Dioceses portuguesas abriram Sínodo

Escutar sem filtros insatisfações e expectativas do mundo sobre a Igreja

| 18 Out 21

D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga. Foto © DACS (Departamento Arquidiocesano para as Comunicações Sociais)

 

Na Arquidiocese de Braga não haverá assembleias sinodais, mas, em contrapartida, haverá uma forte aposta na multiplicação de pequenos grupos nas paróquias, comunidades e movimentos, com a tarefa de “escutarem o que o Espírito Santo diz à Igreja” através dos seus membros e, também através daqueles que andam longe ou nas suas margens.

Esta foi uma ideia forte que sobressaiu na celebração de quase duas horas na tarde deste domingo, 17, que reuniu na sé catedral representantes e responsáveis dos vários conselhos diocesanos, das ordens religiosas, movimentos laicais, irmandades e confrarias, etc. O templo estava composto mas longe de uma enchente, nesta cerimónia que marcou o início do Sínodo da Igreja Católica convocado pelo Papa Francisco, que culminará na assembleia de bispos, em 2023.

No final da celebração, o P. Tiago Freitas explicou o sentido e alcance desta convocatória do Papa e de todo o processo sinodal que está a iniciar-se. Referiu a filiação deste caminho nos papas João XXIII e Paulo VI e no espírito e decisões do Concílio Vaticano II. Admitiu, na linha de outros analistas, que, a correr como o desejado, este processo poderá tornar-se num “momento único na história recente” da Igreja Católica, podendo vir a ter um impacto análogo ao do próprio Concílio.

Sobre o caminho sinodal de Braga, referiu que a equipa de contacto, nomeada pelo arcebispo, não se pretende nem representativa nem orientadora, mas facilitadora e dinamizadora do processo de escuta. Sublinhou, por outro lado, que no processo que vai começar, não há nem respostas certas (ou erradas) nem uma agenda de assuntos pré-estabelecida, contando sobretudo a própria experiência de escutar e ser escutado em comunidade.

Na homilia da celebração, D. Jorge Ortiga estabeleceu um paralelismo entre o espírito sinodal, em que o sujeito é o povo de Deus e um modelo de Igreja que vigorou durante séculos, “mais ou menos de índole piramidal e de estrutura de sociedade perfeita onde tudo acontece e se idealiza a partir de uns tantos pré-escolhidos”. “Temos sido conduzidos por pastores dotados de autoridade divina e agora as exigências de uma nova era mostram que o povo de Deus tem de interpretar a responsabilidade que Deus lhe concede. Devemos passar da passividade e obediência a um compromisso co-responsável no pensar e no agir”, disse.

O arcebispo afirmou ainda que ninguém vai dizer a ninguém como agir e que, “no processo de tomada da palavra por parte dos cristãos”, o referencial são os dois documentos enviados do secretariado-geral do Sínodo (impressos e já à venda, ainda que também disponíveis na página do processo sinodal) e cuja leitura recomendou.

Os trabalhos de escuta decorrerão até meados de março de 2022 e as sugestões e propostas que deles saírem serão enviados à comissão de contacto, sendo depois tratadas de dois modos: será feito um trabalho de tratamento integral que servirá de referencial para o futuro da arquidiocese e será também feito um resumo, que a diocese enviará para o Vaticano.

D. Jorge Ortiga afirmou desejar que muitos daqueles que não andam pelos ambientes eclesiais, mas “se interessam minimamente por estas coisas”, não tenham medo de fazer chegar as suas ideias, ainda que não se saiba por enquanto por que canais ou de que modo o devem fazer.

Dirigindo-se ao interior da comunidade arquidiocesana, o prelado apelou: “Vamo-nos ouvir mas abramos, também, os ouvidos ao mundo. Não são suficientes os nossos raciocínios intra-eclesiais. Teremos de sair e não basta sair para ouvir como cronistas. Precisamos de sair para ouvir a voz do mundo a partir de dentro. Deixemos que ele fale e nos aponte as nossas incoerências e infidelidades. Pode custar muito e poderemos não ter vontade de o ouvir. Mergulhemos no mundo e deixemos que manifeste as suas insatisfações e expectativas. Não coloquemos filtros.” E acrescentou: “Saiamos das nossas zonas de conforto. Já estamos cansados de ouvir as nossas vozes e as nossas apreciações. Escutemos e, sobretudo, inventemos maneira para que o façam.”

