Este texto foi escrito a partir de algumas ideias alinhadas para o Encontro de Leitores do 7MARGENS em Lisboa, que teve lugar no passado sábado, 20 de setembro, com o objetivo de introduzir as partilhas e o debate sobre o tema “Viver a esperança, viver com esperança”.
Começo por agradecer este desafio que me foi lançado pelo 7MARGENS. Foi uma oportunidade para uma reflexão pessoal e para aprofundar como estou a lidar com estas temáticas. Não se trata de um estudo, nem de um texto académico, mas a partilha de uma reflexão pessoal sobre temáticas que a todos e todas afetam.
A minha primeira reação foi: “Como é possível viver sem ‘Esperança’?” Num segundo momento comecei a pensar nas minhas “Esperanças” e “Desesperanças”, como estas decorrem do atual mundo em que vivemos, quase que em retrocesso civilizacional.
Preciso de explicitar que ainda estou em luto pelo falecimento do Papa Francisco. Que li recentemente a sua autobiografia Esperança, como se ele estivesse a dialogar comigo. Foi muito marcante para mim. Tenho vontade de profundar o seu pensamento e o seu legado.
Atualmente, preocupam-me as injustiças e as assimetrias na distribuição da riqueza e dos recursos naturais, bem como as discriminações de qualquer tipo, dos imigrantes, dos mais vulneráveis, das minorias e das mulheres, nomeadamente na Igreja. Preocupam-me a solidão, sobretudo dos mais velhos, e a vulnerabilidade gerada pela pobreza. Preocupam-me também os abusos de poder, de qualquer tipo, em que se incluem os abusos sexuais (dentro da Igreja, mas também fora dela) e a violência doméstica.
Preocupam-me as guerras, na Ucrânia, no Médio Oriente, mas também em África, tal como todo o tipo de violência que existe nas nossas sociedades: a violência direta (física), mas também a violência estrutural e a violência cultural; uma tendência associada à urgência do rearmamento das nossas sociedades, como se não existissem outras alternativas para a resolução de conflitos e para a construção da Paz. Preocupam-me estas lideranças autoritárias e autocráticas e como põem em causa valores que dávamos como adquiridos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, o Direito Internacional e a Democracia Parlamentar[1], para não falar na Liberdade e na Paz.
Preocupa-me também a negação das alterações climáticas e a exploração intensiva – e extensiva – dos recursos naturais, a par desta “Economia que mata”, como lhe chamou o Papa Francisco, em que se hipervaloriza o lucro, o dinheiro, o enriquecimento a qualquer custo – valores subjacentes a um mundo financeiro, cujo funcionamento é extremamente opaco.
Nós, enquanto seres humanos, vivemos simultaneamente em diversas dimensões: as dimensões pessoal ou individual; a dimensão da família mais próxima; a dimensão comunitária, onde incluo a família alargada, os amigos e amigas, o círculo profissional, as associações em que estamos envolvidos, as relações de vizinhança e proximidade no condomínio, no bairro ou na autarquia; a dimensão nacional, aquela que é relativa ao país; a dimensão continental, referente à União Europeia; a dimensão global, que diz respeito ao planeta Terra, a nossa casa comum. Há ainda quem considere a dimensão cósmica, universal, a que poderemos associar a dimensão espiritual.
Debruçando-me sobre a “Esperança”, como a vivo, este desafio que me foi lançado levou-me a tomar consciência do que sinto necessário para continuar a viver quotidianamente, ou seja, para o meu “álibi” de vida. Preciso de procurar intensamente por sinais de “Esperança”, as minhas razões para viver. Necessito de ser “militante da Esperança”, como refere Graça Castanheira no seu texto. É uma forma de pugnar, de cuidar da minha própria “saúde mental”.
As razões das minhas “Esperanças” encontro-as nas minhas relações familiares, próximas e alargadas: uma rede de afetos, de apoio e de entreajuda, apesar das diferenças, da diversidade e das tensões que existem, como em todas as famílias. Sinto um grande privilégio por ter nascido e crescido nesta família, mas também uma grande responsabilidade em partilhar tudo aquilo que sou e que tenho aprendido.
