Januário dos Santos (1932-2024)

Escritor, romancista, cronista e poeta: O Tio Missionário que tinha génio

| 13 Abr 2024

Januário Aniceto dos Santos, filho de uma agricultora e de um mineiro. Foto: Direitos reservados

Januário Aniceto dos Santos, filho de uma agricultora e de um mineiro. Foto: Direitos reservados

Tive a maior sorte do mundo, porque um homem genial se atravessou na minha vida de aluno da Sociedade Missionária Portuguesa, a partir dos anos 60. Por muitos anos, pude exaurir desta fonte límpida de saber, de conteúdos extensos, de provas longas, vivas de imaginação criadora, a tocar, de mão cheia, também os arcanos da poesia. Apesar da inclemente doença de Parkinson que o atingiu, a força da natureza que era ele, ainda o levou para lá dos 91 anos, de razão perfeita, presa apenas pelas pregas de um andarilho ortopédico… Era brilhante este ser humano e de prendado humor – assim o descreve o cronista local.

Januário Aniceto dos Santos é o nome do nosso herói de letras dançantes. Viu este mundo, pela primeira vez, no lugar de Fafião, em Romariz, aos pés de Santa Maria da Feira, a 10 de Julho de 1932. Filho de Manuel Aniceto dos Santos, mineiro de profissão, e de Angelina Rosa da Silva, agricultora, Januário foi o último de quatro filhos deste casal modesto.

Olhando fora, nos anos 1930, na Europa o mundo sacudia-se de fome. Havia no horizonte nuvens negras, sem esperança. No país, sussurrava-se pelo messias de nome António… Como para qualquer criança do seu tempo, no país, a melhor saída profissional possível envergava-se de negro: a cor do traje estendia-se dos pés à boina “maruja ao lado”, como trauteou, mais tarde o monge, da “camisola verde” – frei Hermano da Câmara.

 

De casa em casa, até ao “Marçagão”

O padre Januário dos Santos a fazer uma conferência nos anos 1960-70. Foto: Direitos reservados

O padre Januário dos Santos a fazer uma conferência nos anos 1960-70. Foto: Direitos reservados

O convento de Cristo, em Tomar, casa de frades templários, vai receber o pequeno seminarista, uma hipótese de vocação sem fronteiras. A esperança estendeu-se até Cernache do Bonjardim, perto do marco geodésico do país, com a alma em fundo de D. Nuno Santa Maria a acolher o adolescente Januário, ganhador de memórias da China e da África semeadas pelos corredores. E, por fim, Couto de Cucujães, ali ao sair da porta de casa, nas imediações de Oliveira de Azeméis, para os claustros de um convento beneditino, transformado em Casa Maior de uma Sociedade das Missões, inédita no país.

Treze anos de vida totalizavam a necessidade de preparação para o tirocínio da futura “vida apostólica”. Só muito mais tarde se entenderia que as respostas destas existências tinham perdido o vigor dos gonzos que as suportavam. Hoje são moradas de silêncios estranhos. Não voltarão, jamais, os olhos que choram pelas cebolas do Egipto… Foi de festa longa a Missa Nova, em Romariz, cinco dias depois da ordenação presbiteral, realizada em 23 de Maio de 1959. Surgia, venerado pelo povo, o neo-sacerdote como uma emoção espiritual. Tudo acontecia no ano em que o autor destas linhas iniciava epopeia semelhante…

No exterior dos Seminários Maiores, apesar das cautelas institucionais e dos segredos do ramo, cresceram alívios que propiciavam a aprendizagem da comunicação e mesmo a extensão do humor onde privava a arte de Talma. Marçagão foi um jornal interno dos alunos de Teologia dos anos 50 e onde Januário, porventura o mais dotado dos colaboradores, deixou impressas verdadeiras surpresas intelectuais e artísticas. Outra respiração da disciplina rigorosa que varria o interior destas casas de formação. Inconciliáveis, os metrónomos da história eclesiástica.

