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Memorial da Vigília da Capela do Rato

Em 1972, contra a guerra e a opressão

Escultura que evoca vigília da Capela do Rato será inaugurada dia 25 em Lisboa

Memorial da Vigília da Capela do Rato

Antevisão, gerada por computador, do Memorial da Vigília da Capela do Rato. Foto © Cristina Ataíde.

 

A escultura-memorial que evoca a vigília da Capela do Rato de 1972, contra a Guerra Colonial, será inaugurada na próxima segunda-feira, 25 de Março, às 18,30h, no Jardim das Amoreiras, em Lisboa – soube o 7MARGENS em primeira mão.

Localizada a poucos metros daquele templo onde um grupo de católicos organizou um tempo de oração, reflexão e denúncia da guerra, a obra de arte é da autoria de Cristina Ataíde. A artista sentiu como “irrecusável” o convite que lhe foi feito pela Comissão Comemorativa 50 Anos do 25 de Abril para conceber “uma obra pública em Lisboa, num sítio tão especial como o Jardim das Amoreiras, a propósito de um acontecimento tão importante para a conquista da democracia como a Vigília da Capela do Rato”, como referiu ao 7MARGENS no final de Dezembro.

O memorial, como já aqui avançámos, mostra dois muros lisos, intransponíveis e inclinados, não paralelos. Ambos limitam um espaço interior com seis êmbolos a afastarem as duas pedras uma da outra. Um chão de palavras remete para o que pode romper a ideia de sufoco e opressão sugerida pelas duas paredes de muro: paz, democracia, liberdade, justiça, diversidade, união, esperança…

“Vivíamos num tempo em que tínhamos paredes que nos comprimiam, muros que nos tapavam e um grupo de cristãos e de outras pessoas, todos de uma força incrível, resolvem unir esforços para derrubar, alargar, abrir estes muros horríveis que nos continham”, dizia Cristina Ataíde ao 7MARGENS, explicando a sua obra, que evoca a vigília como esse movimento de empurrar os muros que a vigília significou. Uma ideia traduzida por Cristina Ataíde na memória descritiva do memorial: “A escultura tem um corpo central, constituído por dois muretes em mármore de Vila Viçosa que criam uma passagem estreita e afunilada. São dois muros fortes, mas inclinados, simbolizando o poder opressor estabelecido, mas já em queda. Entre os dois muros, encontram-se êmbolos em aço inoxidável que remetem para as forças populares que empurram esses poderes e os tentam afastar, empurrar, derrotar, criando a desejada liberdade.”

 

Palavras que foram ditas e queremos lembrar

Memorial da Vigília na Capela do Rato, Guerra Colonial

O memorial, poucos dias antes de ser inaugurado: as palavras no chão “remetem para o que se quis conquistar naquela altura”. Foto © Isabel Duarte

As palavras inscritas no chão também são importantes e significativas. “Remetem para o que se quis conquistar naquela altura, para o que se conquistou e para o que queremos continuar a manter, porque há ideias e realidades que são difíceis de manter, algumas tão fundamentais como a democracia ou os princípios éticos”, afirmou a artista em Dezembro. Não há palavras como guerra, opressão ou ditadura. “Não é isso que queremos, queremos o contrário. E, claro, deixei escrito, pelo menos em dois sítios, ‘Vigília da Capela do Rato’. A palavra é algo que nos faz parar, pensar, focar. A palavra levanta questões, propõe pistas. Numa peça pública como esta, que será vista por muita gente, é importante que o conceito-base esteja explícito, não deixe dúvidas… e a palavra tem essa vantagem. Por alguma razão ‘no princípio era o Verbo’…”

Na memória descritiva, Cristina Ataíde acrescentava: “A base onde assenta a escultura é também em mármore e tem duas zonas distintas. Entre os muros, o revestimento é liso e baço, um caminho já percorrido. Nas duas zonas exteriores e envolventes do corpo central, um caminho NOVO, as placas do chão, também em mármore, têm palavras que foram ditas durante a Vigília e que queremos lembrar: PAZ, LIBERDADE, DIREITOS, MUDANÇA…, assim como palavras (sempre na positiva) que nos façam pensar o que queremos defender. Palavras que se devem manter presentes para podermos viver em Liberdade e Democracia. Toda a escultura pode ser percorrida pelos visitantes, interagindo com ela.”

A vigília na Capela do Rato iniciou-se no sábado, 30 de Dezembro de 1972, após a missa celebrada na Capela do Rato às 19h. Maria da Conceição (Xexão) Moita chegou ao altar e anunciou o início da vigília. No dia seguinte, a PIDE, a polícia política do regime ditatorial do Estado Novo, invadiu a Capela. Várias pessoas foram detidas e interrogadas. Na então Assembleia Nacional os deputados Francisco Sá Carneiro e Miller Guerra, que integravam a chamada Ala Liberal, protestaram contra a atitude das autoridades e acabaram por deixar o cargo semanas depois, em grande parte por causa disso.

Memorial da Vigília na Capela do Rato, Guerra Colonial

A instalação do Memorial da Vigília na Capela do Rato contra a Guerra Colonial, da autoria de Cristina Ataíde, poucos dias antes da inauguração. Foto © Isabel Duarte

 

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