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Esse Deus não é o meu!

| 01/04/2020

Esse Deus não é o meu!

by | 1 Abr 20

Os fundamentalismos alimentam-se do medo, do drama e da desgraça. Muitos deles sobrevivem ainda do Antigo Testamento, a fase infantil da revelação divina na perspectiva cristã.

 

Lê-se e custa a crer que pessoas ditas cristãs digam à boca cheia que a presente pandemia de covid-19 é um castigo de Deus porque no Carnaval do Rio uma escola de samba representou a figura de Jesus Cristo de forma, digamos, pouco ortodoxa, ou por acontecimentos semelhantes.

Essa gente vive fora de tempo, como se estivesse ainda no Antigo Testamento, no tempo em que, na percepção dos hebreus, a justiça divina tinha um carácter tipicamente retributivo. Uma das coisas que se pode apreender no conjunto dos textos do cânone bíblico é que a revelação divina é progressiva.

O pequeno povo do Antigo Israel estava mais centrado na sua luta pela sobrevivência, depois da experiência traumática da escravatura sofrida nos últimos tempos em terras do Egipto. Não tinham treino militar, nem armas, nem sequer um território próprio. Era um conjunto de tribos nómadas a viver numa terra de ninguém, o deserto do Sinai. O seu conceito da divindade era semelhante ao dos povos contemporâneos, com a excepção do monoteísmo. Sustentavam a ideia de um Deus étnico, por via do velho pacto estabelecido com o patriarca Abraão e revalidado em Isaque, Jacob e demais descendência. Tal como qualquer povo da época, Israel precisava de uma divindade protectora com a qual se identificasse, e cuja função primordial seria assegurar a sua sobrevivência como povo, e a prevalência sobre todos os inimigos e quaisquer ameaças, prevenindo assim o risco de extinção.

De acordo com a perspectiva bíblica, vivia-se então a idade infantil da revelação divina, isto é, o tempo em que aquele povo era tratado como uma criança a quem o pai impõe regras muito claras. Se obedecesse seria premiado, mas em caso de desobediência poderia esperar castigo. Quando a vida corria mal e começaram a sofrer derrotas e exílios, a justificação da desgraça sofrida apresentada pelos líderes e mais tarde pelos profetas hebreus, era sempre de que o Deus de Israel os tinha castigado duramente.

Só com a vinda do Messias, Deus se revela de forma completamente diferente. No início do seu ministério público, Jesus Cristo profere o célebre Sermão do Monte (Mateus, caps. 5-7), um discurso altamente subversivo, do ponto de vista social, cultural e religioso, uma vez que propunha valores diferentes e até opostos à prática religiosa judaica vigente, o que deixou a audiência desconcertada. Mas sobretudo Jesus de Nazaré vem a revelar o Pai como um Deus de proximidade e de intimidade, assim como o seu carácter e a sua essência fundamental, de que João Evangelista testifica: “Deus é amor” (I João 4:16).

Dizer que a presente pandemia é um castigo de Deus é uma enormidade sem nome. Afinal qual é o conceito de Deus que esta gente tem? Por que razão Deus castigaria tantos inocentes? Que raio de sentimento vingativo seria esse? Como diz Domingos Faria,“o vírus é completamente insensível ao carácter moral das pessoas”.

O Deus revelado em Jesus Cristo não é mesquinho nem reactivo, nem se deixa insultar por qualquer patetice humana. Os cristãos que difundem a imagem dum Deus mesquinho, afinal, não estarão a fazer mais do que os gregos e os romanos que inventaram deuses à sua própria imagem e semelhança, portadores dos vícios e fraquezas dos homens.

No fundo, estão ainda na mesma posição infantil dos discípulos, que tentaram que o Mestre enviasse fogo do céu para castigar uns quantos, só porque tinham o orgulho ferido, por terem sido rejeitados pelos samaritanos: “E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto, disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez?” (Lucas 9:54). Mas o Mestre repreendeu-os de imediato: “Voltando-se, porém, repreendeu-os e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (Lucas 9:55,56).

Como diz Jorge Pinheiro,“Deus não castiga – Deus corrige, ensina e disciplina. E que ninguém veja nesta afirmação um jogo semântico. Porque os actos de Deus – como pessoa que é – revelam a Sua natureza. E a natureza de Deus é sempre pedagógica. E a pedagogia não se realiza por castigos, mas por correcção, ensino e disciplina.” Haja alguém que diga a essa gente o mesmo que o Mestre Jesus.

Deus não precisa de pandemias para se fazer ouvir, nem de defensores (como pode a formiga defender o elefante?), que são tão pecadores como aqueles a quem apontam o dedo. A natureza do pecado é que será diferente. Precisam de se ver ao espelho, definitivamente.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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