Escolher um dos lados, desobedecer aos pais

| 3 Abr 2022

coracao com as cores da bandeira da ucrania foto c pixelshot

foto © pixelshot

 

Para além de “Não fales com estranhos”, “Nunca respondas aos teus professores” e “Não abras a porta a ninguém” um dos ensinamentos que mais me foram repetidos durante a infância foi “Não escolhas lados”. Os meus pais sempre me ensinaram que não me devo meter em discussões que pouco ou nada tinham que ver comigo, mas eu sempre arranjei pequenas exceções.

Nos dias que correm, as exceções aumentaram ligeiramente. Dizem as más-línguas que está a decorrer uma “Operação Militar Especial” na Ucrânia. Ah! Outra dica de sobrevivência que os meus pais me deram foi “chama as coisas pelo nome”. Está, portanto, a decorrer uma guerra na Ucrânia – aqui está uma boa situação para quebrar o tal ensinamento sagrado dos meus pais. Não há como não escolher lados.

Ser filha de imigrantes moldavos implica estar especialmente atenta a este conflito. Para além de decorrer bastante perto da nossa terra natal, atinge diretamente a família que temos emigrada na Ucrânia e na Rússia. O que está a acontecer na Ucrânia poderia facilmente ser noutro país báltico ou balcânico. Não podemos ficar de braços cruzados e ver a história desenrolar-se.

Na manhã de 24 de fevereiro acordo com o telemóvel a explodir de notificações. Reinavam as palavras “guerra” e “bombardeamentos”. Caiu-me o chão. Escusado é dizer que cheguei atrasada às aulas nesse dia com tantas chamadas e trocas de mensagens. Cada pessoa da minha família reagia de forma diferente ao conflito, consoante o país em que residem. Os relatos consistiam em:

Ucrânia: Isto está um caos, precisamos de sair.

Moldávia: Conseguimos ouvir bombardeamentos. Isto está um caos, precisamos de sair.

Rússia: Bombardeamentos? Onde?

Abri, então, uma exceção e informei-me para poder escolher um lado.

Bastaram-me 30 segundos a navegar na internet para perceber o horror que vivem os ucranianos. Entro em espirais existenciais só de imaginar o que seria estar presente numa situação que me obrigasse a deixar o meu país. A história repete-se e, da mesma maneira que um homem conseguiu assombrar nações inteiras e obrigá-las a emigrar para fugir a um regime nacionalista em 1939, o mesmo acontece em pleno século XXI. Putin não tem uma ideologia nem argumentos legítimos para invadir um país para além da sua fome nacionalista. No seu sangue corre a nostalgia e desejo de reunir a fracassada União Soviética. A mesma que, ainda hoje e já desmembrada, não deixa escolha aos habitantes das ex-repúblicas soviéticas senão emigrar em busca de condições de vida melhores face ao rasto de destruição política que deixou. Só em Portugal habitam cerca de 50 mil imigrantes da Europa de Leste, os dados falam mais alto. Putin está velho e cansado por perceber que a sua maratona chegou ao fim (inevitável). O problema é não conseguir saciar a sede que tem por poder.

Fiquei espantada ao saber que os órgãos de comunicação russos evitaram mencionar o que se estava a fazer ao país vizinho durante os primeiros dias de ataque. Nas semanas seguintes, arranjaram forma de fazer uma lavagem cerebral a uma nação inteira. Quem estivesse com dúvidas sobre se os atos que o seu governo tomou estavam errados, com o decorrer do tempo (e desinformação à mistura) caem na falácia que Putin alimenta. Um estudo conduzido pelo Active Group diz que 86,6% da população russa apoia a invasão armada a mais países europeus. A missão do Kremlin não acaba aqui. Argumentos como “A culpa é do Zelensky, Putin só está a defender o seu país” – uma das mensagens reais que recebi – perdem o fundamento. Aliás, qualquer argumento perde perante a realidade que a Ucrânia vive. Nada justifica matar pessoas.

Este é o primeiro caso em que desobedeço à grande uma regra dos meus pais – sei bem qual dos lados devo escolher.

 

Evelina Ungureanu é estudante de Comunicação Social e Jornalismo na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. Contacto: ung.evelina@gmail.com

 

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