Escrever com os polegares

| 4 Ago 19 | Entre Margens, Newsletter, Últimas

Nas margens da filosofia

No passado mês de Junho morreu o filósofo Michel Serres. A sua obra é vastíssima e profundamente original. De facto escreveu sobre filosofia, história das ciências, matemática, pedagogia, ecologia, ciências da comunicação, banda desenhada. Neste campo é de relevar a importância que atribuiu a Hergé e aos seus personagens, que analisou como objectos de estudo filosófico.Escolhi falar de M.S. a partir de um pequeno livro que considero precioso para estudantes e professores dos tempos actuais. Refiro-me a Petite Poussette(Paris, Le Pommier, 2012; ed. portuguesa Polegarzinha, Bertrand, Brasil, 2013).

Neste livro, o autor traça um retrato optimista dos jovens contemporâneos, congratulando-se com a fantástica possibilidade de terem o mundo à distância de um clique. Trata-se de uma revolução pela qual, tal como aconteceu com a escrita ou com a imprensa, estabelecemos uma nova relação com o mundo. E o facto de ter feminizado o “Polegarzinho” não é inocente pois resulta de uma constatação – a luta das mulheres por uma sociedade mais justa em que os seus direitos sejam reconhecidos teve consequências na atitude das estudantes, exigindo delas mais empenhamento e atenção. Serres reconheceu-o nas suas alunas, e daí o título deste seu livro.

Quatro séculos antes, ao debruçar-se sobre a política, Espinosa escrevera: “(…) para investigar aquilo que respeita a esta ciência com a mesma liberdade de ânimo que é costume nas coisas matemáticas, procurei escrupulosamente não rir, não chorar, nem detestar as acções humanas mas entendê-las.” (Tratado Político, I, 4). M. Serres não cita o filósofo judeu, mas está em sintonia com ele quando se debruça sobre o modo como os jovens contemporâneos pensam, escrevem, falam e se relacionam. Só que o seu ponto de partida já não é a matemática nem a física. As referências que elege dizem respeito às ciências computacionais  e às profundas alterações que estas provocaram nos jovens de hoje, por ele classificados como “mutantes.”

Apoiando-se nas actuais ciências cognitivas, Michel Serres conclui que os estudantes do século XXI não têm a mesma cabeça dos seus pais e avós. Na verdade, a consulta da Wikipédia ou do Facebook e o uso permanente do écran em detrimento do livro, actuam sobre zonas corticais específicas, produzindoalterações.Os adolescentes do século XXIhabitam um universo diferente daquele em que viveram e foram educados os seus pais.Tal como aconteceu em outras épocas, defrontamo-nos hoje com o aparecimento de uma nova humanidade.Os actuais mutantes habitam as redes virtuais, nas quais se movem com à vontade. As suas vivências postulam um pensamento rápido pois em poucos segundos conseguem um manancial de informação que ao estudante de anos atrás exigira a consulta de múltiplos livros e o estudo de muitas horas. É um mundo fascinante mas inevitavelmente perigoso pois amemória foi substituída pela informação. É um mundo que ignora a questão, transformando-a em pergunta e resolvendo-a pelo recurso ao Google ou a qualquer outro motor de busca.

Enquanto professora de filosofia não posso deixar de constatar o modo como a velocidade da informação a que os alunos de hoje estão habituados contrasta com a paciência e com a lentidão inevitáveis no trabalho filosófico. E verifico que a linguagem dos filósofos é cada vez mais estranha aos códigos linguísticos dos alunos, bem como ao seu universo conceptual. O aluno comum (e aqui tanto faz ser um aluno de filosofia como de outra qualquer disciplina) rege-se por códigos pragmáticos e gosta de solucionar rapidamente as suas dúvidas.

De modo algum pretendo negar os aspectos positivos das mutações ocorridas. Lembro sem saudade a época em que escrevi a minha tese de doutoramento, as esperas infindas na requisição de livros, os ficheiros poeirentos onde se procurava uma citação ou um termo, a carência de obras essenciais, o difícil acesso ao que se escrevia e pensava fora do país.

