“Esperaremos sempre”

| 18 Mar 2024

“O Senhor caminhava diante deles; durante o dia, numa coluna de nuvem para os conduzir na estrada”
(Êxodo, 13:21)

Foto © Luca Galuzzi

‘Não seremos nós os novos caminhantes do deserto? Então de que estamos à espera? De um sinal? De um milagre? “Levanta-te e caminha!”‘ Foto © Luca Galuzzi

 

“…o Deus em que ele acreditava estava bem distante deste mundo ruim, dizia o sapateiro Jakop, – o Deus dele e o de todos quantos compreendem a verdade, não era um Deus para este mundo e mesmo que ele aqui estivesse quem aqui regia era outro deus, eram outros deuses, dizia o sapateiro Jakop… se bem que toda a gente visse no sapateiro Jakop um ateu, embora na verdade isso não fizesse diferença nenhuma, pois não?” (1)

O Povo de Israel, exilado no Egipto, caminhou durante quarenta dias pelo deserto conduzido por Moisés, enfrentando perigos, dúvidas, desânimo, cansaço, para, finalmente, alcançar a libertação prometida por Deus e chegar a Jerusalém, símbolo da Ressurreição que os cristãos celebram na Páscoa.

A saída do Egipto é um acontecimento libertador. Deus põe-se ao lado do homem, de todos os homens, contra o mal que os oprime. A Sua identificação até ao limite com a condição humana leva-o até à morte na cruz. Não se apresenta triunfante, como um super-herói, ou mesmo estóico, como Sócrates. Enfrenta, angustiado, a morte. Tem medo, sente-se abandonado por Deus. “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”

Mas não tinha outra alternativa, não queria negar-se a si mesmo e à sua missão. A Ressurreição mostra que na morte estava a vitória.

“O Senhor, teu Deus, está no meio de ti como poderoso salvador! Ele exulta de alegria por tua causa, pelo seu amor te renovará. Ele dança e grita de alegria por tua causa.” (2)

Há um exílio espiritual no mundo moderno. Apesar do crescimento do bem-estar, mercê do desenvolvimento da ciência e da técnica, há um estado de insatisfação, de vazio e de falta de sentido para a vida. Aspiramos a um mundo de felicidade, um mundo de paz, justiça, liberdade, bem-estar. Sentimos um desencanto e frustração perante o desfazer desse sonho de um mundo mais próspero e igual para todos e onde se possa crescer em paz e segurança. Para onde nos voltaremos?

Deus foi e será sempre para muitos a projecção desse sonho. Desde a Antiguidade Clássica, figuras como Aristóteles, Sócrates, Platão, também procuraram Deus.

Não seremos nós os novos caminhantes do deserto? Então de que estamos à espera? De um sinal? De um milagre? “Levanta-te e caminha!”

“A nova Jerusalém, a cidade santa, é a meta para onde peregrina toda a humanidade. É interessante que a Revelação nos diga que a plenitude da humanidade e da história se realiza numa cidade”. (3)

Há um longo caminho a percorrer neste vasto mundo digital da simultaneidade do próximo e do longínquo. Um mundo de mistério a desvendar, onde há luz e há sombras. Mas que importância tem o tempo e o espaço para aqueles que não temem os perigos e as tempestades do caminho porque sabem que há sofrimento mas também há o que os nossos corações chamam esperança?

Cidades, paisagens que não eram mais que designações geográficas e que agora adquirem forma, são nomes, recordações, podemos contemplá-las no seu esplendor ou na sua realidade trágica.

Vimos cidades cheias de maravilhas, orgulhosas dos seus imponentes edifícios e monumentos, cidades em constante metamorfose e progresso, cidades de encontro de culturas, cidades de proximidade, mas também de solidão, de exclusão e vulnerabilidade na sua grandeza.

