Esfregar sal na ferida

| 28 Jan 2024

A nuvem nuclear sobre Hiroshima. Não se falou de Holocausto quando Hiroxima e Nagasaki foram bombardeadas e pelo menos 100.000 pessoas instantaneamente mortas. Foto: Direitos reservados

 

Tenho-me perguntado muitas vezes o que estará na origem da escolha do pior horror nazi como termo de comparação para o que Israel – ou o governo de Netanyahu – está a fazer em Gaza (*).

De onde vem esta facilidade (talvez até: este prazer?) em dizer “Holocausto” quando falamos dos crimes cometidos por Israel?

Não me lembro de ver esse epíteto aplicado aos bombardeamentos do Reino Unido e dos EUA na Segunda Guerra Mundial. Entre outros: Hamburgo (34.000 vítimas mortais em 10 dias), Dresden (25.000 num dia só), Hiroxima e Nagasaki (pelo menos 100.000 pessoas instantaneamente mortas). Não se disse que o agente laranja – que ainda hoje contamina o solo e é responsável pelo nascimento de crianças com gravíssimos problemas de saúde – era o Holocausto dos vietnamitas. Quando, no ano 2000, Grozni foi destruída praticamente até à última casa, sem qualquer respeito pelas vidas civis (chegaram a bombardear o corredor humanitário), não se falou em Holocausto, nem ninguém chamou nazi ao comandante dessa “operação contra o terrorismo”, Vladimir Putin. Apesar de haver tantos paralelos entre o actual horror de Gaza e o que Putin fez recentemente nas cidades sírias ou em Mariupol (lembram-se de Mariupol? a maternidade bombardeada, a mulher em trabalho de parto a ser levada de maca para outro local, onde mãe e filho acabaram por morrer, o ataque ao centro de transporte de refugiados, o corte no fornecimento de água, electricidade, comida e medicamentos, os pseudo-corredores humanitários, a deportação forçada de milhares de crianças para a Rússia, as pessoas a comer animais vadios e os animais vadios a comer cadáveres humanos que ninguém podia enterrar dignamente), não se generalizou a ideia de que ali estava a acontecer um Holocausto.

Também não acontece quando se denuncia a esterilização das mulheres uigures, e os campos de reeducação e trabalho forçado para esse povo, na China, ou o genocídio dos Rohingya em Myanmar, ou o genocídio dos Yazidi às mãos do Daesh.

Esses casos, que são contemporâneos da tragédia Israel/Palestina, são mencionados como crime de guerra, genocídio, crime contra a Humanidade. Mas quando se fala de Israel, rapidamente entram em cena as palavras “nazi” e “Holocausto”.

Porque será?

Há dias, em conversa com um amigo alemão, ele comentava que a acusação feita nestes termos nos alivia da nossa vergonha. Quando, na Alemanha, se diz que Israel (ou o governo de Israel) se comporta como o regime nazi, e se compara os bombardeamentos de Gaza ao Holocausto, está-se a constatar que afinal “os judeus são iguais aos alemães”. Também eles são capazes de cometer esses horrores. Não um horror equiparável a outros que infelizmente continuam a deflagrar no nosso mundo, mas aquele a que chamamos o horror absoluto, esse que mais choca e envergonha historicamente a Alemanha.

 

Auschwitz; Holocausto

Óculos das pessoas assassinadas no campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau (1941-1945). “Na Europa somos também herdeiros de uma tradição milenar de anti-semitismo.” Foto © Paweł Sawicki, Auschwitz Memorial

 

Parece-me que esta análise faz sentido. E acrescento a minha própria leitura, que é sobretudo um alerta. Acredito que, à semelhança do racismo que existe em nós mas dificilmente detectamos nos nossos comportamentos, na Europa somos também herdeiros de uma tradição milenar de anti-semitismo: desconfiança, rejeição, desprezo e humilhação dos judeus. Penso que é esse antiquíssimo hábito de humilhação dos judeus que nos leva inconscientemente a disparar “nazi” e “Holocausto” quando criticamos os crimes do Estado associado a este povo. Porque, no caso concreto dos judeus, estas palavras ferem muito mais do que as outras que escolhemos para criticar os horrores de Grozni e Mariupol, de Hiroxima e Nagasaki.

Que fazer, então?

Há um truque simples para evitar a armadilha dos reflexos condicionados pelo anti-semitismo e pela vergonha que nos dominam: manter o foco nos factos, independentemente do povo ao qual pertencem os seus autores. Falar dos crimes de Netanyahu em Gaza como falámos dos crimes cometidos por outros, nomeadamente Putin ou Xi Jinping. Atenção ao tempo verbal: falámos, ou seja, há que ter o cuidado de verificar qual foi o termo de comparação a que recorremos no passado para nos referirmos a crimes de guerra e a crimes contra a Humanidade cometidos por outros Estados que não Israel.

