Escrever com os polegares
Nas margens da filosofia (VII)
No passado mês de Junho morreu o filósofo Michel Serres. A sua obra é vastíssima e profundamente original. De facto escreveu sobre filosofia, história das ciências, matemática, pedagogia, ecologia, ciências da comunicação, banda desenhada. Neste campo é de relevar a importância que atribuiu a Hergé e aos seus personagens, que analisou como objectos de estudo filosófico.Escolhi falar de M.S. a partir de um pequeno livro que considero precioso para estudantes e professores dos tempos actuais. Refiro-me a Petite Poussette(Paris, Le Pommier, 2012; ed. portuguesa Polegarzinha, Bertrand, Brasil, 2013).
Neste livro, o autor traça um retrato optimista dos jovens contemporâneos, congratulando-se com a fantástica possibilidade de terem o mundo à distância de um clique. Trata-se de uma revolução pela qual, tal como aconteceu com a escrita ou com a imprensa, estabelecemos uma nova relação com o mundo. E o facto de ter feminizado o “Polegarzinho” não é inocente pois resulta de uma constatação – a luta das mulheres por uma sociedade mais justa em que os seus direitos sejam reconhecidos teve consequências na atitude das estudantes, exigindo delas mais empenhamento e atenção. Serres reconheceu-o nas suas alunas, e daí o título deste seu livro.
Quatro séculos antes, ao debruçar-se sobre a política, Espinosa escrevera: “(…) para investigar aquilo que respeita a esta ciência com a mesma liberdade de ânimo que é costume nas coisas matemáticas, procurei escrupulosamente não rir, não chorar, nem detestar as acções humanas mas entendê-las.” (Tratado Político, I, 4). M. Serres não cita o filósofo judeu, mas está em sintonia com ele quando se debruça sobre o modo como os jovens contemporâneos pensam, escrevem, falam e se relacionam. Só que o seu ponto de partida já não é a matemática nem a física. As referências que elege dizem respeito às ciências computacionais e às profundas alterações que estas provocaram nos jovens de hoje, por ele classificados como “mutantes.”
Apoiando-se nas actuais ciências cognitivas, Michel Serres conclui que os estudantes do século XXI não têm a mesma cabeça dos seus pais e avós. Na verdade, a consulta da Wikipédia ou do Facebook e o uso permanente do écran em detrimento do livro, actuam sobre zonas corticais específicas, produzindoalterações.Os adolescentes do século XXIhabitam um universo diferente daquele em que viveram e foram educados os seus pais.Tal como aconteceu em outras épocas, defrontamo-nos hoje com o aparecimento de uma nova humanidade.Os actuais mutantes habitam as redes virtuais, nas quais se movem com à vontade. As suas vivências postulam um pensamento rápido pois em poucos segundos conseguem um manancial de informação que ao estudante de anos atrás exigira a consulta de múltiplos livros e o estudo de muitas horas. É um mundo fascinante mas inevitavelmente perigoso pois amemória foi substituída pela informação. É um mundo que ignora a questão, transformando-a em pergunta e resolvendo-a pelo recurso ao Google ou a qualquer outro motor de busca.
Enquanto professora de filosofia não posso deixar de constatar o modo como a velocidade da informação a que os alunos de hoje estão habituados contrasta com a paciência e com a lentidão inevitáveis no trabalho filosófico. E verifico que a linguagem dos filósofos é cada vez mais estranha aos códigos linguísticos dos alunos, bem como ao seu universo conceptual. O aluno comum (e aqui tanto faz ser um aluno de filosofia como de outra qualquer disciplina) rege-se por códigos pragmáticos e gosta de solucionar rapidamente as suas dúvidas.
De modo algum pretendo negar os aspectos positivos das mutações ocorridas. Lembro sem saudade a época em que escrevi a minha tese de doutoramento, as esperas infindas na requisição de livros, os ficheiros poeirentos onde se procurava uma citação ou um termo, a carência de obras essenciais, o difícil acesso ao que se escrevia e pensava fora do país.
É inegável que as novas técnicas de comunicação beneficiam jovens e velhos e, tal como Serres, congratulo-me com a facilidade de acesso ao que se vai escrevendo e pensando por este mundo, a partir de um tabletou de um smartphone. Com alguma perseverança (e com bastante ajuda por parte dos netos) fui ultrapassando dificuldades e adquirindo competências. Mas confesso que há uma performance que invejo aos mais novos e da qual desisti. Trata-se de algo que qualquer aluno do primeiro ciclo do ensino básico realiza com uma velocidade estonteante e que, por mais que me esforce não consigo aprender: falo da habilidade, por mim inalcançável, de escrever com os polegares.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (http://luisarife.wix.com/site; luisarife@sapo.pt)
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