Escutar, acompanhar e ajudar

| 29 Jul 19

Há uns dias a liturgia católica de Domingo convidava-nos e aprofundar o encontro de Jesus com Marta e Maria (Evangelho de Lucas 10, 38-42). Há nesse encontro um convite à disponibilidade interior que vulgarmente chamamos de “escuta”. Marta e Maria dizem-nos que a escuta precede a ação e a amizade precede o serviço. Estamos também nós “aos pés do Senhor” como “escutadores” que querem aprender do Mestre. Aprendemos com Maria que ser discípulo missionário é ser ouvinte; aprendemos com Marta que a hospitalidade está mais na atenção e disponibilidade que damos à Presença do que o muito que nos atarefamos.

Escutar será sempre a condição fundamental para acolher a vida. Quem não desenvolve essa disponibilidade dificilmente se encontra, nos percursos da vida, com os acontecimentos e as pessoas que vão aparecendo e desaparecendo. Talvez a escuta seja a atitude fundamental de Jesus. Escuta os anseios e as dores, as motivações e os dramas, as circunstâncias mais íntimas ou mais tradicionais. A escuta faz-se mesmo quando não se ouve o dizer do outro, mas quando se consegue entrar no seu mundo e se quer ajudar a entender esse mundo na sua vida. Escutamos mesmo quando o outro não se diz verbalmente.

Há em mim um desafio constante à escuta. O silêncio e a meditação têm sido essa oportunidade para treinar o ouvido na escuta do coração. Nas atenções do dia-a-dia, entre burocracias de cartório, acolhimento e celebração da reconciliação, encontros e conversas ocasionais, visitas a pessoas doentes ou em situação de fragilidade e vulnerabilidade, celebrações de fé ou diálogos entre conversas de café… um sem fim de situações onde o perigo é sempre o não-escutar e o não estar… ali e agora. Faz bem escutar o silêncio, escutar-nos no silêncio e escutar Deus no silêncio do mundo para que o mundo seja mais presente em mim.

Tenho pensado na oportunidade pastoral de um Centro de Escuta. Existem já alguns, poucos, em Portugal. Em Itália é muito comum em paróquias e existem, a partir dos padres camilianos, algumas iniciativas em contexto de saúde, como os Centros de Humanização da Saúde. Um Centro de Escuta é uma interpelação forte na vida de uma comunidade porque no meio de tudo aquilo que de bem se faz, escapa-nos muitas vezes a disponibilidade para, livre e gratuitamente, querer escutar o outro como princípio de qualquer relação de ajuda e acompanhamento. Muitas vezes, imbuídos de um certo ativismo voluntarista, perdemos uma certa habilidade, disposição e competência para o acompanhamento do outro.

É uma contradição, talvez irónica, num tempo no qual sinto cada vez mais pessoas a quererem ser acolhidas e escutadas, que a nossa resposta eclesial não acompanhe uma atitude pastoral de escuta e propostas de relação de ajuda e acompanhamento. Centros de escuta, de espiritualidade ou vocacionais não são um devaneio pastoral mas serão a forma própria de a Igreja acolher e fazer-se próxima da vida das pessoas. Talvez vivamos, até estatisticamente, a consequência de um estilo mais controlador da ortodoxia dos costumes do que acompanhante de situações de vida.

A nossa vida é feita de escolhas, umas maiores do que outras. Escolher a boa parte como Maria – ou até a melhor parte – não tem que ser, necessariamente, um ativismo desenfreado e produtivo. Muitas vezes somos Martas, agitados e atarefados, navegantes num mar revolto de afazeres no qual corremos o risco de submergir porque não conseguimos respirar na agenda que nos escraviza. Maria dispõe-se naquela condição fundamental para aprender caminhos e rumos: quer escutar. Ela não escolheu a melhor parte porque talvez seja difícil qualificarmos e compararmos as nossas opções, mas escolheu a “boa parte”, porque uma escolha livre e verdadeira há de ser sempre aquela que opta pelo Bem.

Escutar, acompanhar e ajudar será sempre o desafio de uma Igreja que se quer mais peregrina do que sedentária, e de pastores que vão mais lado-a-lado do que se colocam na cátedra dos julgamentos.

 

João Alves é padre católico da diocese de Aveiro e pároco da paróquia da Vera-Cruz

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