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Ensaio

Esperança: “Paixão pelo possível”

| 09/10/2021

Escutar, nomear, cuidar, paciência, acreditar, confiar, caminhar e aceitar a incerteza são elementos essenciais no desenho de uma possível matriz que nos possa aproximar de uma melhor compreensão do que possa ser a esperança e do que leva homens e mulheres a unirem-se em torno de uma ideia. A esperança é a paixão pelo possível – o que significa a possibilidade do radicalmente novo.

 

 Hoje é o dia novo
Sei-o pelo desejo de o transformar
(Daniel Faria)

Nascer do sol

“A esperança, mais do que discurso será vivência; mais do que verbo será silêncio; mais do que resultado será interrogação; mais do que agir será escuta e mais do que meta ou objetivo será caminho.” Foto © Zac Durant / Unsplash

 

Pese embora a frequência com que ouvimos, ou mesmo afirmarmos: “Eu sou uma pessoa de esperança”, a verdade é que se alguém nos pedisse para definirmos a esperança faltar-nos-ia em palavras o que nos sobraria em silêncio. Essa nossa dificuldade mora porventura no facto de a esperança ser algo que mais do que discurso será vivência; mais do que verbo será silêncio; mais do que resultado será interrogação; mais do que agir será escuta e mais do que meta ou objetivo será caminho. Há em nós uma dificuldade natural em dar visibilidade a esse pulsar de vida que em nós persiste e resiste quando ao redor tudo é anúncio da morte e a desesperança pernoita no albergue dos nossos sentimentos. Quanta força, quanta coragem para manter ativo esse quase insignificante, por muito ténue, sopro de vida!

Tudo isso podem ser elementos do que poderíamos chamar de esperança, esse desejo – sim, a esperança é desejo – que brota em nós; e cujo princípio está no afirmar ou na consciência do que não se deseja, desde que saibamos nomeá-lo e que encontremos a saída, mesmo se demasiado estreita, desse turbilhão de trevas que faz de nós habitantes sem nome de uma terra por nós não reconhecida.

A semente da esperança não é o desejo ou a afirmação de um qualquer futuro, mas sobretudo a asserção do que não se deseja. É esse o ponto de partida, já que o devir continuará incerto, desconhecido e poderá ser até inesperado. A esperança é, na sua essência, a aceitação de uma possibilidade de futuro, mesmo se muito, ou sobretudo quando, muito diminuta. Paul Ricoeur define-a como a “paixão pelo possível”. Talvez por isso, na sua aparência visível, possa ser olhada por muitos como uma fuga.

A esperança nasce a partir da consciência da morte em sentido bastante lato (do não-sentido, do absurdo, da negação do amor) e da necessidade da procura de sentido, de pequenas fontes de vida. A esperança não nega a realidade, mas não a aceita como fatalidade, como destino inelutável.

Sabendo que a esperança é uma ideia oriunda da tradição hebraico-cristã, esse facto pode dizer um pouco mais, sobretudo aos que se nomeiam cristãos. Imagino, por me parecer natural, que a primeira ideia de esperança tenha surgido com as primeiras manifestações de religiosidade aquando do culto dos mortos. A partir do momento em que o Homem tem a preocupação de cuidar dos seus mortos penso ser natural projetar no pós-morte uma felicidade que lhe era negada no mundo dos vivos. Por outro lado, cuidar dos mortos seria uma forma de também cuidarem de si, da vida.

“A esperança não nega a realidade, mas não a aceita como fatalidade, como destino inelutável.” Figura: Pormenor de obra de Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza. Foto © Paulo Bateira.

 

A ideia hebraico-cristã de uma esperança que recompensasse a vida terrena foi evoluindo ao longo da história do povo hebreu de uma ideia exterior, fora do ser, para uma ideia em que a recompensa não seria uma espécie de consolo, mas antes a síntese do que fora a vida. Contudo, ao longo dessa sua evolução há atributos que se mantêm:

  1. Existência da promessa (terra prometida, identidade de um povo, ressurreição);
  2. Relação com o Outro, seja trinitário, seja o meu próximo (alianças, compromisso, amor);
  3. Importância do caminhar: o importante não é a promessa como destino final, mas a forma de lá chegar, a experiência do caminho. Até porque a terra prometida pode nunca ser alcançada. Trata-se sobretudo de crer e confiar em algo que será diferente da realidade conhecida. É interessante notar que no Antigo Testamento a ideia de promessa está muitas vezes ligada à ideia de descendência.

