[domingo xx do tempo comum ― a ― 2026
último dia da semana nacional da mobilidade humana]
1. Com o calor que se faz sentir a esta hora,
apeteceria, antes de começar a celebração da Eucaristia,
fazer um rito preparatório, que talvez possa surpreender.
Qual?, perguntareis, eventualmente, com curiosidade.
Proporia uma «espécie de lava-pés», não como rito penitencial,
mas com água lustral para refrescar o corpo.
Caso tivesse sido combinado, poder-nos-íamos ter reunido
na fonte da Avenida Central, situada em frente da Arcada,
para banhar os pés durante uns vinte a trinta minutos.
Conversaríamos um pouco, com quem estivesse ao nosso lado,
sobre boas experiências da semana, trabalhos, leituras e visitas,
mas também sobre a quinta onda de calor na Europa
e a propósito dos dados que a agência CUPERNICUS
tem fornecido sobre o ambiente e as alterações climáticas.
Poderíamos falar, ainda, sobre o impacto dos incêndios,
que destroem as florestas europeias, mesmo onde não era habitual,
e as consequências das secas em termos de mobilidade humana.

[Fonte da Avenida Central, em frente à Arcada, Braga. Fotografia © Joaquim Félix]
2. Depois disto, viríamos a cantar pela rua de S. Marcos,
para celebrar a Eucaristia, como agora estamos a fazer.
Onde me inspiro para tal rito? Nem mais, em Roma.
Na liturgia estacional, sim, mas também numa experiência
que presenciei, há três semanas, num dia de calor extremo.
Em frente à estátua de Santa Catarina de Sena,
que se encontra próxima do Castel de Sant’Angelo,
foi criada uma fonte, ampla e redonda, por ocasião do último Jubileu.
Pois bem, a fonte, em parte parecida com a de Braga,
encontrava-se pejada pessoas, provenientes de muitas nações,
a refrescar os pés e conversar entre elas.

[Fonte próxima do Castel de Sant’Angelo, Roma, com pessoas a refrescar os pés. Fotografia © Joaquim Félix]
3. Talvez isso pudesse preparar melhor esta celebração
e, agora, ajudasse a meditar noutros temas relacionados,
a partir da Palavra que ouvimos atentamente.
Beneficiemos um pouco do contexto do Evangelho proclamado,
que poderá dar mais elasticidade aos nossos horizontes,
em função das palavras de Jesus e, sobretudo, da cananeia.
A passagem evangélica encontra-se situada
dentro da secção em que Jesus apresenta o Reino (cf. Mt 13,1-17,27).
Ainda recordaremos as suas parábolas (cf. Mt 13,1-52)
e alguns gestos, como a multiplicação de pães e peixes (Mt 14,13-21),
e o salvamento de Pedro e dos discípulos
após a tormenta noturna na travessia do mar (cf. Mt 14,22-33).
No entanto, os seus ouvintes, na sua generalidade judeus,
por mais maravilhados que ficassem com tais parábolas e sinais,
respondiam negativamente à proposta de Jesus.
Quase ninguém, digamos assim, queria embarcar na aventura de Jesus.
Só um pequeno resto O acompanhava de verdade,
mas com dúvidas e perguntas, que seriam naturais.
O episódio que escutámos hoje é precedido de debates acesos,
que Jesus tem com os fariseus e os doutores da Lei,
a propósito de certas tradições judaicas (cf. Mt 15,1-9).
Saturado com o seu distanciamento e a sua argumentação hipócrita,
que adulterava o espírito da Lei,
Jesus «retirou-Se dali e foi para os lados de Tiro e Sidónia» (Mt 15,21).

[«Memória», de Sofia Pinheiro, em exposição na Arte na Leira. Casa do Marco. Arga de Baixo, Caminha. Fotografia © Joaquim Félix]
4. A recusa das «ovelhas perdidas da casa de Israel» (Mt 15,24)
― prioridade que Jesus tinha estabelecido para a sua missão ―
não O demove do projeto do Reino; as dificuldades não O bloqueiam.
Que faz então Jesus? Bombardeia-os com uma nuvem de maldições?
Não! De modo algum. O que faz é repensar as possibilidades
e tentar noutro lugar, onde menos se esperaria, quase como provocação,
rompendo com preconceitos e atentando contra a soberba judaica.
Recalculado o itinerário, avança para fora das fronteiras de Israel.
O mesmo fez S. Paulo, «Apóstolo dos gentios» (Rom 11,13),
depois que os judeus, homens da sua raça, rejeitaram a sua pregação.
Não sem boa dose de ironia, que é um bom instrumento pastoral,
S. Paulo confessa que procuraria prestigiar o seu ministério,
para despertar nos judeus o ciúme humano, no sentido da emulação,
a fim de que, provocados, pudesse salvar «alguns deles» (Rom 11,14).

