Publicamos hoje o sexto texto sobre 1700 anos do Concílio de Niceia (atual İznik, Turquia), de uma reflexão de Vítor Rafael, colunista regular do 7MARGENS, doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. [Ler textos anteriores]
Subiu ao céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso
Qual o significado hoje da doutrina da Ascenção de Jesus ao céu? Como os cristãos primitivos entendiam o céu? Será um local físico onde o Deus Todo-Poderoso habita? Ou o que se entende quando se diz que Jesus está sentado à direita de Deus? Deixo aqui alguns pontos como ponto de partida para reflexão e discussão.
Subiu ao céu
Ascensão de Cristo (Actos I, 1-9): Estudo para vitral (c. 1875-1884), desenho de alta resolução de Sir Edward Burne-Jones. Original do Metropolitan Museum of Art.
No Evangelho de João, no diálogo com Maria Madalena, Jesus afirma: “Ainda não ascendi para o Pai. Vai para junto dos meus irmãos e diz-lhes: ‘Subo para o meu Pai e vosso, Deus meu e Deus vosso.” Mas o que é o céu, que lugar é esse de que Jesus fala? O conhecimento científico de há dois mil anos era extremamente limitado. Quando se fala de céus nas escrituras, tanto no Antigo Testamento (Shamayim), como no Novo Testamento (Ouranós), podemos desde já observar alguns conceitos diferenciados. Primeiro, o céu como um local físico, que corresponde ao nosso firmamento, os céus visíveis, o céu estrelado, onde habitam os seres espirituais não materiais. Pensava-se que esse firmamento era como uma espécie de abóbada e que formava um semicírculo por cima da terra. Temos também o céu como lugar não material, onde Deus reside com os seres angelicais. Existe ainda o conceito rabínico de céu estratificado em sete camadas, cada um com o seu grau de transformação e em que a passagem do mais inferior ao superior corresponderia ao aumento de glória em glória.
Um facto curioso: nas cosmologias greco-romanas os céus eram a morada dos deuses, mas não aquele lugar bom para onde as pessoas vão quando morrem. No entanto, os primeiros cristãos não interpretaram literalmente a ascensão de Jesus para esse lugar, para junto de Deus. Quando, nos finais do século XVIII, o francês Jean-François Pilatre de Rozier subiu acima das nuvens num balão de ar quente, afirmou que não viu Deus, Jesus ou qualquer outro ser. Até mesmo o cosmonauta russo Yuri Gagarin, o primeiro a subir ao espaço sideral em 1961, declarou: “Estive lá em cima no céu e não vi Deus. Não vi anjo nenhum nem vi o trono de Deus.” Certamente que neste ponto devemos interpretar a ascensão de Jesus aos céus como uma metáfora, no sentido que este evento está para além dos limites da nossa realidade apreendida.
Penso, como o teólogo Hans Küng, que o céu não será tanto um lugar, mas sim, uma forma de ser, já que Deus não é localizável no espaço, nem limitado no tempo. Jesus, na oração do Pai Nosso, pede que oremos para que o Reino venha até nós, que permeie a nossa realidade afim de que o céu desça à terra. A ascensão, metaforicamente, deveria ser então entendida como um modelo para cada um dos cristãos. Penetrar na realidade de Deus será, ao fim e ao cabo, permitir que Deus, tal como fez em Jesus, nos leve a todos nós à plenitude do Bem, fazendo-nos participantes da sua glória e do seu Reino, tanto no céu como na terra.
Está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso

Antonio de Pereda, pintor espanhol, (1611-1678): A Santíssima Trindade.
Nas culturas orientais, quem está sentado à direita do anfitrião ou do rei, é o convidado de honra. Se lermos os evangelhos, e observando a vida de Jesus, podemos confirmar que ele tinha um relacionamento muito especial com o seu Pai. O próprio Jesus, citando o Salmo 110, afirma: “Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés” (Mateus 22:44). Jesus, no entender do autor da Epístola aos Efésios, partilha agora com o Pai toda a autoridade sobre todo o poder, principado, autoridade, potestade e dominação (Efésios 1,19-22).
As interpretações deste excerto podem ser diversas, já que o conceito de poder segundo Jesus é totalmente oposto ao que é comummente aceite. Lendo os evangelhos, verificamos que o exercício da não-violência é intrínseco à mensagem do Reino pregada por Jesus. Quando os seus discípulos lhe pediram para que enviasse fogo do céu para destruir os samaritanos, pela recusa destes em recebê-los, Jesus ficou deveras indignado: “O Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (Lucas 9:51-56). Jesus é o mesmo ontem, hoje e eternamente (Hebreus 13:8) e jamais exercerá o seu poder e autoridade a não ser pelo amor, pela misericórdia e compaixão para com todas as pessoas.
Uma outra ideia remete para Jesus, o Sumo Sacerdote, o qual “depois de oferecer pelos pecados um único sacrifício, sentou-se para sempre à direita de Deus”, conforme descrito pelo autor da Homilia [Carta] aos Hebreus, capítulo 10, versículo 12. A imagética dos sacrifícios oferecidos no Templo nada tinha a haver com o “apaziguar” ou compensar a Deus pelos pecados cometidos. Deus não necessita certamente de sacrifícios nem de ofertas (Hebreus 10:5), muito menos o sacrifício da vida do Seu Único Filho. Jesus garante-nos que o Pai não requer dos homens quaisquer sacrifícios, como erradamente se pensava até então, mas sim misericórdia: Deus é pura gratuitidade e amor (Oseias 6:6; Mateus 9:13).
Existe ainda uma outra imagem extraída do direito romano, em que o advogado que ganha a causa se senta à direita do juiz antes de ser proferida a sentença. No evangelho de João são significativas as ultimas palavras de Jesus, “Está tudo cumprido” (João 19:30). A palavra grega tetélestai significa “fim”, “completude”, “perfeição” e vinca bem a ideia que Jesus cumpriu completamente e na perfeição os desígnios de Deus Pai Todo-Poderoso. Estando agora à direita do Pai, Jesus, o nosso advogado, verdadeiro Deus, verdadeiro homem, Aquele que levou a humanidade diante de Deus e que conhece as fraquezas e dores de todos, intercede agora por todos em todo o tempo e lugar.