Ou então, ainda mais fácil: pura e simplesmente não se servir do Holocausto como termo de comparação.

 

(*) Não me entendam mal: sei, como sabemos todos, que o que está a acontecer em Gaza é um horror que brada aos céus, uma terrível sucessão quotidiana de crimes de guerra, um enorme crime contra a Humanidade. E está a acontecer com o apoio de países como a Alemanha e os EUA, e com armas pagas pelos contribuintes desses países. Também sei que o Hamas mostrou a sua face sem máscaras no dia 7 de Outubro, e que, se pudesse, faria em Israel o que Israel está a fazer em Gaza. De ambos os lados se encontra o mesmo ódio e o mesmo desejo de expulsar o outro povo. Penso que Israel tem direito à autodefesa, mas não o tem direito de roubar e oprimir os palestinianos como tem feito durante décadas à revelia das regras do direito internacional. E que a compactuação dos países ocidentais com este processo de ocupação crescente põe em causa a imagem que têm de si próprios como missionários dos Direitos Humanos. Sim, Israel tem direito à autodefesa – mas não nos moldes desta guerra. Todos sabemos que Israel recorreria a meios bem diferentes para exercer o seu direito de autodefesa caso os túneis do Hamas corressem por baixo de uma cidade europeia, por exemplo. O desprezo pela vida dos civis palestinianos, bem patente no bombardeamento e na invasão de Gaza, é algo que escandaliza o mundo.

Que este escândalo sirva ao menos para toda a comunidade internacional se unir com firmeza e determinação, exigindo o cessar-fogo imediato, tanto ao governo de Netanyahu quanto ao Hamas. Ambos, já. Que haja consenso mundial para cessar o fornecimento de armas a ambos, e para pôr imediatamente em marcha o processo para a criação de dois Estados, nas fronteiras anteriores a 1967, com autonomia para Jerusalém e com forças militares da ONU a garantir a paz e o respeito da lei internacional para todos.

Helena Araújo vive em Berlim e é autora do blog Dois Dedos de Conversa, onde este texto foi inicialmente publicado. 

 

Corpo de Alexei Navalny já foi entregue à mãe

Nove dias após a sua morte numa prisão russa

Corpo de Alexei Navalny já foi entregue à mãe novidade

O corpo do líder da oposição russa, Alexei Navalny, foi entregue à sua mãe, informou ontem, sábado, Ivan Zhdanov, diretor da Fundação Anti-Corrupção de Navalny e um dos seus principais assessores na sua conta de Telegram. O responsável agradeceu a “todos” os que apelaram às autoridades russas para que devolvessem o corpo de Navalny à sua mãe, citado pela Associated Press.

Bispos católicos belgas vão debater sacerdotes casados e mulheres diáconos

Como preparação para a segunda sessão do Sínodo

Bispos católicos belgas vão debater sacerdotes casados e mulheres diáconos novidade

Os bispos católicos da Bélgica enviaram às dioceses e comunidades locais do seu país uma carta no dia 16 de fevereiro sugerindo a reflexão sobre dois temas ministeriais, a ordenação sacerdotal de homens casados e a instituição de mulheres diaconisas, como forma de preparação dos trabalhos da segunda sessão do Sínodo dos Bispos, que decorrerá em Roma em outubro próximo.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Cristo Cachorro, versão 2024

Cristo Cachorro, versão 2024 novidade

Invejo de morte a paixão que os cartazes da Semana Santa de Sevilha conseguem despertar. Os sevilhanos importam-se com a sua cidade, as festas e com a imagem que o cartaz projecta, se bem que com o seu quê de possessivo, mas bem melhor que a apatia. Não fossem frases como “É absolutamente uma vergonha e uma aberração” e as missas de desagravo e o quadro cartaz deste ano teria passado ao lado.

“As estatísticas oficiais subestimam a magnitude da pobreza e exclusão em Portugal”, denuncia Cáritas

7MARGENS antecipa estudo

“As estatísticas oficiais subestimam a magnitude da pobreza e exclusão em Portugal”, denuncia Cáritas

Ao basear-se em inquéritos junto das famílias, as estatísticas oficiais em Portugal não captam as situações daqueles que não vivem em residências habituais, como as pessoas em situação de sem-abrigo, por exemplo. E é por isso que “subestimam a magnitude da pobreza e exclusão em Portugal”, denuncia a Cáritas Portuguesa na introdução ao seu mais recente estudo, que será apresentado na próxima terça-feira, 27 de fevereiro, na Universidade Católica Portuguesa do Porto.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This