Parece-me, contudo, que a mensagem do cristianismo deu um outro conteúdo e sentido à esperança. Primeiro, houve uma deslocação da ideia de esperança para o interior de cada um. Depende de cada um, da sua vivência, o atingir a promessa (Ressurreição). Essa nova centralidade, no próprio e na sua relação com o outro implica que o foco não reside mais no pós-morte, mas na própria vida, sendo a promessa a sua síntese. Porventura o mais importante desta transformação seja – se nos quisermos salvar – a relação com o outro e com o mundo (realidade). Daí a importância do amor que, na minha perspetiva, se concretiza no “cuidar”.

“Assim, permanecem agora estas três: a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor.” (1ª Carta aos Coríntios, 13, 13). (Virtudes teologais).

A ideia de caminhada, de travessia, sem qualquer certeza quanto ao que seria a terra prometida ou o lugar onde ela se situaria, bem como a capacidade para aceitar o inesperado, parece-me ser uma componente importante na construção da esperança. A promessa é a possibilidade de uma outra realidade, de um futuro diferente. Mas não deixa de ser mais do que uma possibilidade. Será a esperança o desejo de felicidade colocado por Deus no coração de cada um de nós?

Pergunto-me muitas vezes o que levará homens e mulheres de crenças diferentes, com experiências também elas distintas, a se unirem em torno de uma ideia de esperança, de transformação, que lhes permita fazer caminho…

 

Matriz da esperança

 

“Mesmo que o fim do mundo seja amanhã,
hoje eu plantarei macieiras no meu pomar.”
(Martin Luther King)

Desmatamento Amazónia.900km a sudeste de Manaus-2 - cópia

“A esperança não é a transformação da realidade enquanto continuidade, mas a introdução do radicalmente novo.” Foto:  Desmatamento 900km a sudeste de Manaus, Amazónia.© Moss / Projecto Brasil das Águas-2006.

 

A gestação da esperança tem início a partir do momento, embora precedido pela escuta, em que somos capazes de nomear a realidade e de introduzir elementos contrários à lógica da tragédia, da morte, ou seja, elementos que sejam potencialmente transformadores da negatividade (desumanidade/desamor) da realidade que teima em impor-se. Daí a importância de gestos de humanidade no meio da catástrofe, do que parece não ter sentido, do que parece não ter saída ou solução. Afirmar a esperança é, na maioria das vezes, remar contra a corrente, introduzir lógicas de rutura. Importa ter algum cuidado, já que a esperança não é a transformação da realidade enquanto continuidade, mas a introdução do radicalmente novo. O tempo da esperança nunca é, não pode ser, uma sucessão linear de “agoras”. É verdade que a transformação se pode dar por pequenas interações, mas o horizonte possível (o somatório de todas as interações) aponta para o radicalmente novo. Talvez por isso a dificuldade da gestação de movimentos de esperança no mundo em que vivemos.

Há elementos que me parecem essenciais no desenho de uma possível matriz que nos possa aproximar de uma melhor compreensão do que possa ser a esperança e do que leva homens e mulheres a unirem-se em torno de uma ideia.

Escutar
A escuta é talvez o primeiríssimo passo para um possível início de caminhada. É através da escuta que se faz uma aproximação à realidade e ao outro. Essa aproximação à realidade exige de nós uma escuta interior, introspetiva, em que os nossos medos, os nossos preconceitos, os nossos valores, os nossos princípios dialogam com a violência e dramaticidade da realidade. Mas esta escuta é também um diálogo com esperanças e desejos recalcados que invadem o presente e que, muitas vezes, nos impedem de nomear e se sobrepõem à possibilidade de novos horizontes.  É desta enorme luta interior tão sofrida e nem sempre superável, que surge a necessidade de nomear a realidade (dar-lhe existência), ou seja, ganha-se consciência daquela e também de qual o lugar e o papel do outro na sua transformação.

