Deportações de migrantes

“Esta política imoral envergonha a Grã-Bretanha”

| 15 Jun 2022

Boris Johnson tem enfrentado muitas críticas com decisão do Governo em deportar migrantes e refugiados. Foto © 10 Downing Street, OGL 3 <http://www.nationalarchives.gov.uk/doc/open-government-licence/version/3>, via Wikimedia Commons.

Boris Johnson tem enfrentado muitas críticas com decisão do Governo em deportar migrantes e refugiados. Foto © 10 Downing Street, OGL 3, via Wikimedia Commons.

 

A Igreja anglicana considerou a deportação de migrantes e refugiados para o Ruanda, decidida pelo governo de Boris Johnson, como uma política vergonhosa, não para o país de destino, que recupera de um genocídio, mas para a Grã-Bretanha.

Entretanto, o primeiro voo, que deveria ter partido na noite desta terça-feira, 14, foi cancelado à última hora, na sequência da decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos relativamente a um dos casos em questão.

Segundo a BBC, inicialmente estava previsto o embarque de 37 refugiados neste voo ‘inaugural’, mas casos que estavam pendentes em tribunal levaram a reduzir esse número para sete, antes de os magistrados europeus se terem pronunciado.

O governo mostrou-se desapontado com o cancelamento, mas já anunciou que um novo voo começará a ser preparado de imediato.

O arcebispo de Cantuária, Justin Welby, e os restantes 24 bispos seniores da Igreja de Inglaterra, que têm assento na Câmara dos Lordes (parte espiritual), fizeram publicar uma carta no jornal Times, de Londres, horas antes da partida prevista do primeiro voo, na qual condenam com veemência a política governamental relativamente aos imigrantes ilegais.

“A vergonha é nossa, porque nossa herança cristã deve inspirar-nos a tratar os requerentes de asilo com compaixão, justiça e equidade, como temos feito há séculos”, declaram os hierarcas anglicanos, na tomada de posição. “Aqueles que forem deportados para o Ruanda não tiveram oportunidade de recorrer ou de reunir a família na Grã-Bretanha. O seu pedido de asilo, o reconhecimento das suas necessidades médicas ou outras, ou qualquer tentativa de entender a sua situação não foram tidas em consideração”, acrescenta a carta.

“Não devemos terceirizar as nossas responsabilidades”

Recordando que muitos dos ilegais “são pessoas desesperadas que fogem de horrores indescritíveis”, incluindo cidadãos iranianos, eritreus e sudaneses, que “têm uma taxa de concessão de asilo de pelo menos 88 por cento”, os bispos declaram que eram estes que Jesus tinha em mente, quando apelava a exercer hospitalidade para com os estrangeiros.

“Não podemos oferecer asilo a todos, mas não devemos terceirizar as nossas responsabilidades éticas ou descartar o direito internacional – que protege o direito de solicitar asilo”, advertiram ainda.

Ripostando a uma posição crítica desta política anteriormente manifestada por parte do arcebispo de Cantuária, o primeiro-ministro britânico disse que a Igreja anglicana foi mais crítica do envio de imigrantes para o Ruanda do que da invasão da Ucrânia por parte da Rússia.

No campo católico foram também várias as declarações que condenam esta subcontratação de imigrantes. O arcebispo de Glasgow, William Nolan, escreveu no Twitter, que “a política de deportar à força para o Ruanda pessoas que vieram para este país em busca de segurança é moralmente errada”. “É uma ofensa à dignidade humana e contra todas as melhores tradições de acolhimento deste país”, acrescentou.

Por sua vez, o núncio apostólico no Reino Unido, Claudio Gugerotti, também visitou um alojamento temporário para requerentes de asilo que dispõe de instalações “impróprias para habitação” e manifestou o seu repúdio à medida governamental, num encontro com a ministra do Interior, Priti Patel.

Um número ilimitado de migrantes por 140 milhões de euros

Também o Serviço Jesuíta aos Refugiados considerou o plano um sinal de “desprezo vil pela humanidade e dignidade”. Num post do blog da organização, escreve-se que este plano é “cruel, perigoso e impraticável”, dado que não há evidências de que ajudará a alcançar os objetivos visados pelo governo de ‘atingir o modelo de negócio do trafico de pessoas’. “Há muitas evidências de que [o plano] fará muito mal” e “é extraordinariamente caro”.

Calcula-se, entretanto, em mais de uma centena o número de instituições de fins sociais (‘charities’) que manifestaram oposição frontal a este tipo de política. Nos media britânicos diz-se mesmo que o príncipe de Gales, falando a título privado terá considerado “lamentável” este plano.

O plano acordado com o Ruanda e anunciado pelo governo em abril último, visa recambiar para aquele país africano, a mais de 6 000 km, um número ilimitado de imigrantes ilegais, que atravessam o Canal da Mancha. Esses imigrantes recebem um bilhete de ida e devem solicitar asilo nesse país de destino.

O objetivo do governo conservador britânico é desincentivar outros candidatos a atravessar o Canal.

Como parte do acordo, o Reino Unido dará ao Ruanda uma quantia inicial de 120 milhões de libras (cerca de 140 milhões de euros), para uma fase de teste. Por outro lado, à Marinha britânica foi atribuído o comando do Canal.

A pressão de migrantes continua a fazer-se sentir. Segundo o Ministério da Defesa do Reino Unido, 444 imigrantes foram detetados a tentar atravessar o Canal da Mancha em pequenos barcos, só nesta terça-feira. Desde 14 de abril, em que as autoridades apanharam 562, que não se registava um número tão elevado.

 

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