Espíritos dos antepassados e santos canonizados, mediadores entre Deus e os Homens

| 19 Mar 19

Artefactos da religião popular africana, numa demonstração cultural em Lesedi (Pretória, África do Sul). Foto © José Rebelo

Quando penso nos caminhos para chegar a Deus, duas frases, que aprendi na catequese da Igreja Católica ecoam na minha mente: “Deus é um espírito perfeitíssimo, criador do céu e da terra. É o nosso Pai que está no céu”; “Existe um só Deus, mas em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo”.

Tendo isso em conta e apelando a alguma relativização, recordo-me que a ideia que eu tinha, nos anos 80, era a de que, para falar com Deus, bastava entrar numa igreja, ajoelhar-me, fazer o sinal da cruz e agradecer pelas benesses que tivesse recebido e/ou pedir outras para o futuro. Podia ainda solicitar perdão por faltas cometidas, bênçãos e proteção para o momento atual ou vindouro. Se tivesse que fazer uma prova na escola, se desejasse uma nota alta, tivesse que viajar ou se estivesse doente, era de joelhos, na igreja, que pediria uma situação melhor; e fazia-o em português. Uma alternativa seria entregar os pedidos a um santo canonizado que intercedesse por mim junto a Deus. Não conhecia nenhum outro modo de o fazer, uma vez que sou neta de uma “assimilada” pela cultura portuguesa. Portanto, o meu acesso à Cultura e Religião Bantu (CRB) era extremamente limitado.

A partir dos anos 90, Moçambique começa a viver um contexto de pluralidade tanto política, como social e religiosa. Do ponto de vista religioso, começo a ouvir falar sobre o ecumenismo, o que despertou a minha curiosidade para o conhecimento de outras religiões. A ideia de que o acesso a Deus era tal como o descrevi acima foi-se diluindo. Percebi que, para as diferentes religiões moçambicanas, havia consenso de que: “Deus é um espírito perfeitíssimo, criador do céu e da terra. É o nosso Pai que está no céu”; e, por ser o mesmo, havia necessidade de se estabelecer um diálogo inter-religioso.

Foi nessa altura que comecei a ver na Igreja Católica as batinas dos padres a serem ornamentadas por capulanas, numa alusão ou sugestão de que a Igreja Católica se pode “vestir” em função das terras nas quais estiver instalada, demonstrando reconhecimento de diferentes modos de viver a fé cristã, a fé num único Deus. São exemplos desse convívio inter-religioso, a utilização, durante a missa, de batuques e do xikitsi e outros instrumentos que convivem harmoniosamente com o órgão. Além disso, os cânticos, até aqui em português, passaram a ser cantados em diferentes línguas moçambicanas, dependendo da região do país.

Foi, também, nessa altura que me dei conta de que, para a CRB, em Moçambique, há a conceção de que “Existe um só Deus, mas em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo”. Há entendimentosobre a existência de um ser superior ao homem, Deus, que em diferentes línguas moçambicanas, com grafia e significado mais ou menos similar tem o nome de Mulungu, Muluku, Ntanga Lwembe, N´Nungu, Nungu, Nnyinzingu, Mwari, Nungungulu, Xikwembu. São alguns exemplos. 

Entretanto, o acesso a Ele é feito com recurso a mediadores. Em nenhuma dessas culturas e religiões se fala diretamente com Deus (salvo em raríssimas exceções), do mesmo modo a que acima me referi. Este é realizado com recurso ao papel dos espíritos dos antepassados, que são os intermediários entre o que uma pessoa deseja e quer entregar a Deus. Ou seja, o acesso a Deus, os pedidos de proteção ou a gratidão para com Ele, são permeados por esses espíritos que, por sua vez, enviam essas preces a Deus.

 

Mortos a regular a vida dos vivos

Para perceber o poder dos espíritos dos antepassados, é preciso compreender as dimensões de vida do povo bantu e o estatuto que lhes é dado. No que à dimensão da vida diz respeito, é preciso recordar que a morte não é um fim em si. Entre estes povos, entende-se que há convívio entre vivos e mortos: por isso, alguns desses mortos, na condição de espíritos, é que regulam a vida dos vivos e intercedem por estes últimos a Deus. Entretanto, nem todos têm o mesmo estatuto e nem a todos os espíritos se atribui esse poder. É sim uma questão de atribuição, cujo papel depende em muito da decisão das famílias. Elas têm um poder muito forte na questão da gestão social, sobretudo na escolha de quem poderá ser o protetor da família.

Os espíritos protetores, os antepassados que falam com Deus, em nome dos seus familiares, têm de ter sido de um homem ou de uma mulher que, em vida, teve um comportamento exemplar, ao/à qual os preceitos sociais não têm muito que desabonar. E tem de ser alguém que tenha gerado vidas, porque estes povos creem que uma das maiores competências para a gestão social é ser-se pai ou mãe, mas esse é assunto para uma outra conversa. A esse espírito eleito, passa-se a venerar, é o protetor  da família. É alguém que ascendeu a uma categoria que, na Igreja Católica, corresponderia à de um santo canonizado,  por exemplo.

A veneração a eles e os pedidos de bênção têm sido feitas ou debaixo de uma árvore ou numa mata ou junto a um tronco no quintal de uma casa; mas, independentemente do lugar escolhido (porque outros existem, em função das tradições), este deverá ser eleito como o lugar sagrado da família. E antecipando qualquer ritual ou evento: um baptismo, uma viagem, um nascimento, um casamento ou a morte de alguém, é entregue a esse espírito, nesse lugar sagrado que serve de altar familiar, onde todo e qualquer diálogo é iniciado pela invocação da árvore da família, de outros espíritos de familiares já falecidos, que não sendo os que têm categoria de espíritos dos antepassados, são mencionados por darem força ao ato.

Não se confunda a categoria de espíritos dos antepassados com a dos espíritos  do mal, a dos feiticeiros, que é imperioso distingui-los dos nyangasou curandeiros. É importante recordar que esses espíritos dos antepassados são entendidos por alguns autores como deuses, por causa da expressão comum entre os bantus: “vai com os teus deuses”, que quer dizer vai com os espíritos dos antepassados (o que seriam os santos canonizados na tradição católica). E nessa expressão incluem-se os espíritos de familiares já falecidos, especialmente aqueles  que protegem cada um à nascença (os que se equiparam aos anjos da guarda). Isto demonstra a ideia de que Deus se desdobra em mais pessoas que o possam representar na terra, o que me sugere ser a mesma ideia da existência de um só Deus, mas em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.

Falei, neste texto sobre a categoria do Pai e do Espírito santo. A do filho poderá ser tema para conversa futura. Em síntese, na tradição católica o acesso a Deus pode ser feito ou por via direta, na qual o crente se dirige a Ele, ou por intermediação de santos canonizados. Enquanto que na CRB, o acesso a Deus é realizado, na maior parte das vezes,  por intermediação dos espíritos dos antepassados, os eleitos, e em raras ocasiões por via direta: Homem-Deus. Entretanto, tanto numa, como noutra tradição, existe a crença num Deus único, mas em três pessoas: Pai, Filho, Espírito Santo.

Sara Jona Laisse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica, Maputo – Moçambique

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