Essa coisa do pecado

| 29 Jan 20

O conceito de pecado no Cristianismo, à luz do senso comum, é quase sempre individual, e por isso extremamente redutor. Não há espaço para os pecados sociais ou contra a natureza.

 

Em Novembro passado, o Papa Francisco surpreendeu muita gente ao explicar publicamente que a Igreja Católica planeava introduzir a noção de “pecado ecológico” no catecismo, porque os comportamentos contra o meio ambiente também são contra a “casa comum”. Falava então no XX Congresso Internacional da Associação de Direito Penal, realizada em Roma: “Estamos a pensar em introduzir o pecado ecológico no catecismo da Igreja Católica, o pecado contra o lar comum”, anunciou. As questões ambientais estão na ordem do dia, e com razão, mas creio que a surpresa das pessoas está mais relacionada com o conceito corrente de pecado, popularizado pela religião e distorcido na sua essência.

Mas o que é isso de pecado? Para o senso comum é matar, roubar e mais umas quantas atitudes socialmente censuráveis e sujeitas à alçada da lei. Atentar contra a vida humana ou o património, portanto. Depois há mais uns pecadilhos de ênfase moral, como mentir, adulterar ou levantar falso testemunho, por exemplo.

Porém, à luz da fé cristã, o pecado é essencialmente outra coisa, que podemos compreender melhor se atentarmos na etimologia do termo. A palavra latina (peccatum) fala-nos de dar um passo em falso, tropeçar, cometer um erro, proceder mal, praticar um delito, mas no grego (hamartia) significa errar o alvo. Isto é, sempre que passamos ao lado do que devíamos, pecamos. Portanto, pecar não é só o erro, ou a falha naquilo que se faz, diz ou pensa, até porque ainda há o chamado pecado por omissão: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tiago 4:17).

Os judeus do primeiro século tinham muita dificuldade em compreender o conceito de pecado, pois no seu entender ele reduzia-se apenas aos interditos na lei de Moisés. Daí a necessidade duma tradição oral que detalhasse o sentido prático das disposições da Torah e mais tarde de a passar a escrito ainda com mais minúcia no Talmude, face às discrepâncias das diversas tradições rabínicas e de diferentes escolas de interpretação do judaísmo.

O apóstolo Paulo, embora vocacionado mais para o mundo gentio, todavia teve que se confrontar constantemente com os religiosos judeus, mesmo fora de Israel, e por isso teve necessidade de reflectir sobre esta questão, o que podemos atestar largamente nos seus escritos. Assim, passa a contrapor à lei da Antiga Aliança, uma nova lei a que chama lei da liberdade: “Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecediço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tiago 1:25), lei do espírito de vida: “Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte” (Romanos 8:2) ou lei do amor: “O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Romanos 13:10), que vem substituir a antiga legislação judaica, afinal já cumprida integralmente por Jesus Cristo. E a fé nele, nosso sumo-sacerdote, isenta-nos de a cumprir, até porque – como nos diz Tiago – ela terá sido dada ao povo do Antigo Israel mais como um instrumento para concluírem da sua incapacidade de a cumprir e necessitarem de um Messias salvador: “Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos” (Tiago 2:10). Mas a lei do amor, proposta por Paulo, é muito mais exigente e responsabilizante. Se eu amo o meu semelhante não o vou matar, roubar ou trair. Sendo assim não preciso duma lista de interditos, mas apenas de um princípio inscrito no meu coração.

Se eu posso pecar contra Deus ou um indivíduo meu semelhante, também posso pecar contra o colectivo (pecados sociais) ou contra a Criação, como diz Francisco: “a poluição maciça do ar, da terra e dos recursos hídricos, a destruição em grande escala da flora e da fauna e qualquer acção capaz de produzir um desastre ecológico ou destruir um ecossistema”. Daí que não pareça descabido considerar como pecado ecológico as acções contra o meio ambiente – o tal “lar comum” –, que também constituem, afinal, pecado contra o Deus Criador e a comunidade humana.

Ao colocar a ênfase no erro, na falha humana, a religiosidade ocidental passou ao lado do sentido de pecado, isto é, reduzindo-o a algo que não se devia fazer, levando a prática religiosa a um caminho das pedras, pela negativa, e não pela positiva. E depois vem toda a carga de culpa em consequência das intermitências da condição humana e da imperfeição de cada um. Mas o Evangelho não define propriamente os cristãos pela negativa, por aquilo que deixam de fazer, mas sim pelo que são. Não se trata duma questão de cumprir preceitos religiosos, de fazer ou deixar de fazer, mas de ser. É ontológico. E aqui a coisa fia muito mais fino.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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