 

De comunicador a padre autor de romances

Capa do romance A Maior Vingança

Capa do romance A Maior Vingança

O missionário Januário dos Santos depressa manifestou a sua vocação para o mundo da comunicação. Estávamos ainda no tempo de Gutenberg, da palavra impressa. Mais tarde haveria de chegar o desejado mundo dos media, popularizado pelo filósofo canadiano Marshall McLuhan…

No instituto a que pertencia, a Sociedade Missionária Portuguesa (a preparar já o centenário da sua fundação), tudo se podia fazer, porque tudo estava por fazer. Provido de uma tipografia, a Escola Tipográfica das Missões, e de uma editora, a Editorial Missões, foi terreno fértil para Januário Aniceto dos Santos (JAS), que regeu com êxito, como director geral, todas as publicações que saíam da Casa de Santa Filomena, palco dos serviços anexos ao velho Seminário de Cucujães.

Todo o país conheceu a dinamização missionária do padre Januário, dedicado também à pregação de retiros, de enlevada espiritualidade, para auditórios simples e generosos. Acompanharam-no nesta missão, o padre Agostinho Rodrigues e o irmão Celso. Nomes para o cômputo da história.

Escritor raro, escondeu-se atrás de um pseudónimo, José Baldaia, como autor de vários romances. Entre outros, A Maior Vingança, Caminho de Sangue, Voz Misteriosa, Amor Sem Fronteiras, O Céu No Inferno, Quando os Animais Falavam e Sonho do Monge.

A sua mesa estava permanentemente cheia de livros, com especial destaque para uma colecção de breves biografias do meio religioso. Colaborador no Missionário Católico, hoje revista Boa Nova e da Cruzada Missionária, hoje Voz da Missão, criou diversas figuras literárias, como o “Tio Jerónimo” e a “Tia Silvina”, um casal de animadores missionários imparáveis. Foi também autor da figura do “Tio Missionário” de forte implantação entre jovens e crianças dos meios populares.

Nos anos 1980, foi reitor dos seminários de Fátima e de Cucujães. Promoveu a publicação da Bíblia, em português, do original da Abadia de Maredsous, na Bélgica.

 

Um defensor da cultura local

 

Januário dos Santos a fazer uma conferência: o padre dava uma grande atenção ao património cultural da sua terra natal. Foto: Direitos reservados

Januário dos Santos a fazer uma conferência: o padre dava uma grande atenção ao património cultural da sua terra natal. Foto: Direitos reservados

Cito, entre outros, dois nomes de relevo na família do padre Januário Aniceto dos Santos. Carlos da Silva Costa, sobrinho, de 74 anos, possuidor de um vasto curriculum académico e profissional, na área da economia. Foi o 17.º Governador do Banco de Portugal, tendo sucedido no cargo a Vítor Constâncio. Outro sobrinho é Francisco Sena Santos, de 66 anos, jornalista na Rádio Difusão Portuguesa e na TSF – Rádio Notícias. Em discussão familiar, Sena Santos viu o tio padre defender a sua profissão de jornalista que perseguia, então, no jornal desportivo Record. “Teria assim mais mundo, que a aliciante carreira de médico, como era vontade da família”.

Uma das características do padre escritor revelou-se na atenção que dava ao património cultural da sua terra natal, desencadeando consultas constantes aos párocos da região, com distinção para o padre Domingos Azevedo Moreira, familiar de D. Carlos Azevedo, que hoje reside no Vaticano.

Nesta boa aproximação à terra natal, fez-se colunista do Jornal de Romariz, de edição mensal.

No campo da cultura um nome saído da aldeia de Romariz e que percorreu o país, de lés a lés, foi o de Pinho Leal: um militar de guerras escaldantes, um escritor e um historiador do século XIX, com uma obra pesada, não só na metáfora: Portugal Antigo e Moderno. Este foi, certamente, livro de leitura obrigatória para o padre Januário.

Os dias da despedida foram curtos. Hospitalizado no dia 4, no hospital de Santa Maria da Feira, faleceu na manhã seguinte, dia 5 de Abril de 2024.

Deixo para memória final, o termo de um seu poema, onde imortaliza as palavras sábias de Mahatma Gandhi.

Ser padre é querer seguir.
Esta sentença a valer?
Quem não vive para servir,
não serve para viver.

A quebrar o costumeiro, o corpo do missionário repousa no cemitério de Romariz, na terra que o viu nascer.

Imorredoira é a alma do padre poeta da Voz da Missão.

 

Manuel Vilas Boas é padre católico e jornalista da TSF

 

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