Escutar a morte entre câmaras e microfones

| 23 Fev 19

Em Guimarães, decorre até domingo, dia 24, o congresso A Morte – leituras da humana condição; o jornalista Manuel Vilas Boas interveio na mesa redonda sobre A decisão jornalística: Quando a morte (não) é notícia; aqui se regista o texto da intervenção.  

 

E por que não detalhamos criteriosamente todos os pormenores do nosso funeral? A provocação segue dentro de momentos.

E por que não gostamos da vida? O melhor que temos deste mundo a que chegamos, sem que nos pedissem licença.

Escapamos, porventura, a uma infância desvalida, traumatizada por fome escondida, a engolir perguntas sem resposta, à espera de um futuro incerto, ou filhos de uma riqueza não esforçada, herdada de uma burguesia assinada na história e feliz agora por uma democracia militante. Andamos, qualquer que seja o nosso ADN, a atravessar ruas de um mundo complexo, instalado nas vertentes de montanhas de egoísmo solitário, como se fôssemos os únicos habitantes desta pantomina.

Somos passageiros sem autonomia roubados por usurpadores de liberdades que, sem marchas de sentido contrário, nos acarinham a condição humana. Contra todas as evidências, arrastam-nos para o precipício que nos nega o espaço da convivência pacífica, como se não tivéssemos o direito de não sermos incomodados por qualquer atraso de inteligência.

Será que estamos condenados a consumir este mundo estreito de arrogância que nos barra caminhos, soltos da tacanhez, da ignorância e da imbecilidade? Castram-nos a percepção do quotidiano como se fôssemos possuídos pelo fatalismo. Andamos à pressa, sem rumo, distantes dos ditames da história. Que amargo de boca esta vida que levamos do deitar ao levantar, entregues à incerteza da resistência! Perdemos a paciência, tantas vezes, de modo tosco, e não ganhamos para o susto que, tantas vezes, nos reconduz à normalidade. Que madrasta de vida é esta, conduzida por lampejos de originalidade, mas que conferida com a realidade nos deixa na ponta do catavento.

Perguntamo-nos para onde vamos? E, quando vamos, abre-se o empecilho da comunidade talhada supostamente para nos proteger. Interrogo-me nesta linguagem semi-encriptada para dizer e reafirmar que não consinto que me estraguem o melhor que me foi dado, esta vida atravessada de laços de sangue, de solidariedades múltiplas, de cargas de amor, de desejos de eternidade.

No histórico carrego sete décadas de doação a um jornalismo de causas e à causa da condição humana. Incomoda-me a pretensa liberdade que paira na praça pública, tecida de redes de todas as dimensões, mas incapazes de dar lugar a vozes solidárias, construtoras de espaços que conduzem ao isolamento. No mar imenso dos projetos digitais, executamos papéis de incomunicação, rasurados de ruídos avassaladores.

Que morte diária traçamos para a ânsia de tomarmos a vida nas mãos? Se não estamos satisfeitos com a ciência que nos deslumbra, que marchas nos impomos para afastarmos a condenação que paira sobre nós antes do fim?

Se tivesse de descer a um ponto de existência numa aldeia ou cidade e, na impossibilidade de querer vencer a guerra, sem eliminar batalhas, não consentiria aqui também o tratamento miserável, porque o novo nos é contado. Não se podem permitir sons tonitruantes a espalhar nas pedras da calçada, o escorrer a cada minuto, sem cessar do sangue da traição, da ameaça, da violência de casa, dos tumultos de rua.

Para que precisamos de notícias vendidas por soldados da paz, apressados, nas suas saídas, e nos entregamos a debates coloridos de impreparação, fanatismo e deseducação? Por que somamos páginas de sexo mal contado, desafiando leis de matéria incumpridora?

Quando há quinze anos, demorei os meus dias como presidente do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas, tomei consciência que a maioria dos jornalistas portugueses, da deontologia profissional cuidavam muito pouco, manifestando muitas vezes supina ignorância, partilhada pelos superiores hierárquicos, na medida ascendente do poder. Também a ética jornalística morava em escaninhos perdidos no conhecimento e na rejeição.

A morte, a morte de uma pessoa está a dois passos da notícia mal calculada, injectada de mentiras, feitas à medida para matar e não há contraditório que valha. Dificilmente se poderá restaurar, com eficácia o tecido roto, a personalidade maltratada, o património do bom nome e respeito a que todos temos direito. E não há retorno. A mentira repetida é verdade acreditada. Anda por péssimos caminhos o jornalismo que se lavra no nosso país. Jornais sem rigor profissional. Rádios pouco criativas e espreguiçadas em crónicas baratas, sem análise crítica. Televisões, algumas de vãos de escada, são visita permanente de morgues, interpostas empresas de amanho de túmulos, como se nunca estivesse em causa a presença de seres humanos revestidos de dignidade e habitados de laços fraternos. Nunca se poderá confundir o polícia e o magistrado com a tarefa de colocar nos olhos e nos ouvidos de todos este mundo que passa. Corremos o risco de sermos coveiros da esperança apertada que nos envolve.

Para que servem sindicatos de que estão ausentes as novas gerações? Que liberdade perpassa por dentro das redações? De quem é a responsabilidade de fragilidades constantes, encostadas a stand upsnervosos?

Não me retiro sem olhar o despudor, sobretudo de câmaras indiscretas, em cima dos cortejos fúnebres, onde vale tudo menos o silêncio de quem partiu. As emoções incontidas de quem ficou. Um universo de sofrimento, em microfones e ecrãs ao desbarato, à guarda imposta pelo código deontológico da divulgação de sons e imagens de crianças e de adultos em público ou privado.

A morte não pode ser um campo aberto de ceifa de sentimentos da dignidade humana porque essa derradeira viagem está a todos reservada. Depois desse ato singular e único nunca falaremos de nós, uma verdade assinada, certamente, por La Palice, terminam ali as nossas últimas vontades. Respondem a isto muito saberes que aqui iremos escutar, neste congresso.

Aquela provocação que deixei no início deste texto, que acabo de ler, não é demais ninguém do que Platão, o filósofo ateniense do séc. IV a.C., um racionalista no universo intrigante da filosofia. Segundo ele, ao pensarmos na nossa morte, consciencializamos a existência da vida. É o pensamento na morte que define a nossa vida, nos indica o rumo, nos faz viver melhor, dar mais valor a cada momento.

Quem vai estar na nossa despedida? Ele, Platão diz-nos, que no silêncio inevitável desse momento lá estaremos, todos, num silêncio de morte, certamente!

A proximidade desse momento experimentei-o eu quando, após uma operação às carótidas, o médico me disse: “Livrou-se tão só de sete palmos de terra em cima.”

Chamo para aqui as palavras de Karl Lagerfeld, diretor criativo da Chanel, morto há dois dias: “Tudo começa comigo e tudo acaba comigo.” E esta é a minha última provocação.

Guimarães, 21/02/2019

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