Nomear
Nomear é, de certo modo, uma já verbalização da esperança. É o primeiro passo de reconhecimento da realidade. Sem esse passo de nomear a realidade muito difícil se torna ter a perceção do que não se deseja.  No luto, por exemplo, nomear a realidade significa busca de sentido para a perda, ao ritmo interior de cada um, mesmo que tal pareça uma impossibilidade. Impossível ter esperança sem consciência da morte. Enquanto o presente tende a projetar-se no futuro, as forças do passado tendem a resistir à mudança. Na vivência do presente concentra-se o vigor do que foi (passado) e o advento do que está por vir (o futuro). É na tensão destes contrários que se situa a dialética da decisão, ou seja, o assumir de um projeto existencial que me define como ser no mundo ou a sua recusa. É nesta decisão que a possibilidade (por ténue que seja) se assume como projeto ou se perde no anonimato da existência, ou seja, a morte de todas as possibilidades.

Cuidar
O Cuidar, na minha perspetiva, é fundamental, talvez o eixo central desta possível matriz. Penso ser na consciência do que cuidar ou de quem cuidar que a esperança, mesmo se embrionária, se gera. E é aí que se descobre a possibilidade de futuro. É na consciência da necessidade de cuidar (até de si próprio) que se joga muito da decisão do projeto existencial de que atrás falava. Para cuidar há que transformar o tempo presente num solo produtivo do tempo que já foi (passado) onde possa fluir o tempo do possível (esperança). A esperança implica cuidar. Quem não encontra razões para cuidar ou de que cuidar, dificilmente terá esperança. Quando se faz a experiência do vazio pode não existir nada mais que a destruição e a morte.

O cuidar, para os cristãos, tem uma outra dimensão: a fidelidade ao amor do Pai. Talvez aí resida a importância da fé como referencial de esperança em situações limite. Importa, contudo, reconhecer com humildade que esse não será o único caminho, pois se assim fosse tal nos impediria de fazer caminho com outros. O Marxismo, para o bem e para o mal e esteja-se ou não de acordo, foi um referencial importante para muita gente e possibilitou grandes transformações nas sociedades. Os Homens, por razões diferentes, sentem necessidade de se sentirem irmanados num horizonte comum.  Mais do que sonhar a vida, têm necessidade de viver sonhos.

Moinho de areia. Tempo.

“Por meio do amor, a paciência respeita o ritmo diferente da alteridade, permitindo um certo pluralismo temporal.”  Figura: Uecker, Sandmühle (Moinho de areia), 1970, Städel Museum, Frankfurt am Main, Alemanha. Foto © António Marujo

 

Paciência
Na ótica do filósofo Gabriel Marcel, a revolta não é compatível com a esperança, porque gera uma violência de não respeito pelo tempo do outro, pelo seu ritmo. Segundo o mesmo autor, a mola propulsora do amor (caridade, no seu dizer), a paciência evita a violência com relação ao tempo e ritmo do outro. Por meio do amor, a paciência respeita o ritmo diferente da alteridade, permitindo um certo pluralismo temporal. Ainda segundo ele, quando a paciência não é movida pelo amor, ela transforma-se em fraqueza e complacência. E esse é um risco.

Acreditar
A esperança resulta do diálogo, conflituante, entre a experiência vivida e o desejo de transformação dessa realidade (não de fuga), do que ela significa de negativo, à luz do que para nós são princípios orientadores ou fundamentos daquilo em que acreditamos. Mas acreditamos em quê? E o que nos faz acreditar apesar da realidade? Esta é uma questão de fé, religiosa ou não, já que a esperança não é objetivável, apenas poderemos ousar fazer uma aproximação ao horizonte. Nós não conhecemos o futuro e ele não será nunca o objeto, a meta. Talvez uma promessa, mas que acreditamos um dia será cumprida, atingida. Mesmo que não sejamos nós, acreditamos que alguém o fará.

Confiar
É nesse confiar, mesmo desconhecendo, que acreditamos ser possível: “Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos.” (Hebreus, 11;1). Ou ainda: “podemos ver que Deus quer que o Seu povo tenha esperança: “Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês’, diz o Senhor, ‘planos de fazê-los prosperar e não de causar dano, planos de dar a vocês esperança e um futuro’.” (Jeremias, 29;11).