[Sandálias de S. Paulo. Basílica de S. Paulo Fora dos Muros, Roma. Fotografia © Joaquim Félix]
5. «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim» (Mt 15,22).
Desde esses «arredores», os de Tiro e Sidónia, surge este grito.
De quem era? De um cego ou de um coxo, à espera da própria cura?
Não, saía da boca de uma mulher, aflita, mas resiliente,
que, como mãe compadecida, pedia a cura da sua filha.
Sem esconder a sua identidade, interpelou Jesus por três vezes,
dando-lhe luta na argumentação, permanecendo num registo de fé,
até porque se Lhe dirigiu com títulos ― «Senhor» e «Filho de David» ―
que equivalem a reconhecer Jesus como o Messias.
Para os judeus ― em particular, os Doutores da Lei e os fariseus,
que, antes, tinham confrontado Jesus ―,
a Fenícia, donde esta mulher parece ser oriunda,
era considerada como uma terra «não recomendável».
Para os mais intransigentes defensores das instituições judaicas,
os habitantes desta região eram considerados como «cães».

[Sem esconder a sua identidade, interpelou Jesus por três vezes. Fotografia © Joaquim Félix]
6. Jesus conheceria essa «etiqueta», que por nada era lisonjeira.
Eis porque, depois de interpelado pelos seus discípulos,
uma vez que Ele nem sequer lhe dirigira palavra alguma
em resposta ao seu primeiro apelo, e ela persistisse em ser atendida,
Jesus respondeu-lhe, talvez com certa moderação na linguagem:
«Não é justo que se tome o pão dos filhos
para o lançar aos cachorrinhos» (Mt 15,26).
Esta mulher, porém, de quem nem sequer conhecemos o nome,
dá-Lhe réplica, como convém que façamos nós também,
nos diálogos com Jesus, sempre e não só quando estamos aflitos.
E, com a mesma empatia da expressão de Jesus,
respondeu-Lhe segundo a elegância da linguagem da fé:
«É verdade, Senhor, mas também os cachorrinhos
comem das migalhas que caem da mesa de seus donos» (Mt 15,27).

[Esta mulher dá-Lhe réplica, como convém que façamos nós também. Fotografia © Joaquim Félix]
7. Depois da argumentação, na qual sublinha a sorte dos cachorrinhos,
como poderia Jesus responder a esta mulher?
Estaria Jesus aberto para passar por cima da sua prioridade,
evocada na resposta aos seus discípulos, que por ela intercederam?
Poderia Ele afastar-se de quanto ouvimos na passagem do Trito-Isaías,
sem cumprir o que, em relação aos estrangeiros, Deus manifestou?
Que solicitava o Senhor,
só para recordarmos, e não esquecermos como os judeus?
Pois, é isso mesmo: a guarda do sábado, sem profanação,
e a fidelidade à aliança por Ele estabelecida.
Observadas estas duas condições, o Senhor promete-lhes:
«Hei de conduzi-los ao meu santo monte,
Hei de enchê-los de alegria na minha casa de oração» (Is 56,7).
Também o culto dos estrangeiros será acolhido, porque como diz o Senhor:
«a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos» (Is 56,7).
É verdade que, na reconstrução do Templo de Jerusalém,
já se tinha construído o «Átrio do Gentios», uma grande inovação,
mas, muito dificilmente, os estrangeiros acediam aos outros átrios.

[«Hei de enchê-los de alegria na minha casa de oração» (Is 56,7). Praça de S. Pedro, Vaticano. Fotografia © Joaquim Félix]
8. «Mulher, é grande a tua fé.
Faça-se como desejas» (Mt 15,28).
A resposta de Jesus
― que sempre se opôs a quem transformou a casa de Deus
num «covil de ladrões» (Mt 21,13) ―
é desarmante, conferidora da alegria divina àquela mulher,
que, descendo a casa, e segundo o seu desejo, veria a sua filha curada.
Bem, não querendo investigar em demasia, perguntemo-nos:
Por que é que Jesus parece quase insensível aos seus gritos
e, só depois do pedido de socorro e desta resposta, a atendeu?
Há biblistas que pensam que isto corresponderá a uma «estratégia»
na construção do Evangelho de S. Mateus? Qual?
Tendo ele escrito o Evangelho para cristãos de origem judaica,
observando que muitos tinham resistências
em relação à entrada de gentios nas comunidades cristãs,
procurou, por um lado, desmantelar seus os preconceitos,
e, por outro, conceder protagonismo e mérito à mulher cananeia,
a qual, com a sua persistência e argumentação,
acabaria como que a dar outra «elasticidade» ao horizonte de Jesus.
Ele que, como bem sabemos ― pela sua pregação e gestos ―,
defendia a construção do Reino sem aceção de pessoas.

