Esperança de renovação

| 1 Jul 20

Em entrevista recente a um jornal o novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) disse claramente ao que vinha, sem rodeios, o que alimenta alguma esperança de renovação no catolicismo português.

Bispo de Setúbal. José Ornelas.

Bispo de Setúbal. José Ornelas. Foto Paulo Rocha/Agência Ecclesia

 

Em 2017 tive o prazer de contar com o académico e bispo de Setúbal D. José Ornelas na Comissão Científica do Congresso Internacional Um Construtor da Modernidade: Lutero – Teses – 500 Anos, realizado na Gulbenkian e na Universidade Lusófona. De facto, o prelado da Igreja Católica estudou Filosofia, licenciou-se em Teologia, especializou-se em Ciências Bíblicas, em Roma e Jerusalém, concluindo com a licenciatura canónica no Instituto Bíblico Pontifício de Roma. Ordenado presbítero em 1981, foi docente assistente e secretário da Faculdade de Teologia de Lisboa (UCP), onde se doutorou em Teologia Bíblica.

O que chamou a atenção nesta entrevista a Natália Faria (Público) foram as tomadas de posição descomplexadas e corajosas em matérias que têm suscitado diferentes opiniões no seio da Igreja Católica. Desde logo a possibilidade de os padres casados poderem vir a ser aceites no sacerdócio. No fundo, José Ornelas justifica o fim do celibato obrigatório para os padres com o facto de a norma não ser dogma do quadro doutrinário católico, dando a entender que tal obrigação não se enquadra na actualidade, embora tivesse a sua razão de ser na época em que foi instituído, salvaguardando que a mudança deve ser realizada “num contexto eclesial alargado.”

Por outro lado, o bispo reconhece que a existência de padres casados em funções obrigará a uma reorganização da função sacerdotal, mas desdramatiza uma vez que “outras igrejas que têm a tradição de padres casados, resolveram esse problema e também nós haveríamos de resolvê-lo.” Dá até o exemplo da sua diocese onde conta com “um padre casado, com a sua mulher e três filhos e que até já tem um neto. É da Igreja Católica, mas de rito oriental.”

Já no que respeita à ordenação sacerdotal de mulheres reconhece maiores dificuldades na sua aceitação, tendo em conta a tradição da Igreja Católica, muito embora não tire o assunto “de cima da mesa”. Crê que se trata dum assunto que deve ser estudado a fim de “encontrar caminhos”. De todo o modo “o que não se pode é pretender que o problema não existe”, por isso “há que confrontá-lo”.

Sobre o elefante na sala, isto é, a praga do abuso sexual de menores por homens da Igreja Católica, o novo presidente da CEP aposta na formação e mudança de mentalidades, mas também no tratamento exemplar dos casos que venham a surgir, “para que as pessoas atingidas não vejam agravada a sua situação por terem encontrado incompreensão e reacções desajustadas”. Apesar dos casos em Portugal serem diminutos, julga ser “natural que, com as comissões e o encorajamento das denúncias, possam surgir mais”, e revela firme determinação para “enfrentar o que vier.”

Em matéria de justiça e coesão social D. José Ornelas refere que “estes levantamentos a nível mundial contra a discriminação e o racismo e exclusão vieram pôr bem a claro que as pessoas não podem ser deixadas de lado.” Até porque uma sociedade que não é justa e onde as pessoas não se sentem dignificadas “ou gera escravos, que baixam obrigatoriamente ou por comodidade a cabeça, ou então gera rebeldes”, quando o que se pretende é viver numa “sociedade justa e digna e que não precisa de enveredar por caminhos de violência para se reconstituir.”

Relativamente a eventuais medidas que vão para lá da necessidade de controlar os contágios, como a monitorização das movimentações dos cidadãos, considera não só aberrante como perigoso e não deixam de ser “um caminho directo para os totalitarismos”. Apesar de tudo o bispo pensa que o risco de as privações à liberdade individual e à privacidade dos cidadãos se tornar regra e não medida de excepção não se coloca, visto os portugueses não o permitirem, até “pela memória que ainda temos da ditadura”.

Sobre uma resposta à escala europeia para a crise económica decorrente da pandemia, o presidente da CEP mostra-se confiante, até porque se lembra da penitência que fizeram os que geriram a crise de 2008, ao não terem então considerado devidamente os seus inevitáveis custos sociais, e lembra que temos de ter “a coragem de voltar à raiz do projecto europeu, porque ou há um rejuvenescimento do projecto europeu ou este caminhará para o seu fim.”

Em suma, temos um presidente da CEP aberto a que a Igreja Católica possa encetar o processo de trilhar novos rumos em diversas matérias, em consonância com o Papa Francisco, sem medos nem tabus, defensor da transparência e da justiça dentro de portas e da coesão social no país, e ainda com sensibilidade europeia. Não se poderia esperar mais.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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