Esse Deus dos contrastes

| 12 Nov 2022

Ilustração   Chaminuka (Zâmbia), autor desconhecido. 

Chaminuka (Zâmbia), autor desconhecido.

 

Cenário 1. No rooftop do hotel sente-se a brisa temperada. Retemperadora. Vista de 360 graus. De um lado, as luzes cintilantes da cidade vibrante, lá em baixo. Do outro, o vislumbre do mar, lá ao longe. As cores macias do pôr-do-sol. Mais perto, o som lounge entranhado no espaço aberto. O cocktail elaborado. Fresco. Os aperitivos dançantes. A conversa solta em pequenos grupos. Lá dentro, o mega-evento de mega-estrelas da música. Média omnipresentes. Passerelles. Vestidos de cauda. Brilho na pele. Flashes. Mais flashes. Muitos. Atmosfera inebriante.

Cenário 2. Da avenida larga e ajardinada já se vê o centro comercial. Asfalto bonito, negro, cuidado. Leva-nos suavemente a mais um oásis de consumo. Passeios limpos. Imaculados. Gente sorridente. Telemóvel na mão. Outra mão na mão da criança. Sem pressa. Da bainha do edifício espelhado, enorme, espreitam as lojas da moda. Modernas. Sofisticadas. Luminosas. Frescas. Num canto, o cappuccino para levar. Com nata fresca. E canela. Como deve ser. Bom. Muito bom. Na outra ponta, o hipermercado. Tudo. Há lá de tudo. Bonito. Apelativo. Bem organizado. Apetece mesmo.

Cenário 3. A comida é oriental. Fusão talvez. Decoração irrepreensível. A convidar à primeira bebida da noite. Tons terra. Detalhes de madeira. Cerâmica selecionada. Plantas cirurgicamente plantadas. Elegante. Tudo elegante. Sofisticado. E simples. A condizer com a comida. E os modos de quem serve. O sorriso genuíno. A palavra acolhedora. Apenas essa. Não mais. Para que os sentidos façam o resto. Da janela vê-se o anfiteatro exterior. Longo. Amplo. O sol esconde-se paulatinamente lá atrás. Mesmo por trás da colina. Empresta ao momento um equilíbrio ainda mais fino. Pequenos grupos sentam-se nos degraus geométricos. A meia-lua povoada de vida. Tranquila. Não há concertos. Nada para ver. Nem destino para chegar. Just chilling out. Disse-me ela ao servir a tempura de camarão.

O que têm estes cenários de comum?

Os três têm lugar em países por onde passei recentemente. Os cenários são reais. Lagos, Nigéria. Lusaka, Zâmbia. Adis Abeba, Etiópia. Assim. Por esta ordem. Países onde a mortalidade infantil é inaceitavelmente elevada. Onde a subnutrição é endémica. Onde a pobreza persiste num nível infra-humano. Assim mesmo. Cru. Sem temperos. A antítese dos princípios mais elementares de desenvolvimento. O oposto dos Direitos que todos temos por sermos Humanos.

E agora?

Tentemos, por um momento, resistir aos juízos do costume. Juízos onde estariam certamente contidos a incredulidade perante as lógicas de poder. O repúdio do enriquecimento alheio às misérias vizinhas. O desprezo pela ambição egoísta. O nojo pela lei do mais forte. A aberração da pobreza indigente. O fosso mais fundo entre bons e maus. O corte seco entre o certo e o errado. E, no caminho, a descrença envergonhada numa humanidade solidária, atenta, cuidadora. O sentimento de impotência. Meio passo para a indiferença.

Tentemos resistir. Por um momento apenas. E olhemos mais fundo. Mais fundo dentro de nós próprios. Perscrutemos primeiro o que nos suscitaram aqueles três cenários acima. Sem filtros. Transparentemente. E deixemos, por um momento, um momento apenas que seja, assombrar-nos por esse mistério que somos cada um nós. Deixemo-nos assombrar por essa humanidade prenha de contradições que reside em cada Ser que somos. Em todos nós. Creio.

Perdido nas minhas incertezas, é tantas vezes nesse assombro que se manifesta o Deus em acredito. Esse Deus dos contrastes. Tramado.


Luís Castanheira Pinto é licenciado em economia, tem-se dedicado às questões do conhecimento, aprendizagem e desenvolvimento de competências e trabalha no Banco Mundial, em Washington DC (Estados Unidos). É casado e pai de três filhos. Viveu anteriormente no Porto, Lisboa, Bruxelas e Copenhaga.

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