
Charles Nicolas Cochin II (Paris, 1715-1790), A Vinda do Espírito Santo no Pentecostes.
Na festa do Pentecostes de 2019 o Papa Francisco iniciou oficialmente um novo serviço, a CHARIS, cujo acrónimo significa Serviço Internacional da Renovação Carismática Católica. Segundo o Papa, espera-se que este serviço possa 1) partilhar a graça do Batismo do Espírito Santo com todos na Igreja, 2) que sirva à unidade do Corpo de Cristo, comunidade dos crentes em Jesus Cristo, e 3) que sirva os pobres, os mais carentes de qualquer necessidade física e espiritual. São estas as três missões que o Santo Padre confiou à CHARIS, para toda a corrente de graça[i].
Muitos talvez não tenham ouvido falar da Renovação Carismática Católica, que surge a partir de 1967: um grupo de universitários católicos norte-americanos experienciaram fortemente a efusão do Espírito Santo influenciados, também eles, pelo movimento carismático pentecostal. Historicamente, o movimento carismático, ou a redescoberta do Espírito, surge nos inícios do século XX em 1907 numa pequena comunidade evangélica, onde muitas pessoas, e à semelhança do que ocorrera conforme relato do livro dos Atos dos Apóstolos, receberam o batismo do Espírito Santo e, como sinal, começaram a falar noutras línguas. O movimento carismático acabaria igualmente por influenciar mais tarde outras confissões cristãs de tradição ortodoxa e até copta. Hoje em dia, as igrejas pentecostais, juntamente com o movimento carismático, têm crescido cada vez mais em todo o mundo, especialmente na América Latina, África e Ásia, constituindo já mais do que um quarto do total de cristãos em todo o mundo[ii].
Certamente pensando acerca das desconfianças que muitos cristãos ainda nutrem pelo movimento, o Papa Francisco declara que a Igreja cresce na fidelidade ao Espírito Santo quanto mais aprende a não o domesticar, mas a acolher sem medo e ao mesmo tempo com sério discernimento a sua fresca novidade[iii]. E merece relembrar que a experiência do Espírito Santo, era aos olhos dos redatores do Novo Testamento, uma marca distintiva da condição cristã. Definindo-se em confronto com os não-cristãos, era essa a marca que os fiéis das origens faziam naturalmente apelo. Mais do que testemunhas de uma nova doutrina, eles consideravam-se a si próprios como testemunhas de uma realidade nova: a presença atuante do Espírito Santo[iv].
Mas o que mais se tem evidenciado nesta nova fonte de graça dispensada pelo Espírito à Igreja, é o Seu forte desejo e apelo à unidade de todos os cristãos: “um só corpo, um só Espírito. (…) há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” conforme aponta o autor da Carta aos Efésios 4:4-6. É evidente que as divisões ocorridas ao longo da história da Igreja revelam por vezes pontos doutrinais irreconciliáveis, mas o cristianismo, mesmo nas origens, nunca foi monolítico; antes pelo contrário: logo no início havia já diversas sensibilidade e maneiras diferentes de expressar a fé no Senhor. Num encontro histórico com vários líderes pentecostais, o Papa Francisco, além de ter pedido perdão como pastor dos católicos, pelas leis emanadas no passado contra os protestantes, relembrou a estes irmãos que “o Espírito Santo faz a diversidade na Igreja e essa diversidade é tão rica, muito bonita; mas, depois, o próprio Espírito Santo faz a unidade. E assim a Igreja é una na diversidade. E para usar uma palavra bela de um evangélico, que amo muito, é uma diversidade reconciliada pelo Espírito Santo“[v].
Como o próprio Senhor da Igreja já o tinha afirmado, “o Espírito, tal vento, sopra onde quer e ouvimos o seu ruído, mas não sabemos de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito” (Evangelho de João 3:8). Será tempo de a Igreja se abrir e se entregar aos ventos do Espírito, o qual indicará novos caminhos de diálogo, de reconciliação e de unidade. Que a oração, proferida no encontro de Francisco com os membros da Renovação no Espírito Santo em 2015, seja efetivamente a de todos os cristãos:
“Adoramos-te, Deus Omnipotente, Pai, Filho e Espírito Santo. Pai, envia-nos o Espírito Santo que Jesus nos prometeu. Ele guiar-nos-á rumo à unidade. Ele é Aquele que dá os carismas, que concretiza a variedade na Igreja, é Ele quem faz a unidade. Envia-nos o Espírito Santo, que nos ensine tudo quanto Jesus nos ensinou e nos conceda a memória do que Jesus disse. Jesus, Senhor, Tu pediste para todos nós a graça da unidade nesta Igreja que é tua, não nossa. A história dividiu-nos. Jesus, ajuda-nos a percorrer o caminho da unidade ou desta diversidade reconciliada. Senhor, Tu que cumpres sempre quanto prometeste, concede-nos a unidade de todos os cristãos. Amém”[vi].
Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.
[i] https://www.charis.international/pt/o-que-e-charis/
[ii] Pew Reserch Center. Global Christianity – A Report on the Size and Distribution of the World’s Christian Population. Disponível em: https://www.pewresearch.org/religion/2011/12/19/global-christianity-exec/
[iii] https://www.snpcultura.org/pentecostais_carismaticos_e_evangelicos_papa_faz_mea_culpa_e_apela_aproximacao.html
[iv] Cardeal Léon-Joseph Suenens, Movimento Carismático: Um novo Pentecostes. Lisboa: Edições Pneuma, 1999
[v] http://www.archivioradiovaticana.va/storico/2014/07/29/papa_em_caserta_aos_evangélicos_pentecostais_o_espírito_santo_faz_a/por-816236
[vi] Discurso do Papa Francisco aos membros da Renovação no Espírito Santo. Praça São Pedro, sexta-feira, 3 de julho de 2015. https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150703_movimento-rinnovamento-spirito.html







