[Debate 7M: A Igreja e os média-15]

“Escutar com o ouvido do coração”

| 4 Jun 2022

Na intervenção que foi convidado a fazer na conferência sobre os abusos sexuais de dia 10, o jornalista João Francisco Gomes teceu várias críticas ao modo como a Igreja Católica se relaciona com os média em Portugal. Depois de ter publicado esse texto na íntegra, e também tendo em conta o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que a Igreja Católica assinalou no último domingo, 29 de Maio, o 7MARGENS convidou vários jornalistas que têm acompanhado a informação religiosa com alguma regularidade a escrever um depoimento sobre o tema. A seguir, o contributo de Henrique Matos, jornalista da Agência Ecclesia.

Henrique Matos, Ecclesia

Henrique Matos, da Ecclesia: “Espera-se que o espírito sinodal da escuta e da partilha inspire também a relação com os jornalistas.” Foto: Direitos reservados.

 

No ano passado, o Papa pediu-nos para “ir e ver”. Desafiava os jornalistas a gastar a “sola dos sapatos”, a sair das redações para no terreno, observar e cheirar os acontecimentos. Só assim, para Francisco, era possível absorver a essência da realidade para depois a relatar de forma autêntica.

Desta vez, a propósito de mais um Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Papa eleva a fasquia, e propõe “escutar com o ouvido do coração”.

O jornalismo, a formação mais elementar dos profissionais, promove a isenção, o distanciamento que evita tomar partido, a recusa de tudo o que é “paixão” que possa inquinar o processo de recolha dos factos. Nada mais certo e necessário; porém, o Papa coloca desta vez o coração no processo, e este, é habitualmente conjugado com a paixão e a emoção.

A abordagem não é teórica e adquire para mim um interesse particular. Há algumas décadas que trabalho em órgãos de informação ligados à Igreja Católica. Sou jornalista pelo que faço e no rigor que procuro para o meu trabalho, mas sei que piso terrenos onde os factos são sempre mais do que simples acontecimentos. Traduzir em televisão, na rádio ou na escrita o fenómeno religioso, a forma como as pessoas vivem e expressam a fé é desafiante e, para ser sério, requer sensibilidade.

Percebi que essa “sensibilidade”, essa chave de leitura, é o tema que o Papa nos propõe. Como ele escreve, não devemos pôr o coração no ouvido, mas sim, escutar com o ouvido do coração. E isto não é tomar partido, não é transformar a profissão em apostolado, é ser rigoroso perante o que acontece à nossa frente. Um rigor que sabe ler além das evidências e tenta alcançar o que brota de regiões íntimas e profundas de cada um, a fé.

E como em qualquer setor de atividade, também no jornalismo existem doenças profissionais. A “surdez do coração” que o Papa refere, será talvez uma das formas mais graves. Reconheço que os anos que se levam a narrar acontecimentos, as caras que já se conhecem há muito, a instituição que já não nos surpreende, a rotina que todos os anos nos faz regressar aos mesmos lugares, podem representar fatores de risco a que devemos estar atentos. Essa “surdez” é também o preconceito que podemos carregar, a tentação de interpretar a realidade pelo prisma de uma Igreja que desejamos “à nossa maneira”, a ausência da liberdade que nos possibilita a surpresa.

Mas o desafio do Papa é mais abrangente e a própria Igreja é alcançada por esta interpelação da escuta. Francisco recorre ao teólogo protestante Dietrich Bonhöffer para recuperar a citação: “Devemos escutar através do ouvido de Deus, se queremos poder falar através da sua Palavra.”

O exercício da escuta e da humildade será determinante para uma Igreja que quer comunicar com o mundo através de um diálogo que passa também pela relação com os média.

Pede-se uma Igreja mais aberta e sem receio de assumir fragilidades; será assim também mais genuína e credível.

Espera-se que o espírito sinodal da escuta e da partilha inspire também a relação com os jornalistas. As suas questões e insistências não são simples ataques ou má vontade, são também os questionamentos e as interpelações dos homens e mulheres do nosso tempo.

 

Henrique Matos é jornalista da agência Ecclesia, onde acompanha a informação sobre a Igreja Católica.

 

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