Encontro-as também na comunidade próxima a que estou ligada, por opção, que muito me inspira, a do Bairro da Flamenga (Marvila) – pelo dinamismo do cuidado e da construção de relações entre as associações aí presentes, a paróquia de Santa Clara, a Junta de Freguesia, todos reunidos no Grupo Comunitário do Bairro da Flamenga. Existem nesta comunidade moradoras que são verdadeiros cuidadores das relações entre as pessoas e também entre todas as entidades.
Também encontro razões de “Esperança” na minha profissão, como professora, como sociodramatista e como investigadora, em conjunto com os meus e minhas alunas, com os meus e minhas colegas, ao trabalhar e profundar em conjunto os meus interesses pela Inclusão Social e Educativa, utilizando métodos ativos e criativos de aprendizagem, i.e., o Sociodrama.

Encontro de leitores do 7MARGENS em Lisboa, 20 de setembro de 2025. Foto © Clara Raimundo
Partilho agora duas pequenas histórias que me provocaram e através das quais me senti desafiada a “olhar para além do meu umbigo”.
A primeira história: um estudante do Mestrado em Ciências da Educação (Formação de Adultos e Intervenção Comunitária, Universidade Lusófona), acabado de chegar da Guiné-Bissau, com dificuldades em se exprimir em Português, nunca tinha mexido num computador. Só tinha visto computadores pessoais nas mãos de dois ou três dos seus professores. Quer mesmo estudar, mas necessita de trabalhar para sobreviver e para pagar as propinas. O problema não foi o arranjar-lhe um computador já usado, emprestado. Lancei um pedido no Facebook e conseguiu-se de imediato o computador. Para mim, o que foi problemático foi o choque que senti, ao aperceber-me de como estava a tentar começar a trabalhar com alguém que vem de “outro planeta”, de outro mundo, e que acaba de aterrar num mundo em que tudo se resolve através de computadores e de plataformas. Foi esta consciência que se clarificou, a de como existem muitos países sobretudo na África Subsaariana, em que a grande maioria da população vive muito abaixo daquilo que cá, em Portugal, se chama o limiar de pobreza. Foi o confrontar-me com o facto de a introdução do digital no nosso mundo ser mais um fator de discriminação e de promover o aumento do fosso entre os chamados “países ocidentais” e de muitos dos países do sul. No relatório do Índice de Desenvolvimento Humano (PNUD, 2023)[2], a Guiné-Bissau encontra-se entre os países de “Baixo Desenvolvimento Humano”, em 179.º lugar. Esta situação pôs-me em contacto com esta realidade do que é viver num dos países mais pobres do nosso planeta, mas também com a força vital que estas pessoas transportam consigo e que as impele a emigrarem em condições extremamente difíceis, trazendo consigo um ânimo e uma “Esperança” gigantes para ultrapassarem os obstáculos que encontram na sua procura por melhores condições de vida.
Uma segunda história, muito recente. Fui convidada como mediadora, como sociodramatista, para acompanhar um projeto resultante de uma parceria entre o GRAAL e o CIDAC, o projeto “SEM SOMBRAS – Jovens, Igualdade e Outras Economias”[3]. Na última sessão que tive com as duas equipas em conjunto, já numa fase final do projeto, um aspeto muito positivo que sublinhavam era o de como tinham conseguido ultrapassar e tirar partido das diferentes experiências, das suas diferentes culturas organizacionais, para envolver os jovens nas complexas temáticas do projeto, criando relações mais verdadeiras entre todos, e como desenvolveram a capacidade de se expressarem por si próprios, perante colegas, os pares, e a comunidade em que vivem. Pelas dificuldades que existentes ao nível dos financiamentos, duas jovens das equipas vão ficar desempregadas, encontrando-se por isso em fase de reorganização. Uma dizia: “Eu acredito nas relações e conexões que criámos entre nós e com os jovens com quem trabalhámos. Isso não desaparece por o projeto não ter continuidade.” Faço minhas as suas palavras. Este é para mim também um sinal de “Esperança”.