Caminhar
“A esperança não é esperar, é caminhar.”  Esperar é uma atitude passiva que está próxima do destino. Neste caminhar, a esperança é uma espécie de atualização permanente das possibilidades existenciais, alimentada por uma força interior que sustenta o desejo de caminhar. Este caminhar não é feito de certezas ou metas perfeitamente definidas, mas de horizontes que se transformam à medida que caminhamos.  A esperança não tem a veleidade de cumprir metas, mas apenas tentar aproximar-se de horizontes.

Aceitar a Incerteza, o mistério
Não existe qualquer certeza no devir, apenas sabemos que o caminho nos levará algures. Caminhar significa afastar-se da realidade que não se deseja, mas, ao mesmo tempo, exprime uma aproximação ao horizonte que se deseja. São muitos os escolhos e é necessário estarmos preparados para o inesperado. Mais do que isso, há que ter a humildade de o esperar; caso contrário seremos apanhados desprevenidos sem dele dar conta. Estar preparado para o inesperado é estar aberto ao encontro. Aceitar esta ideia exige que estejamos preparados para o eterno recomeço. A esperança é como caminhar na noite escura sem qualquer luz como guia. Daí a importância do acreditar e do confiar: acreditar nas possibilidades de futuro e confiar em quem nos acompanha e que sabemos (confiamos) não nos abandonar. É também um compromisso de fidelidade.

 

Afirmar a esperança no meio da desesperança

 

“Se não esperarmos o inesperado nunca o encontraremos”
(Heraclito de Éfeso)

“A esperança enquanto cuidar de um futuro que embora não sendo pertença nossa é também da nossa responsabilidade. A ideia de uma certa gratuidade do futuro, que é também herança dos que nos precederam.” Foto: Plantação de Tamareiras no Vale do Draa, Marrocos  © José Centeio

 

“Quem planta tâmaras, não colhe tâmaras!” (provérbio árabe)
Estava um ancião plantando tamareiras quando dele se aproximou um jovem e lhe perguntou:
– Por que te dás ao trabalho de plantar tamareiras se nunca delas provarás o fruto?
Na sua sabedoria acumulada ao longo de uma já longa vida, responde-lhe o velho:
– Pois é, meu jovem, se todos pensassem como tu nunca ninguém saberia o gosto de uma tâmara.

O provérbio árabe e o breve diálogo a propósito – no tempo em que havia que esperar entre a 80 a 100 anos até se saborearem os primeiros frutos, ou seja, antes da introdução das técnicas de produção e de apuramento de espécies -, são ilustrativos de uma perspetiva da esperança enquanto cuidar de um futuro – a terra prometida, tão desejada – que embora não sendo pertença nossa é também da nossa responsabilidade. A ideia de uma certa gratuidade do futuro, que é também herança dos que nos precederam.

Será possível, hoje, afirmar a esperança e gerar horizontes onde o radicalmente novo seja promessa?

Esta é uma pergunta à qual será difícil responder fora de uma retórica discursiva a qual se confronta com o vazio do que propõe. Nesta nossa dificuldade, das sociedades atuais, facilmente somos conduzidos a elevar à categoria de esperança o que não passa de meras expetativas. Importantes sem dúvida na gestão do presente, mas inócuas na projeção do futuro. Ter expetativas é estabelecer uma espécie de contrato com terceiros – os que têm o poder de decisão – em que nós lhes concedemos o nosso crédito e, em contrapartida, eles assumem o compromisso de cumprirem o prometido. Trata-se de uma posição passiva, expectante, em cujo caminho uma das partes contratante não participa. É verdade que, tal como a esperança, as expetativas não negam a realidade, mas espera-se que a solução venha de terceiros. Ela é exterior. A esperança implica, exige mesmo, que os próprios sejam atores, sejam agentes de transformação duma realidade que não desejam. Não se trata de um contrato, mas de um compromisso, primeiro individual e depois coletivo, em que cada um tem a sua quota-parte. Ao contrário do estado expectante e passivo, o estado esperançoso é de movimento, necessidade de ir ao encontro, assumir o risco de um amanhã desconhecido. Ele é sempre de partida e nunca de ficar.

