuiu seis panfletos apelando à consciência dos alemães para que se revoltassem contra o regime. A 18 de Fevereiro de 1943, Sophie e o seu irmão Hans, o líder do grupo, foram denunciados por um porteiro da Universidade que os vira a distribuir o sexto panfleto.

A 22 de Fevereiro, Sophie, Hans e Christoph Probst são guilhotinados na prisão de Stadelheim, em Munique, após um julgamento fantoche que os considerou culpados de alta traição. Até Outubro, serão executados Willi Graf, Alexander Schmorell e Kurt Huber, o professor. Há relatos do processo e registos dos seus depoimentos, e das alegações da acusação. Vale bem a pena lê-los.

Hoje, é fácil olhá-los com condescendência. Ver só um grupo de idealistas, cuja acção estava condenada desde o início. Ou vê-los como mártires, santos de altar. Pior, como activistas. Não eram nenhuma destas coisas. Eram só pessoas normais com a convicção de que a oposição ao III Reich era uma obrigação moral e um dever cristão. Nas palavras proféticas do primeiro panfleto: “Quem, de entre nós, consegue conceber a dimensão da vergonha que cairá sobre nós e os nossos filhos quando, um dia, o véu cair à frente dos nossos olhos, e o mais horrível dos crimes (…) vir a luz do dia?”. Mas voltemos a Sophie.

Os Scholl eram uma família de classe média-alta, luterana e culta (para o padrão português, pelo menos). O pai, Robert, era um pacifista convicto que tirou imediatamente as medidas ao III Reich. Os cinco irmãos têm entre 11 e 16 anos em 1933, e deixam-se levar pelo que vão ouvindo e vendo na escola, pelo apelo ao patriotismo e às promessas de prosperidade. Em casa, eram constantemente interpelados pelo espírito crítico do pai. Para seu desgosto, Sophie, juntamente com as irmãs, aderiu à Liga das Raparigas Alemãs com o entusiasmo de uma miúda de 12 anos, e chegou a liderar um grupo local.

A sua aversão visceral ao regime começa com a desilusão com a Liga, ou melhor, com a progressiva descoberta do que a Liga e o regime realmente são. Considera absurdo que a Liga não aceite uma amiga judia, choca-se quando percebe que Heinrich Heine, um dos seus poetas preferidos, é proibido por ser “pacifista, de esquerda e judeu”. Seguem-se as leis raciais e a perseguição aos professores inconformistas: um deles desaparece durante a noite sem deixar rasto. Em 1937, a família é detida e a casa revistada, depois de Hans ser denunciado por ter criado um grupo alternativo à Juventude Hitleriana, o que era ilegal. Em 1942, o pai é preso por criticar Hitler publicamente e Sophie vai à prisão com a sua flauta tocar “Die Gedanken sind Frei”, uma canção conhecida, sobre a liberdade de expressão. O pensamento único e a pressão para se conformar são-lhe insuportáveis.

A par com a tenacidade, as intuições de Sophie ainda hoje mordem. Terá percebido que o sentimentalismo patético do regime contribuíra, em boa medida, para a erosão do espírito crítico e para a lassidão cívica dos alemães, que tanto a envergonhavam. O apelo a participar no esforço de guerra exasperava-a. Sob a capa do humanitarismo e da lealdade patriótica, pediam-lhe para prolongar um regime absolutamente ilegítimo e injusto. Mesmo que o namorado, Fritz, lhe diga que os soldados alemães estão, literalmente, a congelar e que precisam de roupa quente.

Terá igualmente intuído o desastre de deixar um regime político ou o Estado apropriar-se das ideias de país, de povo ou de comunidade, e do reescrever coercivo da história e da cultura que essa apropriação implica. Sophie gostava da Alemanha, da música, da literatura, da natureza, da vida que aí levava (não confundir com vidinha) e isso é uma coisa boa. Quando lhe perguntam, no final do julgamento, se as suas acções se qualificam como um crime contra a comunidade, responde que entende que fez o melhor que pôde pelo seu país, que não se arrepende da sua conduta e que enfrentará as consequências que daí resultam.

E por último, a fé. Os irmãos Scholl e parte do núcleo duro da Rosa Branca eram luteranos e nos cadernos e cartas de Sophie encontramos várias menções à sua experiência de oração. Há registos e relatos de conversas em que dizem ver a vida como uma “porta para a eternidade”, e a formação cristã foi fundamental na criação e na actuação do grupo. Não o escreveram articuladamente, mas podemos deduzir que percebem toda a ideologia do Reich e o seu modelo de sociedade como profundamente anticristãos. E que há um ponto a partir do qual a acomodação, as cedências e as soluções de compromisso se transformam em cumplicidade. E, que mesmo que as consequências sejam duras, se torna imperativo agir.

É essa decisão, consciente dos riscos e disposta às consequências, de agir contra um regime e um modelo de sociedade fundamentalmente anticristão, que nos interpela e nos incomoda hoje. E se não incomoda, deveria.

 

Marta Saraiva é diplomata, exercendo actualmente funções na Missão de Portugal junto do Conselho da Europa.

 

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