É inegável que as novas técnicas de comunicação beneficiam jovens e velhos e, tal como Serres, congratulo-me com a facilidade de acesso ao que se vai escrevendo e pensando por este mundo, a partir de um tabletou de um smartphone. Com alguma perseverança (e com bastante ajuda por parte dos netos) fui ultrapassando dificuldades e adquirindo competências. Mas confesso que há uma performance que invejo aos mais novos e da qual desisti. Trata-se de algo que qualquer aluno do primeiro ciclo do ensino básico realiza com uma velocidade estonteante e que, por mais que me esforce não consigo aprender: falo da habilidade, por mim inalcançável, de escrever com os polegares.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática  de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (http://luisarife.wix.com/site; luisarife@sapo.pt)

Artigos relacionados

Verão no 7MARGENS

Verão no 7MARGENS

Durante as próximas semanas e até ao início de Setembro o 7MARGENS abrandará ligeiramente o ritmo de publicação. Isto significa, essencialmente, que pode haver dias em que não vai receber a habitual newsletter diária.
Faremos um esforço, de qualquer modo, por manter viva a secção Entre Margens, com opinião de diferentes colaboradores/as, bem como de tentar marcar presença com várias notícias, comentários, reportagens ou entrevistas.

Apoie o 7 Margens

Breves

Núncio que era criticado por vários bispos, deixa Lisboa por limite de idade

O Papa Francisco aceitou nesta quinta-feira, 4 de Julho, a renúncia ao cargo do núncio apostólico (representante diplomático) da Santa Sé em Portugal, Rino Passigato, por ter atingido o limite de idade determinado pelo direito canónico, de 75 anos. A sua acção era objecto de críticas de vários bispos, embora não assumidas publicamente.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia 

Entre margens

A teologia das pedras

A tentação de lançar pedras sobre os outros é sempre maior do que a de nos colocarmos em frente a um espelho. Mas, cada vez que lançamos uma pedra contra alguém, no fundo estamos a magoar-nos a nós mesmos.

Um género de ideologia

Já houve quem escrevesse que a ideologia de género não existe. Já houve quem escrevesse que quem defende a igualdade de género esconde uma ideologia. Falemos, pois, da realidade e avaliemo-la à luz não de uma ideologia, mas de duas: a ideologia da igualdade e a ideologia dos que clamam contra a ideologia de género.

Cultura e artes

Três rostos para a liberdade

De facto, para quem o sabe fazer, o cinema é mesmo uma arte muito simples: basta uma câmara, um ponto de partida e pessoas que se vão cruzando e dialogando. E temos um filme, quase sempre um magnífico filme. Vem isto a propósito do último trabalho do iraniano Jafar Panahi: Três Rostos.

A potência benigna de Dietrich Bonhoeffer

O influente magistério de Dietrich Bonhoeffer, a sua vigorosa resistência ao nazismo e o singular namoro com Maria von Wedemeyer são três momentos da vida do pastor luterano que merecem uma peculiar atenção na biografia Dietrich Bonhoeffer. Teólogo e mártir do nazismo, da autoria do historiador italiano Giorgio Cavalleri. A obra, publicada pelas Paulinas em Maio, permite agora que um público mais vasto possa conhecer aquele que é geralmente considerado como um dos mais influentes teólogos do século XX.

Festa de Maria Madalena: um filme para dar lugar às mulheres

A intenção do autor é dar lugar às mulheres. Não restam dúvidas, fazendo uma leitura atenta dos quatro Evangelhos que Jesus lhes dá o primeiro lugar. A elas, anuncia-lhes quem é Ele, verdadeiramente. Companheiras de Cristo, continuarão a sua missão, juntamente com os homens. Anunciando, tal como eles, a Paixão e a Ressurreição de Jesus Cristo; curando, baptizando em nome do Senhor. Tornando-se diáconos. Sabe-se, está escrito. Mas, nos Actos dos Apóstolos, elas desaparecem sem deixar rasto.

Mãos cheias de ouro, um canudo e uma intensa criatividade

Na manhã de 7 de Julho, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) inscreveu o Convento de Mafra, o santuário do Bom Jesus de Braga e o Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra, na sua lista de sítios de Património Mundial. Curta viagem escrita e alguns percursos falados, como forma de convite à viagem para conhecer ou redescobrir os três novos lugares portugueses do Património da Humanidade.

Sete Partidas

A Páscoa em Moçambique, um ano antes do ciclone – e como renasce a esperança

Um padre que passou de refugiado a conselheiro geral pode ser a imagem da paixão e morte que atravessou a Beira e que mostra caminhos de Páscoa a abrir-se. Na região de Moçambique destruída há um mês pelo ciclone Idai, a onda de solidariedade está a ultrapassar todas as expectativas e a esperança está a ganhar, outra vez, os corações das populações arrasadas por esta catástrofe.

Visto e Ouvido

"Correio a Nossa Senhora" - espólio guardado no Santuário começou a ser agora disponibilizado aos investigadores

Agenda

Parceiros

Fale connosco