Esta crise das lideranças é dramática

| 12 Ago 20

Pode-se dizer que existe hoje uma reconhecida crise de lideranças qualificadas generalizada a todo o mundo e praticamente em todos os sectores de actividade, da política ao desporto e das artes e meios intelectuais ao campo religioso. Ninguém escapa à degradação.

 

É claro que quem nunca viveu senão em ditadura, quem pouco sabe do que se passa no mundo ou quem nunca viajou, dificilmente terá termo de comparação.

Se olharmos para a actividade política quase só encontramos ditadores declarados ou travestidos de democratas como Duterte, Putin, Lukashenko, Órban, Xí Jìnpíng ou Maduro, já para não falar em África ou na América Latina em geral. Depois temos outros, de perfil autoritário, que tentam passar por cima do estado de Direito, mas vão encontrando obstáculos a tal intenção, como Trump ou Bolsonaro, os quais, como se sabe há muito, mentem todos os dias nas suas declarações públicas e distorcem os factos sem qualquer pudor.

E se falarmos de incompetência, basta o testemunho de um dos principais organizadores da campanha eleitoral de Bolsonaro em São Paulo, Major Olímpio, que conta que o candidato não se preparava para debates: “Nos dava agonia.” Dizendo-se desiludido com a política, após romper com Jair Bolsonaro, confirmou à imprensa que terminada a eleição “nós não tínhamos um projecto para o país”.

Mesmo na velha Europa o que vemos são indivíduos muito pequeninos, em dívida para com a ética política, a moral pessoal e desprovidos de sentido de estado. A corrupção ronda estas figuras e contam-se pelos dedos das mãos as que conseguem manter uma postura decente. Temos ainda os grupos extremistas de direita e de esquerda que ameaçam os regimes democráticos, os quais por sua vez se vão deixando colapsar aos poucos por dentro.

Mas se formos para o campo religioso deparamo-nos cada vez mais com lideranças obsoletas, que não sabem comunicar, com uma visão estreita do mundo e de tendências autocráticas. À semelhança do terreno político, as lideranças mais conhecidas hoje são os populistas religiosos, em especial os de tipo neopentecostal que ousam lançar mão de quaisquer meios para atingir os fins que pretendem, incluindo a manipulação das notícias ou a criação e difusão de notícias falsas.

Apesar de tudo, Trump é fervorosamente apoiado por sectores cristãos para quem os fins justificam os meios. Recentemente tentou mentir de forma descarada em entrevista à Fox News, uma televisão habitualmente subserviente para com esta Administração, mas foi contraditado pelo jornalista, o que o deixou extremamente desconfortável e furioso por não ter conseguido passar mais uma falsidade em forma de ataque desvairado ao seu adversário político nas próximas eleições.

No Brasil, está a ser investigada pela justiça uma gigantesca campanha de notícias falsas, ao que parece forjada por círculos familiares ou próximos da presidência, com o fim de denegrir os adversários políticos ou de enganar o país. Ainda agora o Presidente se gloriou nas redes sociais pela aprovação do Fundeb quando a verdade foi que o Congresso que aprovou a lei contra a vontade do governo, que fez tudo para cortar as verbas para a Educação, e os únicos a votar contra a nova lei foram sete deputados seus parceiros políticos.

Por outro lado, surgem nos meios intelectuais e artísticos figuras de referência que tendem a não respeitar o sentir profundo, a história, a cultura e as convicções da maioria da população, e se arvoram em vanguardas das massas que se encontram fora de tais círculos, o que provoca não apenas uma rejeição dessas ideias fracturantes, mas também uma reacção por vezes extremada, o que explica a emergência dos populismos de extrema-direita.

Mesmo na vida financeira e empresarial são escândalos atrás de escândalos, com acusações de fraude e corrupção, seja na banca (Ricardo Salgado-BES, João Rendeiro-BPP, Oliveira Costa-BPN) e ou nas empresas (Mexia, Manso Neto, Joe Berardo).

Se nos países do hemisfério sul e nas regiões mais pobres do planeta a corrupção tende a ser endémica, como forma de sobrevivência nuns casos e de deslumbramento do poder noutros, ela faz-se presente de forma progressiva no mundo ocidental, quando nenhuma destas explicações deveria fazer sentido, a não ser pela constatação de que os seres humanos são feitos da mesma massa onde quer que vivam.

No caso português e na Europa, não se pode alegar que esta crise de liderança se origina em qualquer questão de défice educativo ou de falta de formação. Pelo contrário, é mesmo um problema de ética social. Mas o evangelho adianta uma explicação: “Porque do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as fornicações, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissolução, a inveja, a blasfémia, a soberba, a loucura. Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem” (Marcos 7:21-23).

Esta crise global das lideranças tornou-se dramática num tempo em que a boçalidade, a manipulação e a irresponsabilidade imperam nas televisões e nas redes sociais. Para quando uma nova geração de verdadeiros estadistas como o mundo já conheceu no passado?

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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