Pães votivos, barrigas de freira, papos d’anjo, beijinhos, raivas, suspiros, tíbias, toucinho do céu… No núcleo de Santo António do Museu de Lisboa (junto à igreja do santo) a exposição Quando o Corpo se Faz Doce – Erotismo e Religiosidade na Doçaria Portuguesa mostra doces de inspiração monástica ou religiosa cuja designação remete para partes do corpo, sentimentos e emoções, incluindo nas referências sensuais de alguns. Ovos, farinha e manteiga, leite, mel e frutos, aromas, banha e especiarias convertem-se numa mostra original em que os doces se tornam “peças de museu” e “repositório da História e da Cultura portuguesas”.
Patente até ao próximo domingo, dia 10 de Agosto, a exposição “partiu da (inesperada) correlação que encontramos entre Santo António de Lisboa e São Gonçalo de Amarante”, conhecidos como casamenteiros das jovens (o primeiro) e das mulheres de mais idade (o segundo), como explica também na abertura do catálogo o coordenador do Museu de Lisboa, Pedro Teotónio Pereira.

‘Ovos, farinha e manteiga, leite, mel e frutos, aromas, banha e especiarias convertem-se numa mostra original em que os doces se tornam “peças de museu” e “repositório da História e da Cultura portuguesas”’. Foto © EGEAC-Museu de Lisboa, José Avelar
Uma verdadeira surpresa, onde se cruzam as referências bíblicas à importância do alimento, a beleza da confecção, o sagrado e o profano como um só na simbiose do humano, a diversidade criativa, o desejo e a sublimação que o alimento comporta, a comida como símbolo maior da relação com Deus (presente, no cristianismo, na centralidade da eucaristia).
Nos textos do imprescindível catálogo, Paula Barata Dias e Cristina Oliveira Bastos, comissárias e responsáveis pela investigação e execução científica, destacam ainda elementos importantes como o “saber sobretudo feminino”, a “associação entre a doçaria tradicional e a religiosidade” mais antiga ou do “cristianismo formal, incorporado e aprendido”. Esta é também “uma doçaria que representa um mundo de corpos”, traduzindo um aparente paradoxo: “se a doçaria tradicional se inscreve na religiosidade, como pode estar presente o apelo à visão e à degustação, quase antropofágica, do doce feito corpo?”

“O pão é, desde há muito, o “alimento-símbolo” e, na Bíblia, traduz as ideias de harmonia e paraíso – mas também do oposto: quando a harmonia se rompe, no episódio simbólico da desobediência de Adão e Eva, é com o suor do rosto que o pão será ganho.” Foto © EGEAC-Museu de Lisboa, José Avelar
O percurso expositivo mostra sobretudo os diferentes doces das diversas regiões, festividades e celebrações do país. Núcleo relevante, o dos pães votivos: de Santo António (Lisboa e Coimbra), Rita de Cássia (Lisboa), da Rainha Santa (Coimbra), de São Bento (Ançã, Coimbra), o Charolo de São Gonçalo (Outeiro, Bragança). O pão é, desde há muito, o “alimento-símbolo” e, na Bíblia, traduz as ideias de harmonia e paraíso – mas também do oposto: quando a harmonia se rompe, no episódio simbólico da desobediência de Adão e Eva, é com o suor do rosto que o pão será ganho.
“Esculturas doces”, como as designam as duas comissárias, esta doçaria remete para “a sublimação do prazer gustativo intenso [que] prefigura a união da alma com Deus e as graças do paraíso”. Por isso não é de estranhar que, assumindo tradições anteriores ou jogando com a ambiguidade de expressão, surjam também doces com designações corporais, sensuais ou eróticas – alguns deles mais evidentes, outros apenas sugeridos, alguns com a origem mais ou menos determinada, outros apenas inferida. São exemplos disso as maminhas de freira, os beijinhos, a gancha de São Brás, a ferramenta de São Gonçalo ou os pães e bolos de cornos.

“Esta é também “uma doçaria que representa um mundo de corpos”, traduzindo um aparente paradoxo: “se a doçaria tradicional se inscreve na religiosidade, como pode estar presente o apelo à visão e à degustação, quase antropofágica, do doce feito corpo?” Foto © António Marujo / 7MARGENS
No itinerário do catálogo, além de se contar a história de cada doce em particular, recorda-se ainda a sugestão antropofágica do “comer Deus” (presente desde logo na Última Ceia ou num salmo (34, 9) que diz “saboreai e vede como o Senhor é bom”; a relação entre natureza, trabalho e sagrado, que converte substâncias, produtos e alimentos em algo que, através do trabalho, traduz a gratidão, a festa e a sacralização da vida; e ainda a importância da doçaria conventual na criação de muitas das receitas que aqui se vêem transformadas em doçaria. “Nos doces conventuais, a sublimação do prazer gustativo intenso prefigura a união da alma com Deus e as graças do paraíso”, escrevem as comissárias da exposição. “O doce extasia logo na contemplação da sua beleza, na sugestão da sua forma, no seu nome, entre o céu e a terra.” E, se é verdade, como acrescentam as autoras, que a maior parte dos mosteiros e conventos desapareceu, é de registar que há ainda alguns, em Portugal, que mantêm a tradição de fazer doces ou bolachas como uma das formas de subsistência – as beneditinas de Roriz, por exemplo, que o digam, como até há poucos anos, em Lisboa, as Monjas Dominicanas do Lumiar também o faziam nas deliciosas bolachas de manteiga, aveia ou canela que confeccionavam.

Pão votivo da Rainha Santa, Coimbra: “O doce extasia logo na contemplação da sua beleza, na sugestão da sua forma, no seu nome, entre o céu e a terra.” Foto © António Marujo / 7MARGENS
No início da exposição (e do catálogo), evoca-se a frase do livro de Génesis: “E Deus contemplou toda a sua obra. E tudo era bom.” Esta exposição também o confirma.
Quando o Corpo se Faz Doce – Erotismo e Religiosidade na Doçaria Portuguesa
Museu de Lisboa – Santo António
Até 7 de Setembro; de terça a domingo, das 10h às 18h (última entrada 17h30).
Entrada: 3 €
Mais informação: https://museudelisboa.pt/pt/events/19554-exposicao-quando-corpo-doce/
Catálogo disponível nas lojas dos diferentes núcleos do Museu de Lisboa.