O que me dá “Esperança”? São as relações que vamos criando entre nós, com quem nos vamos cruzando, e o que vamos fazendo em conjunto. Isso ninguém pode desfazer.

Encontro de jovens de Ponte de Sor e da Chamusca, participantes no projeto Sem Sombras, em Lisboa. As relações que criaram são um sinal de esperança. Foto: Direitos reservados
Parece que cada um e cada uma de nós necessita de definir as suas próprias “linhas vermelhas”, de voltar a reafirmar aquilo em que acredita e que lhe dá ânimo para se manter vivo.
Podia referir um terceiro exemplo, muito inspirador para mim, e que nos juntou aqui: o 7MARGENS. Porque a persistência de um grupo de pessoas tem conseguido manter um projeto que se autofinancia e que nos tem permitido manter o contacto uns com os outros e com base em informação espiritual, aberta a diversas tradições, nos permite exprimir sensibilidades e pontos de vista variados e diversos, que vão além daqueles que são dominantes. Este é mesmo um grande exemplo de “Esperança”!
Como dizia Eduardo Galeano (jornalista e poeta uruguaio), parafraseando Fernando Birri (cineasta argentino): “A Utopia é como o horizonte. A cada passo que damos em sua direção, ele vai-se afastando. Continuamos a caminhar sempre na sua direção, e ele vai-se sempre afastando. A Utopia serve para orientar o nosso caminho.”
A “Esperança” para mim é da ordem da Utopia, algo que vamos perseguindo constantemente, tal como o sonho de que nos fala António Gedeão, no seu conhecido poema da “Pedra Filosofal”: “Eles não sabem, nem sonham, / que o sonho comanda a vida. / Que sempre que um homem sonha / o mundo pula e avança / como bola colorida / entre a mãos de uma criança.”
Ou ainda, como escrevia o grande poeta-professor Sebastião da Gama: “Pelo sonho é que vamos!”
A história e os movimentos sociais têm-nos ensinado que vivemos processos complexos, que vão evoluindo em ciclos, que as diversas dimensões que explicitei vão interagindo entre si, que o Ser Humano tem uma enorme capacidade de adaptação. Que essa evolução se vai fazendo no sentido da dignidade humana e do respeito pela Criação. Dia 1 de setembro foi o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, instituído pelo Papa Francisco [4]. Por coincidência, ou sincronicidade, é também o dia em que se retorna de férias no hemisfério norte, em que se recomeçam as atividades relativas ao novo ano letivo; como gosto de dizer, o dia de todos os recomeços. E nós, como seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus, somos chamados a ser cocriadores, quer no plano individual, quer no plano social e coletivo. Somos chamados a assumir as nossas responsabilidades para dar continuidade a esta obra maravilhosa da Criação, uns com os outros, e da qual fazemos também parte.
Referências:
UNDP (2023). Human Development Program. Report 2023/2024. Breaking the gridlock – reimagining cooperation in a polarized world. https://www.undp.org/pt/angola/publications/relatorio-do-desenvolvimento-humano-rdh-2023-2024
[1] Como dizia Churchill: “A democracia é o pior de todos os sistemas, excluídos todos os outros.”
[2] UNDP (2023). Human Development Program. Report 2023/2024. Breaking the gridlock – reimagining cooperation in a polarized world. https://www.undp.org/pt/angola/publications/relatorio-do-desenvolvimento-humano-rdh-2023-2024
[3] https://www.graal.org.pt/2023/10/31/semsombras/
[4] https://laudatosimovement.org/pt/news/o-que-e-o-dia-mundial-de-oracao-pelo-cuidado-da-criacao/
Margarida Belchior é professora, sociodramatista e investigadora.