[Jesus defendia a construção do Reino sem aceção de pessoas. Migrante a vender produtos. Roma. Fotografia © Joaquim Félix]
9. Celebra-se hoje o último dia da Semana Nacional da Mobilidade Humana.
Em sintonia com a Palavra deste dia,
valeria a pena rever várias das significativas declarações,
proferidas por D. Pedro Fernandes,
que preside à Comissão Episcopal da Mobilidade Humana;
por Eugénia Quaresma, diretora deste Secretariado Nacional
e da Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM).
E, claro também, as declarações de D. Andres Carrascosa,
Núncio Apostólico em Portugal,
que disse, também na homilia, o que parecia um refrão:
«O povo português não tem o direito de ser xenófobo».
Aliás, nenhum povo, seja ele qual for, tem esse direito!
10. Tendo presente não apenas a realidade portuguesa,
mas também as situações dramáticas em muitos outros países,
desde logo em Espanha e Marrocos,
que atravessam dias difíceis com a crise de migrantes em Ceuta,
gostaria de ler uma passagem de um «livro de vida»;
nem mais, de Miñán – Irmãozinho.
É um livro autobiográfico comovente
escrito por Ibrahima Balde (com a voz)
e Amets Arzallus Antia (com a mão).
Nele, são narrados os sofrimentos e audácias de Ibrahima,
― sem desejos de vir para a Europa ―,
que teve de atravessar vários países africanos e o Mediterrâneo,
à procura do seu irmão mais novo.
Quando vimos, há dias, a multidão de setenta ou oitenta mil pessoas,
que passaram a fronteira de Ceuta, e, ontem, a carga da polícia marroquina,
teremos dificuldade em considerar a situação de cada um
e, facilmente, poderemos julgá-los, sem atender às suas circunstâncias.
Por isso, ainda que hoje a homilia demore um pouco mais,
vamos conceder-lhe a voz, ouvindo-o com atenção.
Entre o capítulo XXIII da terceira parte e o epílogo
(da autoria de Amets Arzallus Antia),
depois de Ibrahima ter narrado a sua sacrificada vida,
desde a Guiné Conacri até chegar a Espanha,
ele remata o livro com o poema, que dita assim:

[Capa do livro Miñán – Irmãozinho. Fotografia © Joaquim Félix]
«Mas este relato tem mais tus.
Tu és Ismail
ou tu és Emi,
pergunto-te se ainda vives
e onde te levou a sorte.
Ou tu és talvez
aquele que cruza agora o deserto
ou o que está na mata à espera de uma travessia;
toda esta informação é também para ti.
Ou tu és aquele que me ajudou a chegar,
em Orão ou em Irún,
quantos tus.
Ou simplesmente
tu és tu,
aquele que agora lê este poema.
Perguntar-te-ás:
Esse tu sou eu?
Sim,
se quiseres,
esse tu és tu,
mas eu não,
eu sou Ibrahima
e esta é a minha vida».
11. Depois deste momento, poderíamos fazer silêncio
e pensar na resposta que poderíamos dar à pergunta:
«Esse tu sou eu?»
Ainda assim, e tendo-o já escutado na apresentação do livro,
na capela da Imaculada, em Braga,
queria dedicar-lhe uma canção ― na esperança que a oiça ―,
já com alguns anos, na qual todos nos poderemos rever.
Ela corresponde à musicalização do poema de León Felipe
interpretada por Paco Ibáñez.
Para ajudar quem não esteja familiarizado com o idioma castelhano,
traduzi-o, a partir da ANTOLOGÍA ANARQUISTA … siglo XXI.
Selección, prólogo & reseñas de Omar Ardila.
Bogotá: Un Gato Negro Editores, 2013:
«COMO TU
Assim é a minha vida,
pedra,
como tu; como tu,
pedra pequena;
como tu,
pedra ligeira;
como tu,
canto que rolas
pelas calçadas
e pelas veredas;
como tu,
seixo humilde das estradas como tu,
que nos dias de tormenta
te afundas
na lama da terra
e logo
centelhas
debaixo dos cascos
e sob as rodas
como tu, que não serviste
para ser nem pedra de um Mercado,
nem pedra de uma Audiência,
nem pedra de um Palácio,
nem pedra de uma Igreja;
como tu,
pedra aventureira;
como tu,
que, talvez, estás feita
só para uma funda,
pedra pequena
e
ligeira…»

