
Visitação aos baús de família, à medida que o tempo e o esqueleto vão permitindo. É um espólio de diversas gerações feito de materiais que em si mesmo nada de valioso têm. Salvo excepções, é refugo que só o tempo torna precioso, porque indicia o que eram a família e a sociedade. Há fotografias de pessoas e paisagens, cartazes políticos, livros escolares, juvenis e infantis, de contabilidade, postais, jornais, recortes, BD dos anos 70, apólices de seguros, cartas, rascunhos, brinquedos, máquinas, utensílios. O mergulho é-me agradável, gosto de nadar nestas águas paradas. Nuns casos sobrevêm memórias. Livros que li, a letra ordeira e elegante do meu avô. Noutros, é a curiosidade de ver livros por onde antepassados aprenderam, instrumentos por eles usados, a escrita de actividades comerciais.
De súbito, dou conta de um muito curioso recorte do DN de 25Set1965 (data escrita à mão): O Concílio Ecuménico está a rever o conceito de céu e inferno “ultrapassado nesta era interplanetária “– segundo o bispo de Namur. Leio-o com muita perplexidade. O título e a formulação teológica que lhe subjaz parece mais vindo de um futuro distante do que de há seis décadas atrás. Serei só eu a achar que semelhante título (e notícia) seria hoje bastante improvável, mesmo numa publicação católica? Imaginam, como eu, o coro de protestos dos conservadores de todas e espécies e feitios sobre a heterodoxia do pensamento? Afinal, quão pouco avançámos, quanto regredimos?
Pergunto-me também sobre a motivação que levou o meu avô, católico tradicionalista, provedor da Misericórdia local, a guardar este recorte. Suspeito, ou especulo, se naquele coração bondoso não teria nascido uma esperança em ver a dicotomia céu-inferno ser posta em causa. Poderia Deus incorrer no absurdo de abandonar filhos seus e condená-los a um fogo eterno? Com fundamento neste singular acto de recortar e guardar esta notícia, gosto de pensar que o meu avô poderá ter sentido o sopro do Concílio.

Instante depois, descubro, ainda com maior surpresa, a encíclica Pacem in Terris (11Abr1963) de João XXIII, inteirinha, publicada em duas páginas do DN de 01Jul1963, no tempo em que os jornais eram impressos em enormes lençóis de papel. Cuidadosamente dobrada em oito partes horizontais, ela de novo me sugere que naquela década de 60 havia esperança no ar. Não me é possível imaginar que a encíclica tenha sido guardada pelo meu avô por oposição, mas por adesão a uma frescura e novidade que não deixou de o tocar.
Ou será tudo fantasia minha, claro.