Vimos cidades de um encanto simples e austero que despertam em nós uma nostalgia de lugares onde é possível viver “Dias perfeitos” (4) que valorizam as coisas simples da vida, que resistem ao veneno da insatisfação permanente, da superficialidade e à monotonia de “um mundo tecnificado”. (5)

Vimos a desolação de cidades em ruínas, de pessoas a viver no meio dos escombros, de milhares de mortos, feridos, prisioneiros, na Palestina, na Ucrânia, em Cabo Delgado ou em Burkina Faso. Há milhares, ou mesmo milhões de deslocados. Caminham solitários, como se estivessem na terra de ninguém, não têm destino, apenas sabem de onde vêm.

Não podemos resistir à mágoa da destruição das suas vidas, não podemos ficar indiferentes. Que mão inimiga, que poder os condenou tão cruelmente?

Todos os dias têm a guerra nas suas vidas. As estações e os dias desvanecem-se, e é preciso sobreviver-lhes. Vivem o dia a dia, o passado é uma recordação longínqua, não sabem o futuro e ficam contentes se o dia chegar ao fim.

Vimos, em Gaza, a enorme tristeza nos olhos das crianças com as suas pernas raquíticas e os seus corações inocentes. Vimos os jovens de olhar perdido num horizonte sem esperança. Eles são o futuro e têm direito a sonhar com o fim da pobreza e a viver numa terra liberta de uma ameaça constante.

Vimos, na Ucrânia, jovens que, apesar dos clarões dos incêndios que iluminam as cúpulas douradas dos belos edifícios a desfazer-se e dos ruídos constantes das bombas a cair, com o seu entusiasmo, a sua espontaneidade e a sua bela alegria de viver, continuam a acreditar num futuro melhor de realização plena das suas capacidades e dos seus sonhos.

Vimos, em Pemba, capital da província de Cabo Delgado, em Moçambique, cidade flagelada por guerras de conflitos de interesses e pelo radicalismo islâmico, com o seu cortejo de deslocados, de perseguições, de terror e de pobreza, crianças e jovens de sorrisos nos seus olhos abertos ao mundo, felizes por estar em escolas que funcionam. graças a ajudas recebidas. Neles encontramos uma fonte de alegria tão forte, só comparável à pujança e perenidade da Natureza e à beleza e tranquilidade das águas do mar que, ao longo da cidade e das inúmeras ilhas, se espraiam até ao infinito.

«Não deixemos que nos roubem a esperança!» (6)

Estamos irmanados pela nossa condição humana. Não podemos ficar indiferentes perante o sofrimento no mundo. Será que um dia aprenderemos que o conceito de inimigo, de ódio e vingança não significam nada comparados com os laços que nos unem e fazem de nós irmãos?

Nos mais longínquos espaços do mundo haverá sempre aqueles que endireitarão as veredas dos caminhos e com a sua fé inabalável fecham abismos e movem montanhas. Que nós encontremos os seus olhos radiosos! Por isso, tal como a tempestade espera pela bonança, o inverno espera pela primavera, o sol espera pelo amanhecer e a noite espera pelo dia, nós esperaremos sempre. Porque é só esperar, erguer os olhos. Senhor, deixa que um novo dia se levante!

 

Notas
(1) Jon Fosse, Manhã e Noite, pág. 44. Penguin Random House, 2023
(2) Papa Francisco, A Alegria do Evangelho. 1, 4, pág. 7. Apostolado da Oração, 3.ª ed., 2019
(3) Papa Francisco, A Alegria do Evangelho. II, 1, 71, 4, pág. 56 Apostolado da Oração, 3.ª ed., 2019
(4) Eduardo Jorge Madureira Lopes, “Dias Perfeitos, de Wim Wenders”. Diário do Minho, 7 de Janeiro de 2024
(5) Josep Maria Esquirol, A Resistência Íntima, pág. 85. Edições 70, 2020
(6) Papa Francisco, A Alegria do Evangelho, pág. 67. Apostolado da Oração, 3.ª ed., 2019

 

Maria do Céu Sousa Fernandes é professora aposentada, com formação académica na área de Filologia Germânica. Desempenhou alguns cargos políticos e foi presidente da Fundação Cultural Bracara Augusta de 2000 a 2013.

 

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