[Obra de Clara Cápua, da série de colagens fotográficas, onde entrelaça o seu rosto com os das suas antepassadas (a partir do arquivo familiar), cujos gestos de montagem e sobreposição permitem investigar questões de identidade, memória e ação do tempo. XXIV Bienal Internacional de Vila Nova de Cerveira. 2026. Fotografia © Joaquim Félix]
12. Porque muitos de nós se encontram em férias,
faço uma sugestão que toca todos estes temas,
os das fronteiras com o da mobilidade humana.
Quem puder, visite a XXIV Bienal Internacional de Arte de Cerveira,
que decorre de 18 de julho a 30 de dezembro de 2026,
sob o tema «Territórios sem Fronteira».
Logo à entrada, poderá ler esta expressão escrita no chão:
«O território é o chão e mais a população».
A frase é uma citação famosa do geógrafo brasileiro Milton Santos.
Depois, é possível deambular, por entre muitas obras de arte,
e contemplar, por exemplo, a instalação «NEXUS», de Vhils,
e as colagens fotográficas da brasileira-italiana, Clara de Cápua,
para pensar, sim, mas sobretudo para, com coerência evangélica,
agirmos segundo o que aprendemos de Jesus.

[“NEXUS”, instalação imersiva (site-specific) de Vhils (Alexandre Farto). Legenda: «Uma parede fraturada transforma-se numa passagem espelhada, refletindo sobre migração, transformação e identidade em constante movimento». XXIV Bienal Internacional de Vila Nova de Cerveira. 2026. Fotografia © Joaquim Félix]
13. Sem recapitular a inesgotável amplitude da Palavra,
antes de terminar, gostaria que meditássemos em dúvidas e perguntas,
que o rapper Boss AC, nascido no Mindelo, Cabo Verde,
mas crescido em Lisboa, nos propõe no tema «Que Deus»,
do álbum «Ritmo, Amor e Palavras – (R.A.P.)», de 2005.
Nem todas elas serão partilhadas por cada um de nós,
mas são as perguntas e as dúvidas de Boss AC,
muitas delas ouvidas nas conversas de rua ou com amigos.
Tendo presente o repto lançado por Deus,
que pedia o respeito pelo direito e a prática da justiça (cf. Is 56,1),
coloquemo-nos diante de algumas das perguntas dele:
«Se sou feito à tua imagem porque é que durmo na calçada?
Será que pedir a paz entre os homens é pedir demais?
Porque é que sou discriminado se somos todos iguais?
(…)
Porquê?
Porquê que os Homens se comportam como irracionais?
Porquê que guerras, doenças matam cada vez mais?
Porquê que a Paz não passa de ilusão?
Como pode o Homem amar com armas na mão? Porquê?
(…)
Será que essa é a justiça pela qual eu tanto reclamo?
Será que só percebemos quando chegar a nossa altura?»

[Incipit da frase «O território é o chão e mais a população», presente no Hall de entrada na xxiv Bienal de Cerveira, 2026. Fotografia © Joaquim Félix]
14. Senhor, que migalhas cairão
para debaixo da mesa da tua Palavra e do teu Corpo.
Sentados à mesa das nações,
alimenta-nos como irmãos e discípulos teus;
como cachorrinhos, melhor, como filhos de Deus,
que acreditam na construção do Reino e cantam:
«Os povos Vos louvem, ó Deus,
todos os povos vos louvem» (Sl 67,8).

[Fragmento da frase «O território é o chão e mais a população», presente no Hall de entrada na xxiv Bienal de Cerveira, 2026. Fotografia © Joaquim Félix]
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens e Teorbas da Palavra. Este texto corresponde à homilia de domingo, 16 de agosto, [domingo xx do tempo comum ― a ― 2026, último dia da semana nacional da mobilidade humana], proferida na igreja de Santa Cruz, em Braga.