A equipa de contacto da Arquidiocese de Braga é constituída pelos padres Sérgio Torres e Tiago Freitas, que coordenarão, por Vânia Pereira, irmã Emília Almeida, Isabel Filgueiras, Isabel Cunha, Cristóvão Andrade, André Cardoso e Marta Vilas Boas e ainda pelo bispo auxiliar, D. Nuno Almeida.

 

Envolver todos e escutar todos

Abertura na diocese de Viana: “Todo o povo, crente ou não crente, toda a gente, de todas as classes e situações”, se deve envolver no Sínodo da Igreja Católica. Foto © Diocese de Viana do Castelo.

 

Na outra diocese minhota, vive-se entretanto uma situação peculiar: o novo bispo só dará entrada em Novembro, mas isso não impediu que o administrador apostólico, padre Sebastião Pires Ferreira, presidisse também à eucaristia de abertura do Sínodo. “Todo o povo, crente ou não crente, toda a gente, de todas as classes e situações”, se deve envolver na caminhada sinodal, afirmou, de acordo com um comunicado enviado ao 7MARGENS.

No centro do país, o cardeal António Marto, bispo de Leiria-Fátima, apelou ao “discernimento comunitário” para enfrentar as “tentações do clericalismo, da rigidez e do sectarismo” e encontrar “consensos num processo espiritual de escuta”, numa comunidade convidada “a passar de um modelo de Igreja clerical, a um modelo sinodal, baseado na corresponsabilidade de todos os fiéis leigos, fiéis padres, fiéis bispos, e fiel sucessor de Pedro”. A meta, acrescentou, é “uma Igreja missionária, de portas abertas e em direção às periferias”, contrariando o hábito de dizer “vinde à Igreja”, quando Jesus disse “ide”. “Até o Papa Francisco diz que a Igreja tem Jesus prisioneiro e ele quer sair, quer ir às periferias”, afirmou, citado pela Ecclesia.

Em Setúbal, o bispo da diocese e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, José Ornelas, advertiu também contra o “carreirismo e conquista do poder” que se encontra na vida da Igreja, pedindo uma “diversidade dos dons e das funções” que “não pode ser uma razão de carreirismo e conquista de poder, mas de serviço fraterno”.

O bispo do Porto, Manuel Linda, pediu por sua vez um exame de consciência que vá “até às últimas consequências”. E deixou várias perguntas: as redes sociais fomentam “o clericalismo e o anticlericalismo” ou ajudam a “solidificar o sentido de “pertença”? Os cristãos participam numa “Igreja de diálogo recíproco ou unidirecional de comando/obediência”? E ainda: “Assumimos ou não a necessidade de uma conversão pastoral em chave missionária e ecuménica? Formamos ou não a fé para podermos intentar um diálogo cultural com setores que, quase sempre, agridem a Igreja por ignorância religiosa ou desconhecimento básico?

Em Bragança, D. José Cordeiro afirma que quer escutar também “outras realidades da pastoral antropológica e territorial: sociais, políticas, económicas e culturais”, bem como “outras pessoas que raramente são ouvidas: os pobres, os reclusos, os migrantes, as pessoas com deficiência, as minorias étnicas e as outras periferias existenciais e os gemidos da recente pandemia que são invisíveis na cidade, na vila ou na aldeia”.

Ao lado, em Vila Real, o bispo António Augusto Azevedo admitiu: “Alguns escândalos e divisões, que têm afetado a Igreja, a ausência de testemunho de muitos batizados (clérigos ou leigos), a inércia de algumas comunidades causam pena e vergonha. E advertiu para os “grandes obstáculos a uma Igreja mais sinodal e fraterna”: “O sentido do poder e do domínio”.

Em Aveiro, D. António Moiteiro afirmou que importa privilegiar o caminho agora iniciado, de “conversão” e “caminhar juntos”. “O Papa Francisco não nos pede resposta, mas antes que escutemos o Espírito para fazer caminho, que converta o nosso coração e nos torne mais Igreja. Não nos encontramos para resolvermos problemas, mas para mudarmo-nos, para nos convertemos e caminharmos juntos”.

No Funchal, o bispo Nuno Brás disse que o Sínodo mostra que ninguém é “insubstituível” e que “todos são indispensáveis” na Igreja.

 

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