Nas sociedades atuais o futuro é dito e afirmado de forma negativa, não como um horizonte de possíveis, de afirmação do que é novo, mas como o remediar do presente. Criou-se a ideia de que o futuro não é mais do que um presente retocado. E o presente é tecido pela desesperança. A ciência que nos disse não haver limites ao progresso, apontando-nos o bem-estar como estando ao alcance de qualquer um e de todos (mesmo se muitos continuassem a morrer à fome) é a mesma ciência que agora nos diz que teremos de arrepiar caminho. Não em nome dos que continuaram e continuam a morrer à fome, mas em nome do nosso bem-estar.

Pulsar da Vida

“É do confronto entre o pulsar da vida e o pulsar da morte que a possibilidade de futuro emerge.” Foto © Greg Rakozy / Unsplash

 

Por que razão isto acontece?

Serão muitas as razões e os especialistas terão a sua leitura, tal como cada um de nós terá a sua. Arrisco a enumeração de três que aos meus olhos parecem ser marcantes para esta nossa dificuldade em vivermos a esperança.

  1. A prevalência das estatísticas em detrimento da realidade, das vítimas. Se é verdade que as estatísticas têm a virtude de nos darem uma imagem “aérea” da realidade, elas escondem-nos ou mostram-nos de forma encapotada a realidade, as vivências. Perdeu-se a capacidade de nomear a realidade aglomerando-a estatisticamente em grandes grupos. Essa incapacidade de nomear cria em nós uma perceção da realidade um pouco virtual (estatística), o que significa que aos nossos olhos as vítimas se tornam invisíveis. Conhecemos as estatísticas, mas não sabemos quem são as vítimas que aquelas representam. Por outro lado, essa não nomeação cria naqueles que sofrem o sentimento de abandono, de invisibilidade, de desesperança. Como é possível a esperança numa sociedade que contabiliza em vez de nomear?
  2. A quebra de laços e sobrevalorização do indivíduo. A forma como as sociedades modernas se organizaram e organizaram o seu espaço (a polis) favoreceu as ruturas relacionais e a quebra de laços, seja inter-geracionais, geracionais, de vizinhança, etc. Essa quebra de laços, aliada a uma ideia de competitividade entre pares, veio substituir a ideia veiculada pelo cristianismo de que “ninguém se salva sozinho” por uma outra segundo a qual, para me salvar, não necessito do outro, já que isso é algo que depende apenas de mim. Perdidas as referências, deixei de acreditar e de confiar. Apenas posso contar comigo. Acresce ainda que o mundo digital não só encurtou as distâncias, mas sobretudo o tempo. Tudo é demasiado rápido e eu também terei de o ser, caso contrário perco a oportunidade. Para me salvar é obrigatório que esteja sempre um passo à frente do outro. Deixamos de ser pacientes tornando-nos impacientes compulsivos.
  3. Sobrevalorização da felicidade. Nas nossas sociedades a felicidade tornou-se, por um lado, uma obsessão e, por outro, quase uma obrigação. Só os imbecis e os fracos não atingem a felicidade que está ali ao estender da mão. Pela mão da psicologia positiva, aliada ao neoliberalismo económico e empresarial, a felicidade é atualmente uma das maiores indústrias do mundo, uma das que mais dinheiro movimenta. Quem viu o filme Em Busca da Felicidade, sabe que o que ele nos revela é que a felicidade é sobretudo um tipo de pessoa e, sobretudo, individualista.

Não existe lugar para a falta, para o fracasso, para o insucesso, talvez nem para o desejo. E quando assim é, dificilmente haverá lugar para a esperança. Acreditamos e confiamos apenas em nós. Somos simultaneamente o centro do saber, da experiência e só nós podemos saber o futuro. Está escrito. Não há qualquer espaço para a incerteza – para o mistério da vida. Não sabemos lidar com ela, muito menos aceitá-la.

