Escravatura e racismo: faces da mesma moeda

| 19 Jun 2024

Africanas, mulheres de etnia cigana e imigrantes. Vivem no bairro da Quinta da Princesa, Seixal, e fazem parte de um projeto de cidadania ativa. Foto © Câmara Municipal do Seixal.

Africanas, mulheres de etnia cigana e imigrantes. Vivem no bairro da Quinta da Princesa, Seixal, e fazem parte de um projeto de cidadania ativa. Foto © Câmara Municipal do Seixal.

Nos últimos tempos muito se tem falado e escrito sobre escravatura e racismo no nosso país. Temas que nos tocam e que fazem parte da nossa história os quais não podemos esconder. Não assumir esta dupla realidade, é esconder partes importantes da nossa identidade. Sim, praticámos a escravatura ao longo de muitos séculos, e continuamos a fechar os olhos a situações de exploração de pessoas imigradas, a lembrar tempos de servidão. Quem não ficou chocado com numerosas tendas de imigrantes implantadas no nosso país? As agressões racistas a casas onde residem imigrantes sem condições, não nos arrepia? Mais situações como esta poderíamos acrescentar, como os trabalhadores sazonais que, sem eira nem beira se acumulam em algumas das nossas cidades, quando o trabalho escasseia. Seria mais cómodo para nós negarmos que há ainda hoje racismo e formas de escravatura moderna e xenofobia no nosso território. Deste modo, tentaríamos esconder alguns sentimentos de culpa moral.

Como nos conta a história do nosso sistema de ensino, Portugal distinguia-se dos outros povos colonizadores, porque o nosso saudoso império teria sido mais humanista do que os outros. A mestiçagem aí estaria para comprovar que teríamos sido bem diferentes deles. Só que, o povo racista e esclavagista que fomos deixou raízes que continuam a aflorar. Quem não se recorda do caso de uma professora de Espinho, muito recentemente, que teve de responder em tribunal às acusações de maus tratos a criança de seis anos, de naturalidade estrangeira, a quem bateu e humilhou por falar mal o português? Esta professora não é a única que pensa que os estrangeiros imigrantes deveriam ser recambiados para os seus países de origem. De Lisboa, chegou-nos também a notícia pela Rádio Renascença acerca de uma suposta criança nepalesa, de nove anos, que foi violentamente agredida por colegas. Ficou gravemente ferida com hematomas no corpo e feridas abertas. Estas agressões foram acompanhadas por frases racistas e xenófobas. A ministra da Administração Interna já prometeu mais polícias em resposta às agressões infligidas ao menino nepalês e a mãe do menino teve de procurar outra escola para o seu filho. Recorde-se que são já mais de 50 mil imigrantes nepaleses que vivem hoje no nosso país. Segundo a Associação do Nepal instalada no nosso país, a integração destas e demais crianças do Sudeste asiático tem revelado graves problemas de integração no nosso sistema de ensino, sobretudo devido à dificuldade da aprendizagem da língua.

Embora não possamos estender estes actos agressivos e racistas cometidos em Lisboa, estes exemplos poderão repetir-se noutros pontos do país caso não sejam devidamente prevenidos, através de uma educação que ensine a tolerância e a solidariedade que nos merecem os imigrantes que procuram o nosso país. Uma situação que tocou em muitos dos nossos numerosos emigrantes, sobretudo nos anos 60 do passado século. Quem não recorda ainda o grupo de encapuzados do Porto ao terem arrombado uma moradia habitada por imigrantes a quem agrediram com bastões de basebol. Sabemos pelos dados avançados por estudos recentes, que o crescimento do número de crimes de ódio em Portugal aumentou 38% de 2022 para 2023. Sabe-se ainda, através do último Relatório Anual de Segurança Interna, que é entre os mais novos que se têm espalhado mais abundantemente ideias racistas, xenófobas, homofóbicas e misóginas. Estes comportamentos agressivos e condenáveis têm atingido sobretudo o grupo social dos imigrantes.

Perante esta realidade, temos que exigir aos Governantes que definam e executem uma política humanista de integração dos imigrantes e seus filhos no nosso sistema de ensino e facultem também condições de trabalho digno para os pais. O que se tem passado nos últimos dias às portas da AIMA que substituiu o SEF, pejado de centenas de imigrantes que querem regularizar a sua situação, para viverem e trabalharem no nosso país, tornou bem evidente de como Portugal tem tratado os imigrantes que nos procuram. Todos sabemos que o policiamento nas escolas, por maior que seja não resolve os problemas racistas e xenófobos que têm aumentado ultimamente no país. Os problemas sociais da escravatura e do racismo não se resolvem só com mais repressão, mas através da formação – mudança de mentalidade – que se bebe na família, na escola, nas comunidades religiosas e nos meios de comunicação social.

 

Florentino Beirão é professor do ensino secundário. Contacto: florentinobeirao@hotmail.com

 

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