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Escrituras e Violência (1)

| 21/08/2023

Bíblia Alemã

Gravura de Gustave Dore. Bíblia de 1865. Edição alemã, Stuttgart

Existem imensas passagens da Tanah (Bíblia hebraica) cuja leitura cuidadosa suscita em nós algum desconforto e até dificuldades de interpretação. Ao longo dos séculos, desde a época da Patrística, muitos têm vindo a tentar conciliar as práticas (ética) e imagens acerca do Deus descrito em muitas das passagens do Velho Testamento com os ensinos e pensamento de Jesus acerca do Seu Pai. Textos que nos falam de genocídio, de matanças, de estupros, de canibalismo, de ódio e de vingança são hoje absolutamente incompatíveis à luz dos ensinos de Jesus e de Paulo, cujo pensamento se assentam essencialmente no amor e na graça de Deus. Um dos textos que poderemos analisar é o que se encontra no segundo livro de Reis 2:23-24

“Dali subiu para Betel. Enquanto caminhava, saíram da cidade alguns rapazitos, que se puseram a zombar dele, dizendo: «Sobe, careca! Sobe, careca!» Eliseu virou-se para trás, viu-os e amaldiçoou-os em nome do SENHOR. Imediatamente saíram da floresta dois ursos e despedaçaram quarenta e dois daqueles rapazes.”

Este texto da maldição e morte dos meninos não é tão ambíguo como alguns tradutores parecem querer ver que seja. Alguns traduzem o original “qëtanym unëårym” por rapazes, adolescentes quase a evitar o desconforto do significado original, crianças de pouca idade, meninos. A própria Septuaginta, a versão grega do velho testamento mais utilizada pelos evangelistas e por Paulo, traduz no mesmo versículo “paidaria micro” pequenos rapazes, crianças pequenas. Mas mesmo que aqui se tratasse de jovens, estaria aqui em causa a vida do próprio profeta? O texto não o diz explicitamente, indicando somente que estes injuriavam verbalmente o profeta, algo que não justificaria o recurso à maldição em nome de YEHOVAH, e que cuja consequência desembocou na morte violenta e horrível daqueles jovens.

Se nos socorrermos de uma leitura literal dos textos, ao usar, por exemplo, as regras básicas de interpretação bíblica do método gramático-histórico e que tem como objetivo captar o significado e intenção original do autor, a leitura de determinados textos podem criar algumas dificuldades hermenêuticas ao leitor contemporâneo. Como conciliar muitas destas práticas chocantes e cruéis – e aqui entramos no campo da ética – com os ensinamentos de Jesus à luz da imagem que ele nos transmitia acerca do seu Pai, que é essencialmente um Deus de amor, de misericórdia, e de graça? Através da leitura literal dos textos, advogarão alguns, poder-se-á justificar tais práticas à luz da soberania e justiça de Deus. Deus é um Deus que dispõe livre e soberanamente da sua criação. Ele é um Deus “zeloso e ciumento e que castiga a iniquidade dos pais e dos seus filhos até à terceira e quarta geração” (Êxodo 20:5), que ordena a Josué a matança de populações inteiras incluindo crianças e animais – prática bélica conhecida por Harem (Josué 10,6-8.40-42), que institui a prática do talião, olho por olho, dente por dente (Levítico 24:19-20), etc. Não é de excluir que muitas destas práticas tenham como fundo uma influência cultural que em nada diferiam das dos povos circundantes à volta do povo de Israel, como os assírios, os caldeus. As escrituras são certamente influenciadas por muitas das práticas sociais e cultura na altura em que foram compostas e, para a compreensão dos textos, importa ter em atenção o seu contexto histórico.

Alguns pais da igreja, principalmente os alexandrinos, confrontados com todas as problemáticas e desconforto inerentes a estes textos, começaram a interpretá-los alegoricamente (Clemente e Orígenes), numa tentativa de resolver o problema da violência usada e sancionada em nome de Deus. Mas por vezes não existe volta a dar, muitos destes os textos pretendem relatar fatos reais que os autores pretenderam transmitir. Como encontrar então uma solução? Uma das propostas que ultimamente tem vindo a ganhar força nos exegetas mais recentes é a do método hermenêutico de Jesus e de Paulo. Podemos ver ao longo dos evangelhos, e especialmente no célebre sermão do monte proferido por Jesus, que o mestre desconstrói muito da violência dos textos da Torá. “Ouvistes o que foi dito aos antigos” … “eu, porém vos digo” é o mote que Jesus emprega muitas vezes nesse discurso que, escandalosamente ab-roga a lei de Moisés dada pelo próprio de Deus. Podemos dizer, quase literalmente, que Jesus desarma as próprias escrituras, alterando-as e melhorando-as. Outra passagem emblemática é a de Lucas 4:18, em que Jesus ignora pura e simplesmente o final da passagem de Isaías 61:1-2, “o dia da vingança de Deus” e a outra, a do pedido dos discípulos de mandar fogo do céu para consumir os samaritanos (Lucas 9:54) – cujo paralelismo é a passagem de Elias que manda fogo dos céus para consumir os guerreiros do Rei Acazias e os profetas de Baal, conforme descritas em 2 Reis 1-10 e 1 Reis 18 – e que desembocou numa reação violenta da parte de Jesus contra eles por “não saberem o que pediam”.

Jesus desconstrói as escrituras, reelabora-as, aperfeiçoa-as numa ótica de amor, de graça. Paulo mais tarde também o irá fazer, conforme os imensos exemplos na sua epistolografia. Por exemplo, na carta que ele escreve aos Romanos, Paulo, falando dos gentios, cita as escrituras hebraicas com o olhar da misericórdia, omitindo muitas sentenças sobre violência e vingança proferida acerca deles (Romanos 15). Esta proposta de leitura acerca das muitas passagens difíceis das sagradas escrituras terá certamente de passar pelo crivo da ética de Jesus, o qual via o Seu Pai como um Deus amoroso, cheio de misericórdias e de graça para com todos. Afinal, como proferiu Brian Zahnd, conceituado autor cristão, Jesus é o salvador de todas as coisas, inclusive das próprias escrituras.

 

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.

 

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