A esperança não é algo que se decreta, ela exige-nos questionamento, diálogo e confronto com a realidade. É do confronto entre o pulsar da vida e o pulsar da morte que a possibilidade de futuro emerge. Nomear a realidade significa também não negar a maldade como elemento condicionador da caminhada. Antever o dia novo, não porque o seja na verdade, mas porque existe em nós o desejo de o transformar. A consciência de que a esperança é gerada em cada um de nós e parte do nosso desejo de transformar a realidade. Conscientes de que a maldade (o mundo das trevas) coabita (tantas vezes em nós mesmos) com a bondade, com o mundo da luz, como pode a esperança emergir e afirmar-se como projeto de possibilidades?

Verdade seja dita, e felizmente que assim é, que existem muitos pequenos focos de esperança, mas eles não são o pensamento dominante que continua a marcar e a influenciar as vidas de todos nós. Apesar disso, e é já muito importante, esses pequenos movimentos ou as pessoas que lhes dão corpo vão acrescentando esperança, vão engrossando a coluna dos que arriscam caminhar, alimentados por essa paixão do possível.

Mais do que discursos importa criar um ambiente de sustentação que possa potenciar os sinais de esperança, dar-lhes espaço e voz, onde os possíveis sejam pressentidos como início de caminhada. Mais do que sonharmos a vida – a nossa –, há que sonhar com a possibilidade do radicalmente novo.

Como escreveu Malraux: “Apenas se descobre uma vez o que é a guerra, porém descobre-se repetidamente a vida”, essa “infinita possibilidade do destino”.

 

Deixo-vos, para terminar, o poema “Alma Viajeira”, de Daniel Lima (1916-2012), poeta e padre pernambucano:

Viajante

“Aonde irás ter, perguntas, se de novo tiveres de seguir outros caminhos no fim desses caminhos já seguidos?” Foto © Mantas Hesthaven / Unsplash

 

E perguntei-me ao fim da longa viagem:
– E agora aonde irei ter se, novamente, tiver de prosseguir noutros caminhos
a viagem sem fim na qual perdendo
me vou para salvar-me desde o início?

Que hei-de fazer de mim sem mais andança, eu, que caminho; sou, mais que pousada?
Eu que sou, no que sou, um ser em viagem e que às vezes me sinto o mais das vezes não um ser a mover-se em espaço e tempo, senão que a passagem mesma do ser móvel?

Assim aonde irei ter se esta viagem acaba para mim, que não termino e que vou, pela minha alma, sempre adiante?
Sei que sempre haverá novos caminhos, alma assim viajeira, assim inquieta que sempre além se põe de onde há chegado.

Mas aonde irei ter, já finda a viagem, quando me for à aventura dos caminhos?
E a minha própria alma viajeira
– feita de inquietação e movimento –
a minha alma, que os pés de vagabundo não deixam se detenha nas pousadas onde o senso de estar se recupera,
é ela própria, a minha alma, que me fala, no profundo silêncio, a mim, que a escuto.

Aonde irás ter, perguntas, se de novo tiveres de seguir outros caminhos
no fim desses caminhos já seguidos?
Pois bem sabes que aquele que viaja
não no espaço de fora e no extensivo tempo de humana seiva carecentes
senão no Espaço e Tempo, substâncias
e ritmo do Amor que a Vida move,
esse viaja sempre, embora às vezes pareça repousar, como o pareces agora que, no entanto, mais sem termo,
mais estranha e esquisita e pura viagem
é a que estás a fazer pelas infindas, silenciosas águas das paixões obscuras
de que se faz a vida e a vida criam,
que parar não te deixam um só instante, aspirações que são de eternas formas ideais e divinas que te arrastam
como exemplares causas de teus sonhos para além do que és, ao infinito
do teu querer, que é o teu destino de homem.

Aonde irás ter, se o fores?
Que adianta perguntares agora, alma viajeira?
Não saberias nunca. A estrada chama,
a alma chama, os pés chamam, a vida chama.

Andar, sair, caminhar sempre – é isto
o que tens a fazer, eterno peregrino,
e o que sempre em agonia vens fazendo na insatisfeita busca de ti mesmo.

Vai, pois, sem nem saber aonde caminhas. Ainda sem roteiros indagares.
Que o mistério da vida, que a beleza
da vida só se dá, gratuita e plena,
a quem, andando sempre, ama a Viajem porque a Viagem é a estrada
e a Estrada é a Vida.

 

 

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